Três discos: The Tormentos, Skrotes e Rodrigo Nassif Quarteto

por Leonardo Vinhas

“…Ejecutan el Macabro Plan”, The Tormentos (Scatter Records)
A (não tão) nova turma da surf music argentina se destaca no cenário sul-americano por investir sem medo nos lados mais melódicos e climáticos do gênero. Em vez de mascarar riffs óbvios debaixo de muita distorção e sujeira (uma constante em outras terras abaixo do Equador), bandas como Lefunders e Los Frenéticos preferem elaborar melhor as composições, trazendo influências de outros estilos, mas sem pesar demais a mão nem descaracterizar a estética surfer. Mais veteranos, o quarteto de Buenos Aires The Tormentos é um dos inspiradores dessa nova turma, junto com Los Kahunas, e chegam a seu terceiro álbum “solo” (já dividiram um disco com os Phantom Surfers e um EP com os brazucas Autoramas). Aqui fica claro que a influência mais notável é a do indie rock norte-americano – não à toa, há uma versão acelerada de “Cecilia Ann”, dos The Surftones, popularizada pelo Pixies, e uma faixa que remete ao bubblegum californiano (“Summer Vacation Girl”, a única com vocal). Outros bons momentos são a batida entre sexy e fantasmagórica de “El Macabro Plan del Dr. Breuer”, o climão spaghetti western de “Por Mucho Menos” e o “tiki sound” de “Apa Maui”. Todas as 12 faixas colaboram para fazer desse álbum uma experiência variada que se presta tanto à festa como para ouvir atento em casa.

Nota: 6,5 (ouça e baixe no Bandcamp)

“Tropical Mojo”, Skrotes (Independente)
É inacreditável como os Skrotes conseguem unir funk setentão, grooves modernos, música brasileira, música erudita, o tal do “funk metal” dos anos 90 e acid jazz sem soar um Frankenstein ou um pretendente a imitador de Frank Zappa. Muito longe disso, o trio de Florianópolis (SC) entrega um terceiro LP que consegue dar um passo à frente de seu muito bom antecessor, “Nessum Dorma” (2014), mérito tanto da evolução da evolução da banda como compositores como da produção de Edu K. O ex-De Falla não só acolheu e ampliou as inovações dos malucos (especialmente surpreendentes em “Lamber One” e “Delincuentes Profesionales”) como deu o tratamento de estúdio que a banda ainda não havia tido – o piano de Igor de Patta, principalmente, nunca soara tão pesado e dinâmico quanto aqui. Com tudo isso, “Tropical Mojo” entrega uma sonoridade que honra tanto seu bem-sacado título quanto as poderosas apresentações ao vivo dos Skrotes.

Nota: 7,5 (ouça e baixe no Bandcamp)

“Rupestre do Futuro”, Rodrigo Nassif Quarteto (180 Selo Fonográfico)
Um disco acústico, no qual predominam violões, pode soar pesado? Pode, se tal disco for executado pelo Rodrigo Nassif Quarteto, porto-alegrenses que descem a mão nas seis cordas, baixo, piano e bateria sem dó, agregando influências que vão de Astor Piazzolla e Paco de Lucia até Django Reinhardt e o rock’n’roll (aquele, sabe?). “Rupestre do Futuro” tem muitos trechos gravados ao vivo, valorizando a execução brutal da banda (ouça “Tio Pepepo” logo de cara para saber do que estamos falando) e o groove que remete tanto à música latina quanto ao lado mais sinuoso do rock. Ainda assim, há espaço para delicadeza (“Tema de Obdúlio”, a bela “Guaxo”, “A Hora Dupla” e “Um Abraço em Luis Alberto”), bem-vindos silêncios que permitem apreciar melhor as explosões e a tensão que se apresenta nos outros temas. Nessa alternância de climas, e com a produção destacando a crueza dos timbres, “Rupestre do Futuro” se apresenta como uma trilha sonora para quase qualquer delírio que o ouvinte queira imaginar enquanto o disco rola.

Nota: 8 (ouça no Spotify)

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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