Scream & Yell recomenda: Dolores 602

entrevista por Bruno Lisboa

Passeando por diversas influências contemporâneas – indo de Maglore a The Black Keys – o grupo Dolores 602 é um dos bons exemplos do que a cena musical mineira tem produzido de melhor nos últimos tempos. Desde 2014, época em que lançaram o seu primeiro EP em 2014, a Dolores 602 tem conquistado espaço na mídia especializada e em festivais.

Formada por Débora Ventura (voz, violão, guitarra), Camila Menezes (baixo, ukulele, voz), Isabella Figueira (bateria, gaita, escaleta) e Táskia Ferraz (guitarra, vocais), o quarteto de garotas chega agora com “Cartografia” (2018), primeiro álbum cheio. Com produção de Henrique Matheus e Thiago Corrêa (ambos do Transmissor) – com quem a banda já havia trabalhado no single “Petit a Petit” –, o disco contém 10 faixas autorais que mantém em voga um indie pop com letras poéticas em ode a superação e a beleza do cotidiano.

Com projeto gráfico assinado por Gustavo Magno, Marcelo Dante, Samuel Mendes e Thomaz Lanna Neves, o disco físico é composto por um caderno de bordo que contém fotos do processo de gravação do disco, de shows e viagens, bem como ilustrações e anotações feitas à mão, desdobrando o conceito geral de “Cartografia”.

Neste bate papo, Camila fala sobre o processo de composição e gravação do novo disco (“É interessante ver a transformação da banda também ao longo desse processo”), o olhar agridoce para com o cotidiano nas letras (“Não nos cabe neste momento tapar o sol com a peneira e fingir que não estamos num momento difícil”), o apelo visual nesta nova fase (“Hoje em dia, música não existe por si só”), o crescimento da presença feminina na música brasileira (“…as mulheres estão se mostrando para abrir caminho para a pluralidade artística que vai além do binário feminino-masculino. Somos muito mais que isso”), influências, planos futuros e mais. Confira.

“Cartografia” está disponível para audição e download gratuito no site oficial da banda.
https://www.dolores602.com.br

Quatro anos separam o EP de estreia da banda de “Cartografia”. Como foi o processo de composição e gravação do disco?
O EP “Dolores 602” foi um registro das primeiras canções que fizemos. Isso possibilitou que nossa música chegasse a muitos lugares, algumas rádios começaram a tocar e fizemos diversos shows para divulgar esse trabalho. Em 2016 veio esse desejo de voltar a estúdio para gravar as novas músicas que fomos compondo nesse tempo, a partir dessa percepção de como a música gravada tem essa potência de chegar a lugares inesperados. Além disso, vimos também como uma oportunidade de gerar mais consistência à nossa identidade sonora. Estar em estúdio pode ser um momento muito especial pra uma banda, é uma experiência totalmente diferente de fazer shows. Possibilita uma imersão no trabalho, um olhar diferente, uma escuta diferente, além de muitas experimentações. É como se colocássemos uma lupa em cada detalhe, em cada som. É interessante ver a transformação da banda também ao longo desse processo. Quando começamos a produção do disco, não tínhamos o nome, apenas algumas canções que já tocávamos nos shows e queríamos gravar. Foi somente no final do processo, e depois de muitas conversas que escolhemos dar nome ao disco de “Cartografia”, que também é o nome de uma das músicas. Pra nós, o disco traz uma sensação e uma mensagem de liberdade, de viagem, de esperança, de novos caminhos, aceitação e superação. De se abrir para algo novo e entender esses caminhos.

As canções do novo disco versam sobre o cotidiano e sua beleza. Em tempos tenebrosos, como os que vivemos na atualidade, ver as maravilhas que o dia a dia nos proporciona é o melhor remédio para encararmos a vida?
Pensamos que a poesia é uma força de transformação muito grande. Através dela, é possível criar novas realidades e questionar atitudes. Não nos cabe neste momento tapar o sol com a peneira e fingir que não estamos num momento difícil. Se por um lado também não devemos baixar a cabeça, por outro, assumir uma postura de revolta volátil não nos levará muito além. Enfrentamento é construção, é persistência. Nossas letras falam de superar momentos difíceis e crescer com eles, da mesma forma que falam de pequenas belezas do dia-a-dia e do amor, a maior potência do universo. É importante nos fortalecermos nesses mananciais de energia positiva “pé no chão”, na micropolítica da gentileza, em enxergar seres humanos em todas as pessoas, para entender que tudo isso vai passar e, se fizermos nossa parte, sairemos do tufão mais maduros e fortes.

Para este trabalho vocês tiveram uma grande preocupação para com o material gráfico do disco físico. Como foi o processo de alinhar música a imagem?
Hoje em dia, música não existe por si só. É fundamental ter uma identidade visual atrelada ao trabalho sonoro, assim como vídeos e elementos gráficos que vão permear cada manifestação digital do álbum. Quando iniciamos a construção do material gráfico, nosso desejo mais forte era que ele conseguisse traduzir a experiência sonora do disco. Para isso, convidamos a Alpendre, uma equipe de três designers e um fotógrafo aqui de BH: Marcelo Dante, Gustavo Magno, Thomaz Lanna Neves e Samuel Mendes. Eles mergulharam de cabeça no nosso som e foram extraindo ideias e conceitos que diziam muito da nossa sensação do disco. O nome “Cartografia” surgiu ao longo do processo com eles, pois entendemos que nossas músicas falam de e produzem a sensação de viagem e movimento, da mesma forma que buscam descrever formas de ser e sentir, numa cartografia constante de nossa visão de mundo em busca de liberdade, esperança, de novos caminhos. Cartografar, para nós, é um processo, algo que nunca está finalizado e os meninos do Alpendre conseguiram expressar isso muito bem. Do encarte, fizeram um caderno de bordo, com letras das músicas e fotos dos nossos processos (shows, viagens, gravações) durante a produção do disco, registros feitos por nós mesmas e por pessoas que nos acompanharam de perto nesse período. Vale observar que os títulos das músicas, assim como a nova logo de Dolores 602, foram feitos à mão, como se faz num caderno de bordo. A concepção da impressão do encarte e da capa foi inspirada na técnica conhecida como risografia, criada no Japão nos anos 80, que é antiga, porém, assim como a sonoridade do disco, é vintage e moderna ao mesmo tempo. A risografia utiliza duas cores superpostas, que gera impressões desiguais na mesma tiragem. A escolha dessa técnica fechou pra nós a coesão conceitual com o vintage, com a ideia de cartografar ser sempre algo inacabado e aberto, pois essa impressão não é perfeitinha, por ser quase manual, portanto pouco máquina e muito humano.

É visível no processo de composição de grande parte das canções deste novo trabalho uma participação efetiva de todas as integrantes da banda. A ideia do coletivismo é a força motriz da Dolores?
Mesmo sem intenção, sim. O fato de sermos uma banda independente já nos impulsiona nesse sentido, pois ser artista independente é trabalhar em todo o processo, para além da parte musical. Não há uma gravadora por trás, que faça isso pra você, então você tem que fazer. Quando se é uma banda, precisa acontecer uma divisão de tarefas para não sobrecarregar ninguém. Falando especificamente das composições, ao longo dos quatro últimos anos, viemos nos experimentando nesse campo. É algo ainda bem novo, mas que estamos gostando de fazer. Essa alquimia de pensar temas que ganharão melodias e arranjos, a mensagem que queremos passar, etc. Desde o início nós sempre fizemos os arranjos juntas, nos ensaios. No “Cartografia”, decidimos tentar compor juntas, o que é um processo mais complexo, de se desnudar poeticamente perante as outras. Tem sido uma experiência muito rica.

“Cartografia” tem produção de Thiago Corrêa e Henrique Matheus, ambos da conterrâneo Transmissor. Como foi trabalhar com eles? Quais as contribuições ambos trouxeram para a sonoridade da Dolores?
A primeira vez que trabalhamos com o Thiago e o Henrique foi em 2015, quando gravamos o single “Petit a Petit” em co-produção com o Thiago. Tudo fluiu tão bem que a partir dessa experiência cresceu a vontade de fazermos o disco nessa co-produção novamente. A maneira dele de trabalhar casou muito bem com a nossa porque ele sempre se mostrou muito aberto pra construir de forma coletiva, trocando com a gente e acolhendo nossas ideias. Mostramos pra ele as canções que tínhamos, trocamos muitas ideias, ele acreditou no nosso trabalho e acabamos vivendo uma espécie de laboratório com ele pra encontrar a identidade sonora do disco. Com ele gente pôde experimentar novos timbres nesse processo – Henrique contribuiu muito para a sonoridade das guitarras da Táskia também – novos instrumentos, e outras formas de gravar, porque desde o início houve essa busca para que o disco soasse o mais orgânico possível, como num show ao vivo.

Nos tempos atuais, um artista independente precisa tocar bastante para conquistar público e a devida exposição. Vocês, aparentemente, são partidárias disto, pois desde o seu nascimento a banda participou ativamente de diversos festivais e conquistou diversas premiações. Qual a importância de participar de eventos desta seara para vocês?
Nosso primeiro festival foi o Festival de Bandas que aconteceu dentro do Soulvision Festival, em Altinópolis-SP, em 2012. Levamos uma música cover e “Deusa do Som”, uma de nossas primeiras autorais. Com essa apresentação, conseguimos o primeiro lugar! Foi uma surpresa gigantesca. Estávamos apenas começando a compor e já nos deram o primeiro lugar. Além do prêmio, vimos como é importante circular por eventos como esse como forma de divulgação do trabalho, de chegar públicos novos e diversificados, que talvez não te conhecessem pela internet. É também uma oportunidade de conhecer outros artistas, estreitar laços e até mesmo fazer parcerias.

Muito se discute sobre a presença feminina na música contemporânea dos dias atuais. Por mais que o cenário venha melhorando ano após ano ainda é visível que muitos trabalhos não recebem a devida exposição. Na opinião de vocês como podemos vencer esta barreira?
As mulheres sempre foram atuantes em todos os âmbitos sociais, apesar de toda repressão, mas pelo fato de a maior parte da história ter sido escrita e documentada por homens falando sobre homens, o que conhecemos da história da humanidade é muito pouco. Existe uma barreira a ser vencida e nós sabemos que é uma luta por espaço e reconhecimento. No ano passado vimos algumas mulheres compositoras e musicistas conquistando destaque em listas de melhores do ano. Pensamos que isso é resultado de um processo que vem ocorrendo nos últimos anos, em que as mulheres se cansaram de tentar entrar em espaços já existentes, os quais eram muito masculinizados, e passaram a se unir e criar seus próprios espaços, como o Festival Sonora, a Mostra Mulheres Criando, a Mostra Sêla, a WME, dentre outras iniciativas. Com isso, a produção feminina recente começou a aparecer com a força que lhe é própria. Pensamos que o caminho é este e também o da união, da sororidade. Isso é muito positivo e vai além, pois as mulheres estão se mostrando para abrir caminho para a pluralidade artística que vai além do binário feminino-masculino. Somos muito mais que isso.

Tenho visualizado na cena mineira uma maior interação entre os artistas dentro e fora dos palcos. Mas esta sintonia acaba, por vezes, ser vista e admirada localmente. Afinal, o que falta para que artistas daqui sejam vistos ainda mais no cenário nacional?
Essa interação na cena mineira é muito maravilhosa e tem expandido o potencial criativo da galera daqui. Como aumentar sua visibilidade no cenário nacional é uma grande questão. Vemos cada vez mais artistas migrando para São Paulo e Rio de Janeiro, como se para alavancar uma carreira em âmbito nacional esse fosse o único caminho. É uma longa discussão, que inclusive, foi pautada no último Women’s Music Event, que aconteceu mês passado em São Paulo, ao qual estivemos presentes. Um dos caminhos apontados no debate foi a criação de políticas públicas de descentralização da arte no Brasil e pensamos que este é um caminho que realmente funcionaria, pois é preciso de investimento financeiro para viabilizar a arte. Porém, com o atual cenário político, iniciativas como esta se tornam cada vez menos palpáveis.

A cena musical brasileira vive um dos melhores momentos via a grande diversidade e qualidade impressa. Nesse sentido quem são os “espíritos irmãos” da Dolores 602?
Nas nossas andanças pelos Festivais, conhecemos muitas bandas com as quais nos identificamos, por mais que o som não seja tão parecido, como “O Berço”, de Patos de Minas. Gostamos muito do som do Maglore, da Tulipa Ruiz, da gaúcha Dingo Bells, da Letrux e da Luedji Luna. Sentimos que nosso som tem uma pegada pop muito forte, baseada na canção e que se mistura com outros ritmos. Tem refrão, tem riffs de guitarra. E esse é um espaço onde sentimos que faltam artistas para trocarmos figurinha…

Recentemente a banda lançou o disco em São Paulo e tem data de lançamento definida para BH. Quais são os planos futuros?
Desejamos que este álbum nos leve a novas conexões humanas e geográficas. Após essa maratona de lançamentos (show em SP e BH, lançamento de clipe e single de Cartografia), o plano é seguir viagem divulgando o disco em outras regiões do país, construindo e ampliando parcerias, além de fazer outros clipes e projetos interartísticos com novos produtores e participar de festivais independentes, como fizemos ano passado (Festival Timbre – Uberlândia – e Festival Marreco – Patos de Minas).

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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