Nublu Jazz Festival São Paulo 2018

texto por Marcelo Costa
fotos por Liliane Callegari

Celebrando sua 8ª edição em São Paulo numa programação que, assim como nos últimos anos, se divide entre o Sesc Pompéia, na capital, e o Sesc São José dos Campos, no Vale do Paraíba, o Nublu Jazz Festival exibiu uma programação um pouco menos Jazz raiz, muito mais dançante e, sobretudo, muito mais feminina (principalmente em comparação com a edição 2017, em que brilharam Kamasi Washington, The Cookers e Saul Williams). Em três dias de março de 2018, o público pode dançar ao som de Neneh Cherry, Bebel Gilberto, Geanine Marques (G T’aime) e Skye Edwards (Morcheeba) num evento que ainda teve #MariellePresente.

QUINTA-FEIRA – 15/03/2018
Abrindo os trabalhos na quinta-feira, a formação pouco convencional do quarteto britânico Sons of Kemet, formado em Londres, em 2013: dois bateristas (um de frente para o outro), sax e tuba! E só! E o show foi sensacional, com o público entrando na vibe orgânica do som e chacoalhando o corpo! Liderado pelo saxofonista / clarinetista Shabaka Hutchings, o Sons of Kemet fez um show poderoso e incrivelmente dançante com repertório baseado em seus três álbuns (a estreia, “Burn”, saiu em 2013; e agora em 2018 eles mostram “Your Queen Is A Reptile”) que chocam New Orleans com Londres, Oriente Médio e Londres. Showzão.

Na sequencia, Seun Kuti & Egypt 80. Se em 2014, no Stockholm Music & Arts, o supergrupo que acompanhava Fela, e que agora segue seu filho mais novo, conseguiu fazer suecos dançarem afrobeat, imagina no Brasil. O show começou com 1 minuto de silêncio em respeito à Marielle Franco e, na sequencia, os 14 integrantes da Egypt 80 começaram a festa. Como praxe, Seun entrou na terceira música celebrando o pai (com a cover de “Pansa Pansa”) e focando o repertório da noite no recém-lançado “Black Times” (2018), com seis canções do disco no set. Em “African Dreams”, Seun voltou a homenagear Marielle (no Instagram, ele já havia escrito: “For every revolutionary, we live to die so tomorrow can live! #mariellepresente Gone are the days when we forget our heroes and betray their martyrdom, gone are the days we forget! A luta continua!”) num dos grandes shows do primeiro semestre.

SEXTA-FEIRA – 16/03/2018
Ao casal Geanine Marques (modelo, musa de Alexandre Herchcovitch e ex-integrante da banda Stop Play Moon) e Rodrigo Belotto (guitarra) acompanhados por Danilo Costabile (guitarra) e a Didi Cunha (bateria) ficou a responsabilidade de abrir o segundo dia do Nublu São Paulo. G T’aime, o projeto, é um trabalho charmoso repleto de “delicadas canções” (como descreveu Renan Guerra aqui no Scream & Yell) que, no entanto, soaram delicadas demais para a Comedoria do Sesc Pompeia, com um público disperso e falante não dedicando a atenção merecida ao quarteto. Uma pena, pois o show foi suave, bonito e calmo, adjetivos que andam fazendo falta no Brasil de 2018. Não a toa, Geanine se despediu pedindo: “Amor, paz e respeito, por favor”. Que a ouçam.

Na sequencia, uma encantadora Skye Edwards à frente (ela havia deixado o grupo em 2003 e retornou em 2014) tendo ao lado o brilhante guitarrista Ross Godfrey, os dois integrantes originais do Morcheeba (o irmão de Ross, DJ Paul, deixou a banda em 2013), o grupo convidou todo o público para dançar, e o local se transformou em um grande baile. De olho no futuro, o grupo (que ainda conta com Jaega, filho de Skye, na bateria, e o maridão Steve Gordon no baixo) abriu a noite com o novo single, “Never Undo”, mas os grandes hits não faltaram: “Let Me See”, “Blindfold”, “Trigger Hippie”, um cover potente de “Let’s Dance”, de David Bowie, e, claro, “Rome Wasn’t Built in a Day” no bis, fizeram todo mundo voltar sorrindo para casa. Vida ao longa ao (renascido) Morcheeba.

SÁBADO – 16/03/2018
Para a abertura do último dia do Nublu Festival SP 2018, uma proposta interessante: Kenny Wollesen (bateria), Dave Harrington (guitarra, programação e efeitos) e Ilhan Ersahin (o saxofonista que fundou o selo Nublu) convidaram a cantora Bebel Gilberto para dividir a noite, e o show se dividiu em dois: quando sozinhos, o trio apostava num Jazz inventivo, criativo e instigante. Já com a companhia da diva e parceira Bebel, a sonoridade surgia mais delicada e introspectiva. A alternância de números (uma com o trio, uma com Bebel) deixou a divisão ainda mais evidente, com a provocação tendendo ao primeiro formato e o lirismo surgindo no segundo.

Fechando o festival, uma poderosa Neneh Cherry chegou avisando: “Hoje nós vamos tocar apenas canções inéditas, de um projeto que estou desenvolvendo com o Four Tet. É um disco bastante político que, não por acaso, se chama ‘Broken Politics’. Espero que vocês gostem das músicas, gostem da banda”. Ou seja, nada de hits (“7 Seconds”, “Buffalo Dance” ou “Woman”), e sim canções fresquíssimas que nem foram lançadas, como “Fallen”, “Kong”, “Synchronized Devotion” e “Deep Vein Thrombosis”, que não existem em lugar nenhum (ainda), e que mostram o domínio que essa mulher tem sobre seu público, afinal, mesmo só com canções desconhecidas aconchegadas em vibrafone, piano, harpa, bateria e alfinetadas de eletrônica, Neneh fez um show belíssimo (vêm um grande disco por aí), que prendeu a atenção do público e que também teve homenagem à Marielle Franco. Um fecho de ouro para um grande festival.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Liliane Callegari (@licallegari) é fotógrafa e arquiteta. Site oficial: http://lilianecallegari.com.br

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