Parquet Courts ao vivo em Boston, EUA

por Bruno Capelas

Uma banda neurótica. Talvez seja uma boa maneira de definir o Parquet Courts, um dos grupos mais prolíficos da década de 2010 — são sete discos desde 2011, o último deles lançado na semana passada, “Wide Awake!”. Na última quarta-feira, 23 de maio, o grupo de Denton, Texas, foi a Boston para mostrar suas novas canções no primeiro show após o début do disco — a turnê oficial, porém, já dura mais de dois meses — e destilar sua energia pelo Royale, casa de shows para cerca de mil pessoas. No olhômetro, o lugar estava com uns 60% de sua ocupação, no máximo.

A abertura coube ao grupo inglês Goat Girl, com quatro garotas em formação clássica — duas guitarras, baixo e bateria, todas elas com apelidos engraçadinhos como Clottie Cream, LED ou Rosy Bones. Em cerca de 45 minutos, elas fazem um som bacana, que faz os presentes ao menos quererem ouvi-las no dia seguinte — na resenha de seu primeiro disco, homônimo, lançado este ano, a Pitchfork apontou para uma versão feminina dos Libertines.

Porém, ao vivo elas soam como uma versão “que se leva menos a sério” de Angel Olsen, ou algo da Lily-Allen-primeira-fase-revoltada-com-os-caras-encontra-guitarras-e-pedais. Apesar das boas canções, porém, o quarteto ainda carece de presença de palco – a postura blasé do indie rock não convém muito às canções das moças.

Presença de palco não falta pro Parquet Courts, uma banda que desde o início já sai fazendo piada com o público e até mesmo se zoando entre si. Eles abrem com uma canção do novo disco, “Total Football” (que inspirou os cachecóis de futebol à moda inglesa postos no fundo do palco), mas, logo na segunda música, “Dust”, já entram naquela boa e velha brincadeira de construir e recusar momentos de energia com riffs repetitivos, algo que funciona tão bem ao vivo para jovens com alguns copos de cerveja na mão — o chope, Samuel Adams, Modelo ou Bud Light, era US$ 5 o pint, caso alguém pergunte.

Trata-se de uma banda que tem refrões (saudades, “Stoned and Starving”, o hino da larica de 2012, que não apareceu no show), mas que enfia esses refrões embaixo de guitarras e mais guitarras, fazendo os presentes pularem – e não precisa muito para que o chão de madeira comece a tremer, especialmente quando enfileiram guitarradas ou sacam, do nada, uma cover de Ramones (“Today Your Love, Tomorrow the World”).

“É bom estar em Boston”, diz o guitarrista/vocalista A. Savage, antes de pedir desculpas por ter falado mal de Tom Brady, o marido da Gisele Bundchen (e ídolo dos esportes locais, quarterback do time de futebol americano New England Patriots, ok). “Mas você tá pedindo desculpa por isso?”, retruca o outro guitarrista, Austin Brown. “É que eu não quero apanhar hoje… but Fuck Tom Brady!”.

Para fazer as pazes com os locais, Savage lê uma lista de suas 15 bandas favoritas de Boston. Em 15º, The Mighty Mighty Bosstones. Em 3º, New Edition. Na vice-liderança, Pixies. Nas cabeças: The Modern Lovers, “a resposta de Boston ao Velvet Underground”. E aí a banda comete “Dear Ramona”, uma canção de sua própria lavra que explica muito bem o topo da lista – em algum lugar, Jonathan Richman sorria com o canto da boca. Na sequência, outras duas pedradas do disco de estreia (“Master of My Craft” e “Borrowed Time”), até que chega a hora de tocar a música do disco novo.

É sempre um momento crítico nos shows – e quem ouve “Wide Awake!” pela primeira vez pode achar que aquela banda sujinha do começo da década foi embora em troca de um sacolejo, especialmente quando um cowbell entra do nada no palco. Tá errado: “Wide Awake!” pode até ser candidata a hit de pistinha indie, mas é um daqueles hits… neuróticos (sabe quando você não consegue dormir e tá fritando no meio da balada? É por aí).

Tanta energia, porém, às vezes é demais: lá pelo meio da apresentação, o show dá uma baixada na velocidade – especialmente quando a banda mostra algumas canções novas, mais lentas e com alguns sintetizadores. (A. Savage pede até que o público não tire fotos quando larga as seis cordas por um cômico tabuleiro de efeitos, no que não é exatamente muito atendido).

É engraçado, no entanto, quando a banda parece querer retomar o ritmo – em uma cena que mostra muito bem seu caminho “alternativo”. Já perto do fim do show, o trio duas-guitarras-e-baixo embarca em um solo gigantesco, uma zoeira que poderia sair das mãos de Stephen Malkmus. O público se empolga e começa a bater palmas, aumentando o momentum da situação.

Depois de uns 30 segundos, A. Savage olha pra galera e pede pra todo mundo segurar a onda, “menos, né?”. É como se ele dissesse: “esperem que a gente já explode”. Funciona – e o mais legal é que o solo não acaba num grand finale, simplesmente se encerra, para dar lugar a dois minutos de barulho de “Light Up Gold II”, do disco de estreia. And that’s all, folks”, em pouco mais de uma hora de show.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e trabalha no caderno Link, de O Estado de São Paulo

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