Três perguntas: Luiza Lian fala do disco “Azul Moderno”

por Leonardo Vinhas

No final de 2017, visitei a sede do selo RISCO e ali, a cantora Luiza Lian e o produtor João Bagdadi Neto (um dos sócios do selo) me mostraram as demos do que viria a ser o terceiro disco de Luiza. Era uma obra surpreendente, por dois motivos: o primeiro era por ser um álbum orgânico, de banda, muito diferente do minimalismo eletrônico e sombrio do ótimo “Oyá Tempo”, segundo e celebrado álbum de Luiza; o segundo, por conseguir apresentar uma “modernização” do samba rock que não soava como mero artifício – ao contrário, resgatava o melhor do gênero sem apelar para os extremos de soar reverente ou de vandalizar a estrutura que faz do estilo ser aquilo que ele é.

Nova surpresa viria ao escutar, já agora em outubro de 2018, a versão finalizada de “Azul Moderno”. Aquele disco de banda, fluido, cheio de apelo pop, teve suas referências originais preservadas, mas as texturas foram totalmente transformadas. Luiza pediu a Charles Tixier (da banda Charlie & Os Marretas, e parceiro criativo de Luiza em “Oyá Tempo”) que “destruísse” o material daquelas sessões bucólicas. E foi o que músico fez, introduzindo elementos tecnológicos, porém sem recorrer ao artifício fácil da eletrônica pela eletrônica. Com a produção dividida entre ele e Tim Bernardes, o lado experimental pôde encontrar uma convivência pacífica com o apreço pela canção, e o resultado é um disco único, com uma sonoridade bastante particular. Ainda bonito, ainda pop, mas com uma fluência totalmente diferente. “É a mesma alma, mas outro tempo”, define a artista. Ouça “Iarinhas”, “Sou Yabá, “Geladeira” e a faixa-título para entender, na prática e logo de cara, como isso funciona. Mas não deixe de ouvir o álbum inteiro.

Talvez um dia essa primeira encarnação de “Azul Moderno” (podemos chamar de… “Azul Arcaico”?) venha à tona e se faça escutar. Porque merece ser ouvida. Mas Luiza Lian conseguiu avançar em seu caminho maturidade e ousadia, e o presente dela e de seus ouvintes é esse belo Azul Moderno, sobre o qual ela fala nessa breve entrevista.

As demos de “Azul Moderno” apontavam para uma volta do formato banda, como no seu álbum de estreia (de 2015), com uma instrumentação mais tradicional dentro do formato rock. Só que os arranjos que entraram no disco são bem diferentes disso. As melodias estão lá, mas existe essa instrumentação esparsa, meio desconstruída. O que te levou a mudar o caminho?
O ‘Azul Moderno” começou a ser composto no fim de 2015 e início de 2016. A ideia é que ele fosse meu segundo disco, por isso fomos gravar ele no fim de 2016, meio entrelaçado com o “Oyá Tempo”. Só que, no meio do caminho, muitas coisas foram se transformando. Por um lado, tem músicas que eu canto já há muito tempo, como “Sou Yabá” e “Pomba Gira do Luar”, e, por outro, foram surgindo outras coisas, tipo “Santa Bárbara”. Nessa coisa de ter sido o desenho do meu segundo disco, a gente tinha uma ideia sobre o processo de produção: sabíamos que no fim do ano íamos viajar juntos – eu, Tim, Charles e Gui [Jesus Toledo, músico e produtor] – para o sítio do Gui e começar a levantar as bases. Mas já tinha uma vontade de que o trabalho fosse mais experimental e tivesse uma textura mais eletrônica. Só que, na viagem, a gente percebeu que, como banda, acabávamos fazendo coisas de banda. Porque arranjávamos juntos, e tal. Então não fazia sentido gravar umas bases e depois mandar um sintetizador por cima. Decidimos gravar algumas das sonoridades que a gente queria, e também algumas bases na pegada mais Jorge Ben, samba rock, enfim, gravar as estruturas, esses arranjos, levar esse processo até o fim, para depois o Charles pegar tudo isso e entrar no processo dele, que é diferente do processo de produção com o Tim. A gente fez o disco inteiro e deu para o Charles desconstruir, como se esse disco fosse um remix de um disco que nunca foi lançado. Porque pra mim tinha esse diálogo com o passado, era o que eu imaginava quando a gente foi pro sítio, porque, como eu disse, o “Oyá” já estava mais engatinhado. Depois do sítio, a gente ainda foi pro estúdio e levantou uma porção de vozes, corinhos, e foi essa a versão que você escutou. Foi ai que eu entreguei o material pro Charles e falei: “destrói”. Ele destruiu para reconstruir. É um disco bem paralelo ao “Oyá Tempo”, mas teve mais tempo de maturação. É como se fosse a calmaria depois da tempestade.

“Oyá Tempo” era um projeto de várias linguagens, não só a música, e os shows eram o momento maior disso. “Azul Moderno” traz alguma proposta nesse sentido?
Isso é uma coisa que a gente está descobrindo ainda. Eu tenho um pensamento muito visual, e eu ainda estava entendendo como chegar nele. Se for acrescentar pessoas na minha banda agora, vai ser mais para acrescentar elementos dessa “visualidade” agora do que somar músicos. Digo nesse momento, porque a gente viu que isso é muito importante – para a linguagem, para a mensagem, para o tipo de sensorialidade que eu quero que as pessoas tenham no meu show. Se eu pudesse, faria muito mais, sabe? Seria uma grande instalação. Isso é algo muito forte.

A espiritualidade nunca abandona suas letras, desde o primeiro disco. Por outro lado, o nosso “mundo material”, do qual não escapamos, está cada vez mais polarizado e agressivo. Como você deixa suas letras e suas músicas não serem afetados por esse clima pesado que estamos encarando?
As minhas letras são muito afetadas por isso que a gente tá vivendo. Minhas letras trazem um lugar de angústia, de melancolia… Acho que o “Oyá Tempo” era mais denso que o “Azul Moderno”, que é uma tentativa de olhar as coisas de um ponto de vista um pouco mais amplo, com um pouco mais de calma, em oposição a essa polarização que a gente tá vivendo. Então, isso vai estar diretamente afetado pelo nosso tempo. Acho que não tá suspenso, pelo contrário. É minha maneira de reagir diante dessa cegueira, desse monte de raiva. As minhas letras são, sim, afetadas por isso, mas não dominadas. A espiritualidade me leva a encarar isso de um ponto de vista mais consciente, mais centrada em mim mesmo, porque a espiritualidade é o caminho do autocentramento. A grande dificuldade é manter a espiritualidade nesse momento. Todo meu caminho espiritual até agora foi para não estar na reatividade. É um caminho para o autoconhecimento, para o não julgamento. É minha tentativa, mas muitas vezes a gente não é capaz de não reagir, não embater, não reagir a essa dualidade da vida. Mas acho que é exatamente por ser uma busca que isso fica voltando e depois retorna na minha poesia. Minha maneira de falar qualquer coisa vai ser pela minha poesia, e a espiritualidade invade muito essa poesia, porque ela é central na minha existência. Nesse momento, parece que tudo quer te tirar dessa espiritualidade. Parece que a última coisa que faz sentido dentro desse tipo de tensão, desse embate, de uma guerra, é essa espiritualidade. Qualquer busca, na verdade: um Tai-Chi, uma yoga… Mas acho que é isso que faz a gente se manter na caminhada, sem cair para fora dos eixos, sabe?

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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