David Byrne em Belo Horizonte

por Bruno Capelas

No início, é o cérebro. É das conexões neurais, ainda um bocado misteriosas para a ciência, que surge tudo que vem a seguir. Tudo, neste caso, se refere ao show de David Byrne em Belo Horizonte numa noite de quinta-feira, 29 de março. A apresentação, realizada no Km de Vantagens Hall, encerrou a passagem do líder do Talking Heads pelo Brasil – houve ainda paradas anteriores em São Paulo (no Lollapalooza), Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba.

Aos 65 anos e cheio de vitalidade, Byrne começa o show tal qual um herói romântico como Lord Byron, segurando um cérebro em suas mãos. Ele se movimenta descalço em um palco-caixote, sem fios nem adereços – apenas cortinas de contas, por onde o cantor e sua banda entram e saem da ribalta. É a deixa para o começo de “Here”, canção que encerra seu mais recente disco, “American Utopia”, e que dá nome à turnê que passou pelo Brasil. A partir dela, é como se Byrne fizesse um pacto com o público: aqui, neste palco, uma miríade de ideias será apresentada. Entendê-las, dançá-las ou simplesmente ignorá-las faz parte do acordo, como é caro aos grandes artistas. É também uma forma de alertar aos desavisados, claro, de que não será exatamente uma jornada simples.

A partir da canção inicial, Byrne segue seu rumo oferecendo aos presentes diversas porções de sua variada carreira. Ele passeia por colaborações com artistas mais novos (Fatboy Slim, St. Vincent, o duo eletrônico X-Press 2) e por canções do novo disco, que não fazem feio – preste atenção em “Everybody’s Coming to My House”, que soa como referência (reverência?) a James Murphy e o seu LCD Soundsystem. Evidentemente, não há como não passar pelos lados A e B do Talking Heads, mas Byrne é um motorista teimoso que insiste em não seguir o Waze ou a rota mais conhecida.

Isso significa que não se ouve o hit “Psycho Killer” (e quem é que aguenta ainda o “far-far-far-far-far-better” nas baladinhas indie?). Mas há, por exemplo, “I Zimbra”. Em BH, a faixa inicial do terceiro disco do grupo, “Fear of Music”, aparece logo no começo do show, como celebração ao nonsense e ao multiculturalismo, duas ferramentas para entender (e, por que não, sobreviver?) os nossos tempos. Ali, fica claro porque Byrne se une tão bem aos brasileiros Caetano Veloso e Tom Zé. Ele, ao seu modo e do ponto de vista americano, é também um tropicalista, deglutindo e regurgitando referências da música do mundo, de forma respeitosa.

Um bom jeito de entender isso seja olhando para a própria banda que acompanha o músico, uma trupe de 11 músicos que é diversa em gênero, etnia, nacionalidades e performance. Juntos, eles cantam, tocam diversos instrumentos, dançam em coreografias extremamente demarcadas e até mesmo “batem um bolão” – literalmente, no final do show, quando trocam passes com uma bola de futebol. Destaque especial para o brasileiro Davi Vieira, que roubou a cena com seu charme e também sua participação rimando em “Toe Jam”, lembrando o clássico verso “quem te conhece/não esquece jamais.”. Mas não é só pela companhia que Byrne se coloca nessa posição: ele também se mostra consciente das questões locais, lembrando de Amarildo e Marielle Franco em “Hell You Talmbout”, releitura da canção engajada de Janelle Monae que encerrou a apresentação.

Ao longo da noite, Byrne apresentou uma lista de reflexões e metáforas sobre a vida contemporânea – e aí não faltam comentários mais ou menos cínicos sobre TV, trabalho, romance e rotinas (atenção especial para “Like Humans Do”, também conhecida como a música de demonstração do Windows Media Player no Windows XP). Nem sempre é fácil entender tudo o que se passa – eis aqui alguém que segue a máxima de “explicando pra confundir, confundindo pra esclarecer” –, mas é difícil não admirar o que acontece no palco.

E mesmo quando não se entende, há espaço para o corpo. Sabiamente, Byrne apela a seu time de percussionistas, como quem reconhece que algumas ideias funcionam melhor com os quadris do que com os neurônios. Não é à toa que alguns dos melhores momentos da noite também são os mais dançantes – como a dupla de hits do Talking Heads “Once in a Lifetime” e “Burning Down The House”, ou a já citada “Toe Jam”. É num instante mais delicado, porém, que surge talvez a melhor definição sobre esse aspecto da apresentação. Afinal, quanto menos a gente falar, melhor (“the less we say about it, the better”) – da cativante balada “This Must Be The Place (Naive Melody)”, cantada a plenos pulmões pelo público que lotou no máximo metade do Km de Vantagens Hall, em uma rara noite de som bem equalizado.

Ao longo de pouco menos de duas horas, encerradas com palmas, pisadas e até gritos de “olê, olê, olê, olê David Byrnê!”, o que se viu em Belo Horizonte foi um espetáculo raro e ousado, que mistura música, dança, poesia, teatro e um tiquinho assim de arte contemporânea e “carimbó”– de forma que o apelido “banda instalação” ou “show digno de Inhotim”, não soa despropositado, ainda mais nas Gerais. É, sobretudo, uma experiência em self-service – mesmo com a palavra já desgastada por anos e anos e maus tratos pelo marketing. Quem queria ser cabeçudo pode se divertir tanto quanto quem foi apenas dançar e curtir velhos clássicos do Talking Heads. Difícil mesmo, seja por incredulidade ou felicidade, foi não sair do show com um sorriso no rosto.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e trabalha no caderno Link, de O Estado de São Paulo. A foto que abre o texto é do Facebook oficial de David Byrne! As demais fotos são de Eugenio Gurgel / Divulgação.

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