Entrevista: Lurdez da Luz

entrevista por Carime Elmor

Em 2018, Lurdez da Luz completa 20 anos de sua trajetória enquanto compositora e rapper. Quando garota, na adolescência, aprendeu a tocar guitarra, autodidata, para entrar no movimento Riot Girl que acontecia em São Paulo. Foi integrante da banda riot punk feminina Lava que surgiu em 1996 e também chegou a gravar as guitarras das primeiras cassetes da Elroy, criada em 1998. Seguiu atravessando os roles hardcore que misturavam diferentes vivências traçadas nas letras dos gêneros urbanos até começar a estudar áudio e se interessar pelos experimentos utilizando beats e elementos eletrônicos.

No momento em que começava a escrever, em 1998, suas letras foram tomando a cadência do Hip Hop underground norte-americano. DJ Shadow, Quannum Projects, Antipop Consortium, Jurassic 5, Bahamadia e Jean Grae eram alguns dos artistas que gostava de ouvir, imersa na potência da poesia Spoken word. Inclusive, em seus shows há um hiato musical apenas para recitação de versos livres. Falando de Brasil, nunca mais se esqueceu do impacto que foi ouvir Racionais MC’s pela primeira vez. Dina Di, ex-vocalista do Visão de Rua, também foi forte inspiração para se afirmar no Rap.

A voz de Lurdez da Luz é o sotaque da mulher artista, mãe e batalhadora. No caos do centro de São Paulo ela vê, ouve e faz nascer uma constelação musical lapidada em ritmo e poesia, os alicerces do Rap. Lurdez da Luz é reconhecida como uma das pioneiras do Hip Hop feminino nacional, desde 2000 quando ingressou no Mamelo Sound System. Em carreira solo, lançou o EP homônimo “Lurdez da Luz” (2010), o álbum “Gana pelo Bang” (2014), o EP “Bem Vinda” (2016) e o mais recente, “Acrux”, lançado no final de 2017 em formato acústico. Os dois últimos foram produzidos pelo grupo Pparalelo, que a acompanha nos shows.

Em conversa de camarim, Lurdez fala sobre querer se apresentar para a nova geração que ainda não teve contato com seu trabalho como compositora de Rap. Destaca a ascensão das mulheres na indústria cultural e reflete acerca de uma percepção pessoal sobre as composições mais “pé no chão” de uma geração conectada com as pautas dos movimentos sociais. “Acrux” está disponível nos principais portais de streaming (Spotify, Deezer, Google Play, Apple Music) e também pode ouvido na integra no Youtube. Confira o bate papo!

Em sua história com a música, você já começou no Rap, ou antes você se dedicava a tocar instrumentos? Já foi integrante de outras bandas? Como a linguagem do Rap chegou até você?
Me veio primeiro a ideia de tocar, então eu tive uma banda feminina que se chamava Lava e outra banda com meninos que chama Elroy – eu tocava guitarra. Até toquei baixo durante um tempo em algum lugar. Eu tinha uns 16 anos, por aí, e foi meu primeiro contato com palco e música. Depois dei um tempo com as bandas e fui estudar áudio. Sempre escutei todo tipo de música, como até hoje, e por volta de 1998 estava começando a escrever. Não pensava exatamente em Rap, mas em produção eletrônica, a parada dos beats foi me encantando, e também a lírica e a poesia. Escutava muita coisa do Rap underground americano que estava rolando na época. DJ Shadow, que não tinha um Mc, mas é Hip Hop, Quannum Projects, que era desse movimento underground, assim como Antipop Consortium, Jurassic 5, e fui ficando muito a fim de experimentar esse estilo. Algumas mulheres também: Bahamadia, Jean Grae, essa cena de Spoken Word que estava rolando na época com Saul Williams, isso me influenciou a começar a entrar no Rap, já flertando com a história do Hip Hop. Fui encontrando meu caminho por volta dos anos 2000, quando entrei para o Mamelo Sound System.

Na adolescência, o que te levou a querer aprender música e estudar guitarra?
Nunca fui de estudar, sempre foi essa ideia do autodidata. Eu queria me expressar, então começou com essa história do punk rock feito por mulher, o movimento Riot Girl. Eu achava aquilo incrível e ainda acho. Com 15, 16 anos foi quando montei a banda Lava, somente com meninas. Na nossa época, tinham muito poucas bandas de garotas, já existia uma cena, mas a gente tocava muito com bandas de homens também.

Na letra de “Ziriguidum” você diz: “Nada contra hardcore, só que hoje eu quero funk”. Tem relação com a descoberta dessa linguagem para seu som e a experiência que havia tido com o hardcore?
Nesse caso eu estava falando mais do estilo da indústria pornô mesmo. No “Ziriguidum” eu estou falando de um relacionamento afetivo, de um cara que eu estou a fim e que está rolando uma energia. Aí falo que quero uma coisa mais “funk”, no sentido não do funk carioca, mas do funk soul, algo mais suave, querendo uma pegada mais leve e não tão agressiva. Era mais uma analogia mesmo.

Sobre a gravação ao vivo que você fez do seu recente trabalho “Acrux” (2017), pelo o que vejo, é a persistência de você querer evidenciar a sua mensagem, e por ser ao vivo, tem essa característica mais orgânica. É o Rap sendo mostrado do jeito que ele é feito, sem edição, mais próximo do freestyle. Essa foi a principal ideia para se gravar um acústico?
Exato. Acho que várias coisas me motivaram. A primeira ideia foi a de querer timbres mais orgânicos e menos camadas de áudio, de produção, menos efeitos e um arranjo mais fluido. Algo que fosse na contramão do meu último disco, “Gana Pelo Bang” (2014), que é totalmente eletrônico. Escolhi algumas músicas que acho que sobrevivem ao tempo, juntei trabalhos mais novos e fiz esse apanhado geral. Eu estava na ideia de montar um show novo, não foi nem pensando para se tornar um disco. Nisso, os caras da Pparalelo me propuseram gravar esse repertório com violão, baixo e bateria, depois colocando um vibrafone, um piano, sons desse tipo. Fiquei pensando: “Será? Violão? Eu não tinha pensado em violão”. Imaginava um show mais orgânico, só que ainda eletrificado, tipo usando um sintetizador Mug, elementos mais analógicos, mas enfim, eles vieram com essa ideia e curti muito o tipo de arranjo. Eles conseguiram resolver a ideia do acústico, porque eu não queria que ficasse com aquela característica de luau, sabe? E achei foda. Então falei: “Meu, vamos gravar isso em disco”. Primeiro fizemos um show, e chamamos pessoas conhecidas para assistirem. A gente fez em um estúdio, exatamente como está ali no disco, aparecendo tudo, mesmo se errei uma palavra, uma respiração. E não tem dobra, algo que a gente usa muito, dobra de voz, backing vocal o tempo inteiro, ali são só os meninos fazendo backing e a única gravação separada foram os vocais do Jadiel Akanni. Tem apenas a equalização da mesa, como se fosse um show ao vivo com qualidade, como se fosse um super L R da mesa.

Todas as 10 faixas do “Acrux” já haviam sido gravadas em álbuns de estúdio? Me parece que a primeira faixa – “O Que Me Move” – é inédita.
“O Que Me Move” é bastante recente, é de um EP “PPararelo + Lurdez da Luz” (2016) e “Acrux” é uma música inédita que aparece somente neste disco acústico.

Como a música “Acrux” surgiu e do que essa poesia se trata? De que maneira ela é a arquitetura central de todo o disco?
“Acrux”, que dá nome ao disco, é um single inédito, que a gente até lançou um pouquinho antes do disco, e foi a faixa que deu a identidade musical para este trabalho. Quando eles falaram que estavam pensando em uma estética acústica, foi essa a faixa que eles me enviaram. Eu pensei: “Incrível esse tipo de arranjo!”. Eu já tinha um refrão na minha cabeça, que mandei para eles. Sou das analogias e metáforas, né? (E essa canção) Fala da situação da mulher na sociedade hoje, de como estamos sendo, agora, mais respeitadas e estamos em evidência. A gente está dando lucro, a gente está liderando situações e as pessoas nos procuram, mas antes existia uma resistência ao nosso movimento. Partiu daí. Depois pensei muito na ideia desse peso que jogam em nossas costas, por isso que falo “crucificadas pelo sistema”, até uma citação a um nome do disco do Ratos do Porão. Nós, mulheres, fomos crucificadas pelo sistema por conta de nossas atitudes e comportamento, e sigo fazendo essa analogia bíblica por conta da ideia de “A Cruz”, com “Z”. E o que ela simboliza? O peso do julgamento injusto. Já “Acrux” com “X”, representa a cidade de São Paulo na bandeira, cada estrela ali forma a constelação Cruzeiro do Sul, e São Paulo é a acrux, “Alpha Crucis”. Brinco com essas duas coisas, de que São Paulo é a estrela mais brilhante e está em um processo tanto de libertação, quanto de retrocesso. A gente está passando por um momento muito louco, as mulheres podem andar da forma que quiserem pelas ruas, a gente está ocupando as ruas da cidade, entendendo este espaço como um lugar de diversão, onde as minorias podem circular livremente, onde a periferia está sendo aceita no centro, mas ao mesmo tempo há uma onda reacionária muito grande e este governo representa um pouco desse retrocesso.

Como a arte, neste momento político de fragilidade democrática, sendo atravessado por discursos radicais, pode ser uma possibilidade de retratar a verdade? A produção musical contemporânea está dando conta de falar da real situação do Brasil, pensando no Rap, principalmente?
O Rap sempre teve essa ideia e por isso que acho muito louco, hoje em dia, ter tantas coisas feitas de uma forma inventada. Não sou contra a ficção, muito pelo contrário, a crônica sempre esteve presente no Rap, mas vender um estilo de vida que na verdade não existe é uma questão que tenho em relação ao Rap que é feito atualmente, além de outras manifestações musicais. Mas desde sempre a ideia do Rap foi ser uma linguagem direta para as pessoas entenderem a situação de uma forma clara e foi isso o que me pegou. A primeira vez que se escuta Racionais, acho que todo mundo se lembra do impacto que sente, do soco que é. Então procuro pegar essa ideia que a gente tem acerca da realidade, os pontos de vista críticos e transformar de alguma forma em canção, porque gosto muito da ideia do letrista da música brasileira. Acho muito rica a ideia de canção, a forma como a gente mexe com essa realidade acessando o campo sutil das pessoas também, não só passando aquela mensagem pronta para quem nos escuta. Tento colocar um pouco mais de poesia para entregar para as pessoas. O meu olhar passa por esse processo.

Você acha que, agora, possa estar surgindo uma percepção do(a)s artistas de querer retomar as canções? Focar na letra e na melodia e não apenas na busca por uma estética?
Penso que o que esteja acontecendo é o seguinte: vamos ampliar o mundo, mas manter os pés no chão. Todo mundo de alguma forma está engajado em alguma coisa, querendo tratar dos sofrimentos da humanidade, muitos artistas estão nessa onda – inclusive no mainstream. Acho que ainda tem muita coisa ainda sendo feita apenas para vender, que não é uma inspiração genuína, mas acredito que esteja rolando uma movimentação de uma responsabilidade que não é só social, é uma responsabilidade humana, de como a gente vai melhorar essa porra toda.

O repertório do “Acrux” são de músicas que têm mais a ver com a cidade de São Paulo, certo? Queria que você me falasse sobre a construção dessa narrativa e também, sobre como foi preparar um show de lançamento para um disco ao vivo? Acho que talvez seja uma experiência diferente de quando se lança um disco de estúdio.
A gente transforma o show em uma experiência maior e vão entrando músicas no repertório que vão assumindo essa linguagem também. Um show é uma experiência, e mesmo quando escutamos um disco ao vivo não é a mesma coisa, né? Cada show é um show, você vai estar interpretando de outra forma e vai convidar outras pessoas para estarem juntas. No nosso caso, a gente teve a ideia de colocar as projeções como um elemento importante, e eu quis, nessa proposta, me reapresentar para uma nova geração, que ainda não tinha ouvido falar de mim, e me afirmar como uma pessoa que sempre foi daqui, com essa poética de São Paulo. Comecei a perceber que isso está presente em várias letras, inclusive algumas que não falam exatamente sobre a cidade, mas ela está na textura ou na essência da música.

Você pode exemplificar com algumas músicas o porquê delas terem entrado na construção do repertório de “Acrux”?
Escolhi “Ela é Favela”, uma música que nunca gravei, mas é uma parceria que assino com a Aláfia. É uma banda que super representa esse momento de São Paulo, em vários aspectos e a música fala de uma mulher essencialmente criada na favela, mas no meu caso, pela perspectiva de uma favela vertical, que era o que eu conhecia do centro: pensões, hotéis, cortiços, esse universo. Isso é tipicamente São Paulo, e foi indo por aí. “Andei” é gravada com fundo para o edifício Copan e fala da minha circulação por várias áreas da cidade. Fala, tipo, eu sou daqui, desse lugar, aqui do centro e tal, mas viajo nesta cidade o tempo inteiro, de norte à sul, de leste à oeste. Não há nenhum hino para São Paulo, mas todas elas estão impregnadas da essência desta cidade.

Que textura e estética sonora é essa que tem a ver com São Paulo?
No meu caso acho que o meu jeito de falar, meu acento, a cadência da forma que rimo, minhas gírias, eu misturo muitas referências. No caso do disco acústico, a estética está nos arranjos também. Os músicos foram criados no role gospel das periferias de São Paulo, então eles trazem muito do Rap e do baile black na pegada de tocar.

Lurdez, você que já atravessou gerações diferentes, como avalia esse momento das mulheres na música? Sobre uma apoiar a outra em suas carreiras artísticas.
Acho que a gente finalmente chegou a uma quantidade e qualidade de trabalhos feitos por mulheres. Não tem porque não se conectar, antes a gente não tinha tantas opções à nossa volta, agora nós somos muitas e isso está bem evidente. Outra coisa é que a gente está gostando muito de conviver. Obviamente a experiência da Karina Buhr, que tem participação no show do Acrux, vai ser mais próxima à minha do que de vários outros caras que são do Rap, e eu acho interessante essa mistura de universos principalmente de artistas que você admira a música, a postura e aquele ser humano. Cada vez mais tem mulheres que tenho vontade de fazer colaborações porque vejo na expressão artística delas algo que me diz profundamente muito mais do que vários outros homens. Nunca vou limitar meu trabalho no sentido de querer de qualquer maneira produzir meu disco apenas com uma mulher, mas se rolar, maravilha! Vou estar sempre atenta ao som que está rolando das minas.

– Carime Elmor (fb/carime.elmor) é jornalista da Tribuna de Minas e fazedora dos zines Malditas

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