Boteco: 11 cervejas sensacionais

por Marcelo Costa

Abrindo esta série de cervejas sensacionais com uma colaborativa entre a cervejaria Dádiva, de Várzea Paulista, interior de São Paulo, com a Quatro Graus, do Rio de Janeiro: Entomology, uma American Strong Ale com aveia, coco e duplo dry-hopping de lúpulos norte-americanos além de chips de carvalho francês. De coloração amarela intensamente turva, juicy tal qual um suco de caju, e creme branco de média alta formação e retenção, a Entomology apresenta no aroma uma pancada deliciosa de notas cítricas (manga e abacaxi) acompanhada de coco com percepção de madeira. Na boca, uma experiência: a primeira sensação é de coco, mas logo no segundo seguinte, o frutado cítrico ganha força em sabor (manga e abacaxi) e amargor. Dai a madeira surge e assume a responsabilidade. A textura é sedosa, aveludada e suavemente picante. Dai para frente surge um conjunto exemplar, que leva a receita a um nível espetacular até o final, bem amargo, mas também cítrico (lima, limão) e amadeirado. No retrogosto, casca de laranja e de limão, coco, adstringência suave, picância e madeira. Absolutamente incrível.

A segunda da sequência é outra colaborativa da Dádiva, desta vez com a turma da Trilha, da capital paulista: Status Quo Barley Wine 2017, maturada em carvalho francês, com 12,5% de teor alcoólico e adição de coco, flocos de aveia, baunilha e cacau. De coloração âmbar escura com creme bege de rápida formação e ainda mais rápida dispersão, a Status Quo apresenta um aroma com bastante percepção de doçura de caramelo e sugestão de vinho do Porto. Na boca, doçura caramelada e frutas escuras (ameixa) se destacam no primeiro toque enquanto, logo na sequencia, os 12.5% de álcool vão tirando as asinhas de fora e mostrando suas garras de maneira delicada e viciante. A textura é sedosa e bastam alguns segundos sobre a língua para se tornar licorosa, mas com álcool impressionantemente delicioso, puxado para o vinho do Porto. Dai em diante surge um conjunto que ainda deverá evoluir (coco e cacau ainda não colaboram com o conjunto) bastante, mas que exibe excelência do jeitinho que está. O final é… vinho do Porto <3. No retrogosto, ameixa, caramelo, vinho do Porto e amor. Uou.

Do Brasil para a Holanda com duas cervejas espetaculares da Brouwerij De Molen: a primeira é a Verdeel & Heers (Divisão & Regra), uma Russian Imperial Stout cuja receita une maltes barley (Pilsen, Caramel, Chocolate e Roasted Brown), lúpulos Simcoe, Amarillo, Apollo e Saaz além de levedura selvagem (Brett) e passagem por barricas de uísque turfado (entre outros, Bruichladdich Port Charlotte). A cor é marrom muito escuro, quase preta, e o creme espesso é bege de boa formação e retenção. No nariz, turfa, turfa e mais turfa. Ah, e só um pouquinho mais de turfa. E amor. Forçadamente dá para dizer que tem café e chocolate, mas o nariz só diz… turfa. Quero um barril desses pra mim. Na boca, doçura achocolatada, turfa e um álcool absolutamente delicioso, tudo junto no primeiro toque. Na sequencia, o álcool amacia, a turfa brilha e traz consigo figo (?) e chocolate. A textura é sedosa e bastante picante de álcool (ele aparece sobre a língua, mas a garganta o percebe mais aconchegado). Dai pra frente, uma cerveja espetacular, que finaliza turfadamente alcoólica. No final, turfa, álcool e chocolate, percepção que se estende ao retrogosto, intenso. Posso beber apenas essa cerveja o resto da vida?

A segunda holandesa da De Molen (e a terceira a entrar no Top 10 do meu ranking pessoal de 2001 cervejas) é a Haken & Ogen (Aborrecimento & Senões), outra potente Russian Imperial Stout maturada por 12 anos em barricas de segundo uso, neste caso, descansando em velhos barris que antes maturaram o famoso Bourbon Jim Bean. De coloração marrom bastante escura, quase preta, e creme bege espesso de ótima formação e média alta retenção. No nariz, notas que remetem a Bourbon com baunilha, alcaçuz e álcool encantam o aroma. Ainda é possível perceber, de maneira mais discreta, café, defumado suave e ameixa. Na boca, baunilha, café e Bourbon chegam juntos no primeiro toque, e impressionam. A textura é sedosa com picância de álcool sobre a língua (na única vez que se percebe realmente o álcool). Dai pra frente surge um conjunto caprichado, com café mais presente conforme a cerveja aquece, e chocolate, e Bourbon, e baunilha. No final, madeira, Bourbon e ameixa. No retrogosto, café, ameixa e álcool suave. Uma cerveja incrível!

Da Holanda para a Dinamarca (ainda que as duas cervejas listadas aqui sejam produzidas na cervejeira belga De Proefbrouwerij) com duas Fruit Lambics da Mikkeller da série Spontan Cherry Frederiksdal – uma terceira, maturada em barris de vinho Chardonnay, fez sucesso aqui em casa: desta vez, a primeira delas é a Spontan Cherry Frederiksdal Málaga Wine Barrels, que passa por barris de vinho espanhol da região de mesmo nome, conhecidos por serem vinhos com maior dulçor, e recebem cerejas da fazenda de Frederiksdal, no sul da Dinamarca. De coloração vermelha próxima a de um vinho tinto com creme avermelhado de baixa formação e rápida dispersão, a Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal Malaga exibe um aroma mantém a ideia de geleia de cereja da versão Chardonnay, mas com um tiquinho de doçura a mais. Há, ainda, aproximação com vinho tinto e nada que adiante acidez e azedume. Na boca, a doçura da cereja é acompanhada por algo do barril já no primeiro toque. Na sequencia, acidez baixa, quase inexistente, e mais cereja, e mais vinho tinto. A textura traz algo de acidez, mas muito menos que o exemplar Chardonnay. Dai para frente surge uma Fruit Lambic saborosa, mas mais comportada que a versão Chardonnay. No final, uma picadinha de acidez e azedume, quase imperceptível, que se segue até o retrogosto, vinificado e com sugestão de geleia de cereja. Delicinha.

A segunda da série Spontan Cherry Frederiksdal, da dinamarquesa Mikkeller, mantém o mesmo padrão de produção da receita anterior, com a diferença recaindo sobre a maturação, que aqui acontece em barricas de carvalho de primeiro uso. De coloração vermelha próxima a de um vinho tinto (e um pouco mais clara que a anterior) e com creme avermelhado de baixa formação e rápida dispersão, a Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal Oak Barrels exibe um aroma com cereja em destaque, sugerindo tanto suco quanto geleia. Ainda é possível perceber azedume e, delicadamente, madeira, além de leve toque funky acrescentando condimentação (e remetendo a pimenta preta). Na boca, a cereja oferece rápida doçura de geleia no primeiro toque para, no microssegundo seguinte, acrescentar azedume, acidez, vinificação, frutado e madeira. A textura é picante com tanto levedura quanto madeira pinicando a língua. Dai pra frente surge o conjunto menos polido das três Spontan Cherry Frederiksdal, com cereja disputando um lugar ao sol com o carvalho, intenso, e criando o perfil mais arisco das três. No final, azedume (frutado e suave) até morrer o último fiozinho de cerveja na garganta. No retrogosto, uma leve adstringência, cereja, pimenta preta e madeira. Muito boa.

Da Dinamarca partimos para a Itália com duas receitas incríveis produzidas por Teo Musso, o cervejeiro da Birra Baladin, de Piozzo, duas variações da Xyauyú, a majestosa Barley Wine da casa. A primeira versão é a Baladin Xyauyú Barrel, que é maturada por 12 meses em barris de carvalho que antes receberam rum e alcança 14% de graduação alcoólica. De coloração marrom sem nenhuma formação de creme – uma fina camada bege que desaparece em segundos –, a Baladin Xyauyú Barrel exibe um aroma que sugere frutas escuras intensas e doçura (calda de ameixa em primeiro plano, mas também uva passa, baunilha, melaço de cana, geleia de figo, damasco, toffee) em primeiro plano sobre uma base de conhaque, madeira e açúcar mascavo. Na boca, uma calda de ameixa alcoólica marca a língua no primeiro toque trazendo consigo doçura intensa, frutas escuras e madeira distante. A textura é viscosa e, sobre a língua, vai se tornando licorosa e ainda mais alcoólica, deixando perceber aqui o barril de rum. Dai pra frente uma cerveja que desce muito fácil, num deliciosamente falso drinkabilty, afinal são 14% de álcool. Frutado intenso, doçura de calda de ameixa, rum leve, madeira, tudo isso e mais um pouco. No final, doçura de melaço e rum. No retrogosto, calda de ameixa, melaço, madeira e rum.

Mantendo-se ainda na Itália com outra variável da Xyauyú, a incrível Barley Wine da Baladin, desta vez com a Fumè 2011, maturada por 12 meses em barris que antes receberam uísque da ilha de Islay (não há informação de qual das oito destilarias da área), uma das cinco regiões que destilam uísque com denominação protegida por lei na Escócia, e que também alcança 14% de graduação alcoólica. Detalhe que os uísques de Islay são característicos pelo defumado derivado da turfa, algo que se percebe assim que se abre a Xyauyú Fumè 2011, antes mesmo de derramar o líquido na taça. De coloração marrom sem nenhuma formação de creme – também uma fina camada bege que desaparece em segundos –, a Baladin Xyauyú Fumè 2011 exibe um aroma suavemente apaixonado de turfa num primeiro momento. Assim que o nariz se acostuma com a turfa surge maltado, uva passa, calda de ameixa, açúcar mascavo, figo e baunilha. Na boca, a turfa traz consigo uísque ao caldo de ameixa delicioso do primeiro toque, que fica incrível, daqueles que a gente gostaria que não acabasse. Assim como na Barrel Rum, a textura facilita identificar o barril de uísque sobre a língua, com um calor alcoólico apaixonante. Dai pra frente, uma cerveja aconchegante, deliciosa e incrível, que melhora consideravelmente conforme aquece na taça. No final, doçura de calda de ameixa, uva passa mais defumado suave. O retrogosto reafirma essa deliciosa complexidade. Apaixonante.

Retornando ao Brasil, mais especificadamente à Curitiba, casa da Bodebrown, com duas novidades da elogiada Wood Aged Series da cervejaria. A primeira é a Wee Heavy Au Syrah, lançada em abril de 2018 após maturar a elogiada Wee Heavy da casa por 12 meses em barris de vinho Syrah da serra gaúcha. O resultado é uma cerveja de coloração âmbar acastanhada escura e bastante turva, com creme bege de média formação e rápida dispersão. No nariz, a uva surge em destaque com madeira e ameixa na base. Há, ainda, frutas escuras, toffee, baunilha e, lá no fundo, malte (que é a força motriz da Wee Heavy). Na boca, a uva Syrah brilha novamente do primeiro toque até escorrer pela garganta com madeira, toffee, baunilha e ameixa surgindo de maneira secundaria no trajeto. A textura é sedosa e picante (trazendo memória de vinho sobre a língua) e, dai pra frente, surge um grande conjunto, vinificado e maltado. No final, uva, madeira, toffee, até um defumadinho. No retrogosto, ameixa, toffee, uva e mais madeira! Uou!

A Hair of the Bode é uma Barley Wine que descansa na garrafa por 12 meses, colaborativa entre a Hair of the Dog (EUA) e a Bodebrown, que a lançou oficialmente em garrafa no final de 2015, mas já tinha feito experimentos em barris de Amburana, Cabernet e American Oak além de Carmenere, a famosa uva francesa que renasceu no Chile e também é produzida na Serra Gaúcha, que cedeu os barris de carvalho que maturaram por 15 meses essa Hair of the Bode Carmenere Wood Aged Series 2015. De coloração âmbar acastanhada mais clara que a Wee Heavy Au Syrah e creme bege de média formação e retenção, a Hair of the Bode Carmenere exibe quase o mesmo padrão da anterior: uva em destaque de forma apaixonante e um pouquinho mais de presença da receita base de Barley Wine (na anterior, a uva se sobrepõe à Wee Heavy) com mel, caramelo e toffee perceptíveis além de 11.7% de álcool distantes. Na boca, um baile da uva no primeiro toque seguido de doçura maltada caramelada em uva e álcool. Uma delícia. A textura é sedosa, quase licorosa, com picância (de álcool). Dai pra frente, uma baita cerveja que valoriza a barrica de Carmenere sem esquecer que é uma Barley Wine. No final, uva, madeira e um tiquinho de álcool. No retrogosto, caramelo, mel, uva e álcool. Uou!

Fechando a série com uma cerveja bastante especial: Rodenbach Vintage 2012 Oak Aged Barrel Nº 170, o “melhor barril do ano” selecionado pelos mestres cervejeiros da casa, e que ganha mais dois anos de maturação extra. Neste caso, o ano de maturação foi 2012 e o barril escolhido foi o 170. O resultado é uma cerveja de coloração acastanhada e levemente avermelhada com creme bege de rápida formação e mais rápida ainda dispersão. No nariz, avinagrado intenso e percepção de barrica se destacam, mas ainda é possível notar frutado (cereja e uva vermelha), baunilha, vinificação, Xerez e balsâmico. Na boca, doçura de baunilha e vinificação rápida no primeiro toque seguida no microssegundo seguinte de acidez, azedume e avinagrado, com percepção suave de madeira. A textura é acética e picante, mas suave. Dai pra frente, o conjunto elegante segue encantando com avinagrado comportado (se isso for possível), baunilha e frutas vermelhas. No final, meladinho azedo. No retrogosto, Xerez, azedinho, doçura, uva e barril. Uma cerveja incrível.

Balanço
Uou! Abrindo com a espetacular Entomology, união de forças da Dádiva com a Quatro Graus, que resultou em uma das grandes cervejas do ano no Brasil. Uma pancada de lúpulo (que permanece na boca durante muito tempo), coco e madeira acrescida da maciez advinda do uso de aveia. Uma cerveja sensacional que merece seguir o aviso da lata: beba uma fresca para valorizar o lúpulo, e guarde uma pra sentir a evolução dos demais ingredientes. Amor. Na sequencia, duas De Molen incríveis: a primeira, defumadíssima, é a Verdeel & Heers, que, na boa, eu casava. Que cerveja incrível. Na mesma balada, a De Molen Haken & Ogen mantém o padrão lá em cima. A Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal Malaga soa deliciosa, ainda que mais comportada que a mesma versão passada por barris de uva Chardonnay. Já Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal Oak Barrels soa mais arisca, com presença intensa de carvalho e sugestão de condimentação. Baladin 1 / Baladin 2. Retornando ao Brasil com duas experimentais da Bodebrown: a primeira passa a Wee Heavy da casa por velhos barris que maturaram vinho Syrah, e o resultado é excelente, com a uva dominando todo o conjunto. Excelente. A segunda, Hair of The Bode, que passa por barricas de vinho Carmenere, é ainda melhor. Fechando o passeio com uma sensacional Rodenbach Vintage 2012 Oak Aged Barrel Nº 170. Palmas.

Dadiva e Quatro Graus Entomology
– Estilo: American Oat Strong Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9.5%
– Nota: 4.91/5

Dadiva e Trilha Status Quo
– Estilo: English Barley Wine
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12.5%
– Nota: 4.12/5

De Molen Verdeel & Heers
– Estilo: Russian Imperial Stout Barrel Ageld
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 9.8%
– Nota: 4.97/5

De Molen Haken & Ogen
– Estilo: Russian Imperial Stout Barrel Ageld
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 10.7%
– Nota: 4.88/5

Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal Malaga
– Estilo: Fruit Lambic
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 8.2%
– Nota: 4.04/5

Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal Oak Barrels
– Estilo: Fruit Lambic
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 8.2%
– Nota: 4.01/5

Baladin Xyauyú Barrel Rum 2011
– Estilo: Barley Wine
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 14%
– Nota: 4.72/5

Baladin Xyauyú Fumè Islay Whisky 2011
– Estilo: Barley Wine
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 14%
– Nota: 5/5

Bodebrown Wee Heavy Au Syrah
– Estilo: Scocth Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 4.04/5

Bodebrown Hair of The Bode Carmenere
– Estilo: Barley Wine
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 11.7%
– Nota: 4.42/5

Rodenbach Vintage 2012 Oak Aged Barrel Nº 170
– Estilo: Flanders Red Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 4.43/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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