Ao vivo: Peter Hook and The Light em SP

Texto por Daniel Tavares
Fotos por Fernando Yokota (veja galeria)

Em quatro dias São Paulo viu três grandes nomes da música visitando a cidade para revisitarem o repertório de suas ex-bandas. Primeiro foi Peter Murphy, trazendo consigo David J, com os sucessos do Bauhaus no domingo, 07 de outubro. Na terça (e quarta), os polêmicos shows do cérebro do Pink Floyd (Syd Barrett sempre foi a alma, David Gilmour, o coração), que, embora tenham incluído algumas das canções de seu álbum solo mais recente, marcaram principalmente pelos sucessos dos álbuns “Animals” e “The Dark Side of The Moon” e pela reação do público às mensagens antifascistas no telão. Ainda na quarta, Peter Hook trouxe ao Áudio seu show com a banda The Light, tocando dois álbuns do New Order, “Technique” e “Republique”, na íntegra (e ainda muitas outras canções de sua ex-banda e do Joy Division).

Hook, que não foi muito britânico no horário, encontrou diante de si uma Áudio Club lotada, mesmo com outros três grandes eventos na região (além de Waters, que se apresentava no Allianz Parque, mais adiante, ali do lado estava o Cypress Hill). Com camisa surrada de domingo à tarde e bermudão, vestido como se tivesse acabado de chegar da praia (que praia?), o tiozão estava acompanhado de outro baixista, Yves Atlana, do guitarrista David Potts, do baterista Paul Kehoe e do tecladista Martin Rebelski, todos de preto.

Ao contrário de outras apresentações recentes da mesma turnê, Peter Hook começou o show com um set de canções do Joy Division. O público, como era de se esperar, cantou junto “Digital” (e seu refrão grudento, “Day In… Day Out…”) e “Day of The Lords”, enquanto fitava hipnotizado o palco em clássicos maiores como “Isolation”. A presença de dois baixos, no entanto, não levava o som para um terreno em que o grave é o rei. Seria até interessante ver como “Isolation” soaria com dois baixos, mas o baixista “extra”, que toca boa parte do tempo, está ali para dar liberdade para Hook de, embora sem discursos, interagir com a plateia ou agir como maestro da banda, mandar subir o volume de algum instrumento, e, principalmente, cantar (sim, Peter Hook não consegue coordenar voz e baixo ao mesmo tempo).

Quando os dois baixistas tocam juntos, no entanto, é um estrondo, seja porque cada um vai com seu timbre particular (e isso é perceptível) ou porque rugem em consonância dando origem a uma trovoada poderosíssima. Por outro lado, canções como a icônica “She’s Lost Control” evidenciam que ainda no Joy Division, Hook (e seus comparsas da época, o vocalista Ian Curtis, o guitarrista Bernard Sumner e o baterista Stephen Morris) já apostavam numa verve eletrônica, posteriormente abraçada com firmeza no New Order. Em “Shadowplay”, que fechou esta primeira parte do show, o público participa brevemente com palmas.

Depois de um breve intervalo, eles voltam com o set dedicado ao disco “Technique” (1989), que marcou a guinada definitiva do New Order para a acid house. Se antes eles tinham um pé no som eletrônico, tendo sido, inclusive, mencionados como uma das bandas pioneiras na mistura de rock e eletrônica, nesse álbum eles puseram os dois pés sem pudor na música para dançar. Apesar disso, ao vivo fica tudo muito orgânico. Canções como “Fine Time” e “All The Way”, que abrem o disco e o set, soam bem mais roqueiras que nas versões de estúdio. Até mesmo “Round and Round”, um dos clássicos do que veio a se chamar dance rock, ainda que tocada praticamente sem guitarra, soa “de carne e osso”, com seu baixo onipresente altíssimo (é isso mesmo, produção? Baixo altíssimo? É. Para nossa alegria) competindo com a tranqueira eletrônica.

O guitarrista David Potts canta “Guilty Partner” e sua voz tem um timbre bem parecido com o de Barney (se você leu a bio de Peter Hook entenderá a sacanagem) e, em determinados momentos, Peter Hook se vale disso. Mesmo Hook, que tem um vozeirão bem mais grave que o ex-colega de banda parece também dar uma aliviada na própria voz para aproximar-se da sonoridade de Sumner. O show continua com cada uma das músicas de “Technique”, com Hook ladeado por dois escudeiros de peso e proporcionando um belo espetáculo em “Run”, “Mr. Disco”, outra que o guitarrista canta, e “Vanishing Point”. Esta era até pra ser música pra transformar a Audio numa pista de dança, mas, se o show não foi sold out, ainda lotou bem. Quem estava no miolo da pista não tinha tanto espaço pra se mexer. A complexa “Dream Attack” pôs fim ao set “técnico” e um intervalo antes do set “republicano” foi essencial para público e banda recuperar as energias.

“Republic” (1993) é um dos álbuns do New order que tem seu melhor início. De cara, já emplacou suas duas primeiras canções nas paradas, nas novelas e não saia das FMs. O riff de “Regret” e o cinismo irônico de “World” até deixam o resto do disco em uma situação difícil, tipo sequência de filme (que quase nunca supera o original). Na primeira, como contraponto às marcantes sequências da guitarra de Sumner, agora de Potts, Hook faz um solo de baixo daqueles. E como é impossível manter-se indiferente a “World”, este foi outro ponto alto do show e muito aplaudido.

Mas o efeito devastador das duas primeiras é realmente sentido a partir daí. Não obstante à qualidade e beleza das canções que se seguiram, como “Ruined in a Day”, a imediatamente próxima, o avançado da hora já começava a fazer com que o público desse sinais de desgaste. Lembrem-se. Era quarta-feira. Muitos ali já tinham trabalhado o dia inteiro, trabalhariam o próximo e talvez até tivessem encarado o show de um certo outro baixista inglês no dia anterior. E também por causa do horário do último trem do metrô, alguns (não tantos, mas um número importante) até já deixavam o recinto.

Quem ficou, mantinha-se firme e buscava forças para continuar empolgado e dançar ao som de canções como “Spooky”, a mais eletrônica do “Republic”. Ora, depois que os New Order fizeram “Blue Monday” parece que ficou fácil pra eles fazerem músicas assim, unindo como ninguém jamais fez muita eletrônica e um baixo poderosíssimo. Sem surpresas, “Everyone Everywhere”, “Young Offender”, “Liar” e todo o resto do disco foi apresentado para deleite dos fãs.

Há dois aspectos bastante óbvios em apresentações assim. Em primeiro lugar é uma oportunidade única para conferir ao vivo canções normalmente relegadas à ausência completa dos set lists. Tendo todas essas músicas sido lançadas bem antes desta época de streaming, o termo single qualificava apenas a música de trabalho dos álbuns, não “a única” a ser incluída numa playlist. Naquele tempo em que os álbuns eram ouvidos na íntegra, quem garante que a música que mais tocou o ouvinte não era um Lado B?

Por outro lado, há também um certo viés negativo, que fica óbvio em álbuns irregulares como “Republic” (até na capa a irregularidade está estampada – ironicamente). E não porque “Chemical”, “Times Change”, “Special” e “Avalanche” não sejam boas. Elas são. Só não tanto quanto “Regret” e “World”, que são seus cartões de visita. Até para o próprio Hook o show é, digamos, desafiador, uma vez que, de vez em quando, ele tem que dar uma pescada na letra das músicas, estrategicamente colocadas à sua frente.

Mas espera aí que ainda tem mais. O quinteto volta para um bis. E que bis. “Blue Monday”, a Eva que mordeu a maçã e fez com que os anos 80 fossem o que foram, incendeia o ambiente e faz com que pareçam 17h novamente. Mesmo com todo o cansaço, todo mundo dança. É realmente um momento “incopiável” e inesquecível. O clima continua em alta em “Ceremony”. O público canta até os pa-na-ná, imagine a letra. Mas há em “Temptation”, aquela do “Trainspotting”, uma nova explosão. Hook ataca o público com seu baixo como se fosse uma metralhadora, mira, faz pose, caras e bocas. E se ainda não era o bastante, “True Faith”. Como no resto do show, a voz de Hook parece baixa e pode até ser de propósito. Na primeira vez que fala ao público, depois de praticamente 3 horas de um show que começou na quarta e terminou na quinta, Hook apenas diz: “Essa eu dedico a vocês”. É aí que o ooô toma conta da Audio, com “Love Will Tear Us Apart”, que encerra o show.

E se foi longo, cabe registrar, ainda caberiam “Perfect Kiss”, “Thieves Like Us”. Fica a dica para quando recebermos a turnê “Get Ready” e “Waiting For The Siren’s Call”, os dois últimos com Hook integrando oficialmente a banda (preferencialmente numa sexta ou sábado, tá?).

Claro, não se pode negar que é uma banda cover. Hook não é New Order, assim como Waters não é Pink Floyd, nem Murphy é Bauhaus, embora nenhuma delas tenha sido o que foi sem a presença de cada um deles. Faltam composições próprias, algo que o próprio New Order fez para distanciar-se do Joy Division e enfrentar o luto por Ian Curtis. Mas a Peter Hook and The Light é uma banda de respeito, imposta pela figura do baixista ali. Se os protagonistas das músicas são, além da eletrônica, que é reproduzível, a voz de Sumners e o baixo de Hook, cada um ficou com uma metade. E, a seu modo, cada um dos dois caminhos pelos quais o New Order de Sumners e Hook seguiu mantem queimando a chama acesa ainda nos tempos de Curtis, o amor no coração dos fãs e o legado na música em geral.

1. No Love Lost (Joy Division)
2. Digital (Joy Division)
3. Isolation (Joy Division)
4. Day of the Lords (Joy Division)
5. Disorder (Joy Division)
6. She’s Lost Control (Joy Division)
7. Shadowplay (Joy Division)
8. Fine Time (New Order)
9. All the Way (New Order)
10. Love Less (New Order)
11. Round & Round (New Order)
12. Guilty Partner (New Order)
13. Run (New Order)
14. Mr. Disco (New Order)
15. Vanishing Point (New Order)
16. Dream Attack (New Order)
17. Regret (New Order)
18. World (New Order)
19. Ruined in a Day (New Order)
20. Spooky (New Order)

21. Everyone Everywhere (New Order)
22. Young Offender (New Order)
23. Liar (New Order)
24. Chemical (New Order)
25. Times Change (New Order)
26. Special (New Order)
27. Avalanche (New Order)
28. Blue Monday (New Order)
29. Ceremony (New Order)
30. Temptation (New Order)
31. True Faith (New Order)
32. Love Will Tear Us Apart (Joy Division)

– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista e mora em Fortaleza. Colabora com o Scream & Yell desde 2014. A fotos são de Fernando Yokota (veja mais fotos aqui) e os vídeos de e Cristiano Souza (há mais no canal dele!)

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