Entrevista: Glenn Hughes

entrevista por Homero Pivotto Jr.

Uma parte considerável do que é feito hoje no mundo do rock tem influência, direta ou indireta, de três bandas inglesas: Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin. Há, inclusive, quem classifique esses grupos como a sagrada tríade do estilo — ou coisa que o valha. E isso não é papo de tiozão do Led, mas uma constatação bem plausível considerando o que dizem artistas na ativa hoje em dia, com ou sem muita visibilidade, sobre suas influências.

Caso você concorde com essa crença, há de convir também que só mesmo um abençoado poderia ter integrado mais de uma dessas entidades. E um desses bem-afortunados está entre nós, ainda levando a graça de seu talento aos devotos da boa música. Falamos de Glenn Hughes, baixista e vocalista que retorna ao Brasil tocando só músicas do Deep Purple numa turnê que passará por Brasília (17/4 Centro de Convenções), Belo Horizonte (19 Cine Theatro Brasil), São Paulo (21 Tropical Butantã), Limeira (22 Studio Mirage), Curitiba (24 Ópera de Arame), Manaus (26 Porão do Alemão) Porto Alegre (28 Opinião) e Rio (29 Circo Voador)

Glenn esteve com o Deep Purple entre 1973 e 1976, participando das fases MK III e MK IV — que incluem os discos “Burn” (1974), “Stormbringer” (1974) e “Come Taste the Band” (1975). Já com o Sabbath gravou apenas um disco, o controverso “Seventh Star” (1985), que por pouco não foi um álbum solo do guitarrista Tony Iommi. Além de ser agraciado com passagens por essas duas lendas, o veterano de 66 anos ainda foi membro do Trapeze e construiu uma carreira solo. Mais recentemente, esteve tocando com o Black Country Communion (com Jason Bonham, filho do baterista do Led Zeppelin, John Bonham) e California Breed.

Na entrevista a seguir, Glenn explica porque resolveu ressuscitar o repertório do Deep Purple recentemente, relembra o fantasma das drogas e avalia sua bendita trajetória.

Por que você resolveu fazer uma turnê tocando apenas músicas do Deep Purple agora? Houve algum acontecimento que desencadeou essa vontade?
Senti que esse era o momento certo. O Deep Purple não toca músicas das fases MK3/MK4 (que compreendem o período entre 1973 e 1976, quando Glenn esteve na banda tocando baixo e cantando). Era tempo de revisitar essa fase com o devido respeito que ela merece. A ideia veio após uma turnê na Austrália, quando meu empresário e eu decidimos fazer disso uma prioridade exclusiva pelos próximos anos.

Quais são as memórias mais bacanas do tempo em que você tocou com o Deep Purple na metade dos anos 1970? Há lembranças amargas também?
Muitas recordações maravilhosas, como tocar no festival California Jam (1974) e conhecer Stevie Wonder. Estar no Purple foi uma experiência fantástica. Claro que as drogas arruinaram boa parte delas, e as lembranças se tornaram amargas, como vocês bem devem saber. Eu não estava em um bom lugar no fim da era Purple.

Você sabe se os outros membros do Deep Purple aprovam o fato de que você planejou uma tour com um repertório baseado no catálogo da banda?
Não tenho ideia. David (Coverdale) fez isso com o Whitesnake, Ritchie (Blackmore) está tocando sons do Deep Purple com o Rainbow. Então, por que eu não poderia?

Qual é o sentimento ao tocar essas faixas antigas agora, para uma plateia em que muitos nem eram nascidos no tempo em que as músicas foram compostas?
Sou agradecido por trazer esses sons de volta à vida. É muito importante para mim causar impacto em quem ouve essas composições. É incrível que elas tenham passado no teste do tempo, mas grandes músicas são atemporais. Amo ver a reação dos fãs mais novos. Eu quero mostrar isso para todos os admiradores de rock pelo planeta. É tempo de queimar (uma alusão ao disco “Burn”, de 1974)!

Em sua opinião, como pioneiro no estilo: para onde o rock está indo? O que acha que vai acontecer com o gênero? Pergunto porque a indústria da música mudou, e nomes clássicos como Motorhead, Black Sabbath e Led Zeppelin, entre outros, estão fora do jogo por diferentes razões.
Sim, tudo está mudando. Não consigo ver uma volta àquela fase de experimentação verdadeira, de inovação. Isso sem falar no tamanho dessas bandas. A indústria era muito maior. Não é crime reconhecer que era melhor no passado, e não é apenas nostalgia. Por isso que estou fazendo essa tour: para dar aos fãs o gostinho de como era nos gloriosos dias do rock setentista.

Como foi ter feito parte de doi gigantes do rock (Purple e Sabbath)?
Me sinto honrado, claro! Com o Sabbath foi um período menor, mas qualquer envolvimento com um pioneiro como Tony Iommi é uma honra.

Falando nisso: muitos dizem que Sabbath, Zeppelin e Purple são a trinca sagrada do rock’n’roll. O que pensa sobre essa afirmação?
É uma boa analogia, é verdade. E essas bandas eram todas diferentes entre si. Zeppelin tinha o lado acústico, Sabbath o peso sombrio e Purple a improvisação. Três bandas que mudaram a música e influenciaram muitos músicos. Me sinto orgulhoso do papel que tive nisso tudo.

E sobre sua voz: você é chamado de ‘a voz do rock’, e continua cantando com muito entusiasmo e qualidade (vide o show mais recente em Porto Alegre, em 2015). Há algum cuidado especial ou coisa do tipo que costuma fazer para manter a saúde vocal?
Eu nunca fumei, o que me ajudou a manter a voz. Mas é um presente divino poder cantar. Eu descanso minha voz, cuido bem dela e não fico achando que foi um dom que veio de graça. É natural, então sou muito sortudo de ter mantido minha voz e o alcance dela por todos esses anos.

E sobre seus outros projetos (carreira solo, Black Country Communion, California Breed). Há ou haverá novidades sobre essas bandas em breve?
Devem rolar novidades em breve sobre meus planos para o próximo ano. Tenho alguns projetos possíveis, mas com relação às turnês vou me dedicar à “Performs Classic Deep Purple Live” por um tempo. Talvez role um disco do Black Country Communion, e quem sabe uma nova empreitada musical também.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista. Entrevista cedida pela Abstratti Produtora.

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