Entrevista: Mogwai

por Victor de Almeida

O Mogwai, um grupo escocês de pós-rock formado em Glasgow no meio dos anos 90, é uma dessas bandas que se tem que ver ao vivo. Nem que seja pelo menos uma vez. E não é apenas pelo que muita gente fala sobre o alto volume ou caos sonoro que eles apresentam nos shows, nem apenas pelo pioneirismo instrumental que ajudou a criar as bases do pós-rock ao redor do mundo, mas sim porque ao vivo é que a banda realmente vive e faz ainda mais sentido…

Existe algo de físico na experiência de ver o quinteto de Glasgow em um show. Falo isso pois o mesmo grave que fez a parede do Tropical Butantã vibrar no dia 08 de maio é o mesmo que hipnotiza e emociona o público durante todo o show. Não é difícil ver cabeças balançando, punhos para cima e gritos do público em diversos momentos de catarse sonora. É como se a banda e o público estivessem no mesmo tempo, ou melhor, na mesma sintonia.

Jeff Tweedy uma vez disse, ao se referir aos shows recentes do Wilco na América do Sul, que aqui os brasileiros cantam junto com “as partes de guitarra” (quem não lembra de “Impossible Germany” e “Random Name Generator” nos shows de 2016?). A sintonia com o Mogwai é tanta que também dava para se ouvir o coro do público na instrumental “Rano Pano” ou da bela melodia de “Two Rights Make One Wrong”.

Com o Mogwai, não existem truques de performance, afetação no palco, projeções em primeiro plano, jogos de luz excêntricos, alguns dos clichês implementados pelo pós-rock na última década. O que se vê é uma grande banda que se entrega e trabalha para por a música em evidência, talvez como ela devesse ser ouvida, valorizando as frequências certas e tocando com o ganho no máximo.

A primeira vez do Mogwai no Brasil foi no já longínquo 2002 (relembre aqui), com o lançamento de seu terceiro disco, “Rock Action”, de 2001. Depois eles voltaram para promover “Hardcore Will Never Die”, seu sétimo álbum, no Sónar São Paulo 2012. Agora, em 2018, a banda voltou para mostrar seu nono álbum de estúdio, “Every Country’s Sun” (2017), um disco que, mesmo flertando cada vez mais com o eletrônico, assume uma postura quase política de reivindicar o peso das guitarras em tempos em que tanto falamos sobre falência de fabricantes de instrumentos e “queda” do rock.

Ver músicas como “Auto Rock”, “Mogwai Fear Satan” e “Rano Pano” ao lado de novas como “Old Poisons”, “Don’t Believe The Fife” e “Crossing The Road Material” só mostra que, talvez, um dos maiores legados que o Mogwai deixa é que de fato as guitarras, o baixo, a bateria, os amplificadores valvulados, as caixas de som, os pedais de distorção, ou seja, toda a aparelhagem e arquétipo do rock (mesmo que aqui seja pós-rock) ainda são, sim, relevantes.

Antes da apresentação em São Paulo em 2018, única no Brasil, o multi-instrumentista Barry Burns recebeu o Scream & Yell para uma entrevista. No bate papo, falamos sobre o Brasil, o novo álbum, a situação política na Europa (sobretudo pós-Brexit), a indústria da música e (como mostra a foto abaixo) aproveitei o momento para deixar um presente especial para a banda que me fez ter interesse por pedais de distorção e fuzz.

Boa noite, Barry! Como vai? Obrigado por me receber…
Boa noite…

Sei que não teremos muito tempo, mas antes de começar trouxe um presente do Brasil para você… (Entrego uma sacola)
Sério? Isso é pra mim?

Sim… É um pedal de fuzz brasileiro, achei que faria sentido dar um fuzz nacional de presente para vocês.
O QUE? Não acredito! Muito obrigado… (Abre a caixa) Esse é o melhor presente que eu já ganhei. Sério, olha o peso disso… Acho que deve ser muito bom.

É um pedal de uma das minhas marcas favoritas, a Deep Trip… Espero que você goste! É construído aqui mesmo em São Paulo. Como sei que vocês usam bastante RATs e Big Muffs, achei que seria legal dar algo diferente…
Sim, nós temos bastante… Mas olha só pra isso. Eu já estava à procura de algo novo, veio em ótima hora! Muito obrigado!

Já que estamos falando em fuzz… É muito interessante para mim como vocês conseguem criar belas melodias usando essa quantidade bizarra de ganho em suas músicas. Quero dizer, músicas como “Rano Pano”, “Mogwai Fear Satan”, “My Father My King”, por exemplo, já são clássicas… Queria saber como vocês pesquisam timbres e sons?
Antes de qualquer coisa, o que nós sempre fazemos é isso… (Barry pega o pedal e coloca todos os controles no máximo). Nós procuramos ter certeza que tudo está no máximo… Às vezes chegamos à conclusão que é demais e procuramos refinar um pouco, mas não sei por que isso (de aumentar todos os volumes no máximo) sempre deu certo para nós. Nós sempre mexemos com esses sons bagunçados e abafados, mas fazemos de um jeito que você sempre poderá ouvir as melodias.

Sempre existem essas texturas rolando… Quando escuto “Rano Pano” e aquela quantidade absurda de ganho e as camadas vão se sobrepondo… Tinha tudo dar errado, né?
Sim, essa música é muito estranha… O engraçado é que quando fizemos ela na primeira vez, gravamos direto no computador, sem amplificadores de verdade. A ideia era gravar três guitarras fazendo a mesma coisa. Uma tinha uma super ênfase nos agudos, outra nos médios e outra nos graves. E, aparentemente, as coisas começaram a funcionar desse jeito.

Belíssimas texturas…
Muito obrigado…

Stuart Braithwaite

Agora nós estamos em 2018, a última vez que vocês vieram ao Brasil foi em 2012…
Muito tempo, né?

Mas, antes dessa, a primeira vez foi em 2002…
Muito, muito tempo, né?

Sim, muito tempo atrás… Eu queria saber se vocês têm alguma lembrança do Brasil que vocês poderiam contar.
Minha memória é bem ruim… Mas da primeira vez que nós viemos, me lembro de estar em uma cidade chamada Belo Horizonte. Nós tocamos lá e foi uma experiência muito boa porque não era no Rio ou em São Paulo. Não é uma cidade pequena, mas é menor que essas outras duas. E foi uma experiência ótima… Foi há muito tempo atrás, mas eu sempre me lembro disso… Eu era um menino. (risos)

Falando agora do título do novo álbum, “Every Country’s Sun”… Ele tem algum significado diferente para vocês hoje em dia? Pergunto isso porque o álbum acabou por encontrar um mundo muito complexo, politicamente falando… Eu lembro que quando escutei “Party In The Dark” pela primeira vez, não teve como não pensar na crise política europeia, principalmente na situação do Reino Unido pós-Brexit…
Nem me fale…

Até para nós aqui no Brasil… Todos estamos “Hungry for another peace of mind”, se é que você me entende… (risos) O significado do álbum mudou em alguma coisa?
Assim, a ideia do título do álbum veio bem no último minuto e nós colocamos sem querer dizer nada demais. Mas, nesse caso, veio a significar alguma coisa por acidente. Foi um acidente total… Quando nós estamos gravando um disco, nós tentamos não assistir televisão e, ao invés disso, ver filmes e coisas do tipo. Quero dizer, não tinha nada para se ver, a não ser o Trump… E nós não queríamos ele na nossa música. Porém, acho que nós sempre estivemos cientes do desastre que aconteceu… Falo até por mim… que moro na Alemanha (nota: Barry é proprietário do bar DasGift em Berlim) e, possivelmente, nós teremos que voltar para o Reino Unido para tirar vistos…

Alex Mackay

Ainda falando sobre a situação do Brexit… Eu li uma reportagem discutindo o impacto do Brexit para as bandas independentes do Reino Unido e você era um dos entrevistados. Acredito que você falou que se o referendo decidisse a favor da saída, tornaria muito mais difícil para bandas como o Mogwai excursionarem pela Europa. Você poderia comentar isso?
Ficaria muito caro, quase inviável para bandas menores… Por exemplo, quando nós vamos para a Suíça, que não fica na União Europeia, nós precisamos tirar esses vistos de trabalho caros… Nós precisamos tirar para vir para o Brasil, mas vocês não estão na União Europeia. E isso é ok… Mas se você for viajar para tocar na Europa, em casos de bandas menores, não vai dar mais, vai ficar muito caro… É um desastre para a música ao vivo…

Com certeza… Na primeira vez que vocês vieram para o Brasil, em 2002, vocês tiveram o “Rock Action” lançado por uma gravadora brasileira…
Isso faz muito tempo… Qual era o nome da gravadora mesmo?

Trama.
Isso mesmo… Trama!

Então, agora vocês voltam em 2018 e nenhum selo brasileiro está trabalhando o álbum de vocês por aqui. As coisas mudaram muito?
Sim, as coisas mudaram completamente desde então… Nós temos muito mais controle sobre as nossas músicas agora que nós temos nosso próprio selo. Nós trabalhamos com o licenciamento dos discos em diferentes países agora. Sinto que, agora, nós não temos mais alguém para culpar caso algo dê errado, mas também acho que é muito melhor para nós estarmos no controle de tudo, fazer a divulgação, os discos… Acho muito melhor!

Ano passado, antes de vocês lançarem o novo álbum vocês tocaram de surpresa no Festival Primavera Sound, em Barcelona, executando o disco inteiro… Isso foi ideia da própria banda?
Na verdade, foi uma ideia (do Primavera)… Eles realmente queriam muito que nós tocássemos naquele ano mesmo sem que a gente tivesse nada de novo. Assim, nós não sabíamos exatamente o que fazer… E eles falaram: “Por que vocês não tocam o álbum novo e voltam também ano que vem?”. Então foi como um acordo de dois anos e nós pensamos: “Vamos tentar”. Nós ensaiamos direto por duas semanas, por que nós nunca ensaiamos um álbum do começo ao fim, não sei o porquê, mas nunca fazemos isso. Tentamos e deu tudo certo, as pessoas estavam interessadas em ver como era o novo álbum e foi uma boa experiência para nós… Ter certeza que poderíamos tocar todo o disco, o que não fazemos com tanta frequência, foi muito bom e acho que é algo que podemos fazer de novo quando tivermos um novo disco.

Cat Myers

Isso é interessante porque vocês fazem alguns shows baseados em álbuns, como “Zidane: A 21st Century Portrait” (2006) e o “Atomic” (2016)… Existe alguma diferença para vocês em tocar um álbum específico ou um setlist convencional com os clássicos?
Sim, é bem diferente… Quando nós fizemos os shows do “Atomic” foi uma coisa bem emocional por causa do filme. Do “Zidane” nós fizemos poucos shows, não acho que muita gente estava interessada em ver aquilo ao vivo porque nós não recebemos muitas ofertas… (risos) Nós recebemos quatro ofertas e fizemos as quatro. Foi bom, mas se tivermos que fazer isso por mais de um mês ficaríamos bem entediados… Nós mudamos o setlist toda noite e ficar preso a tocar o mesmo set toda noite deixaria tudo meio chato para nós. Eu não sei… Prefiro essa configuração de hoje a noite, onde tocamos o que dá vontade.

Em 2017, o primeiro álbum de vocês “Young Team” completou 20 anos. Pensando nisso, uma coisa que me vem a cabeça é: vocês têm noção o quanto vocês são influentes?
Eu tenho uma ideia disso… Não quero admitir porque me parece estranho dizer isso. A gente conhece outras bandas e ouve relatos sobre a influência que temos. Quando nós ouvimos, ficamos meio… (suspiro). Quando nós saímos e vamos pra casa, é realmente muito bom poder influenciar as pessoas e as músicas que as pessoas fazem, mas assim, a música evolui, a gente ouve outras bandas e eles vão ouvir outras bandas…

Uma última pergunta: Eu não sei se você sabe… Mas, nos últimos 10 anos, o pós-rock tem se tornado algo relevante no Brasil e vocês são uma das maiores referências por aqui…
Que maravilha…

Vocês já ouviram alguma coisa de pós-rock brasileiro?
Falo por mim e, talvez, pela banda como um todo… Nós não ouvimos muito pós-rock… Sim, a gente ouve o Godspeed, o Do Make Say Think e bandas como essas, às vezes. Mas, ultimamente, temos ouvido músicas de gêneros bem diferentes… O que pode ser uma boa coisa por que essas coisas acabam influenciando o jeito que abordamos a nossa música. Se ouvíssemos pós-rock o tempo todo nós não teríamos mudado tanto… Isso pode não ser verdade, mas eu penso desse jeito.

Muito obrigado, Barry! Aproveite o Brasil, bom show para vocês…
De nada, eu que agradeço… Esse pedal deve ser o melhor presente que eu já ganhei. Incrível! (Vira e pergunta para alguém do staff). Será que eu consigo usar isso ainda hoje

Dominic Aitchison

– Victor de Almeida (@Victoranpires) é jornalista, Doutor em Comunicação pela UFPE e professor da Universidade Federal de Alagoas. Autor dos livros “”Além do Pós-Rock” (2015) e “Circuitos Urbanos e Palcos Midiáticos” (2017). A foto que abre o texto é de divulgação. A foto de Barry com o pedal é de Victor de Almeida. As fotos do show são de Marcelo Costa / Scream & Yell.

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