Três filmes: “Artista do Desastre”, “Todo Dinheiro do Mundo”, “Doentes de Amor”

por Marcelo Costa

“Artista do Desastre”, de James Franco (2017)
Existem várias maneiras de entender esta brincadeira “poética” chamada “Artista do Desastre”, a adaptação (indicada ao Oscar na categoria Roteiro) do livro de Greg Sestero, “The Disaster Artist: My Life inside ‘The Room’, The Greatest Bad Movie Ever Made”, sobre a amizade do ator com Tommy Wiseau e a produção de “The Room” (2003), considerado por muitos como “o pior filme de todos os tempos” (tão ruim, mas tão ruim, que virou cult, um item de luxo para masoquistas). A primeira é uma declaração apaixonada ao cinema: num raro momento lírico do filme (que rememora “A Noite Americana”, o clássico que deu a Truffaut um Oscar), uma atriz no set de “The Room” explica que está ali, naquele caos cinematográfico, porque atuar é como uma declaração de amor ao cinema. Outra: o retrato da força de vontade (aliada a alguns milhões de dólares na conta bancária) de pessoas que, relegadas ao ostracismo pela indústria, decidiram elas mesmas criarem seu caminho. Uma terceira: James Franco, que com boa vontade não passa de um ator mediano, se esforça para ser um ator tão ruim quanto Tommy Wiseau, e consegue seu intento, com méritos. E é aqui que o caldo entorna: ao “caprichar” para fazer um filme tão constrangedor quanto “The Room”, James Franco se iguala a seu biografado, mas tem a seu favor a máscara do “cool”, que reduz o filme a 50% de ironia e 50% de poesia, ambas ruins, mas bem(mal)feitas. O resultado cumpre o objetivo, mas é tão torturante quanto recriar o pior almoço que você comeu em toda a sua vida, e come-lo de novo. Méritos de recriação (e de “coolzice”) à parte, “Artista do Desastre” é uma bobagem.

Nota: 1 (nos cinemas)

“Todo o Dinheiro do Mundo”, de Ridley Scott (2017)
Tendo em vista que esta foi a produção mais caótica de 2017 motivada pela demissão de Kevin Spacey após acusações de assédio, a escalação de Christopher Plummer no lugar do demitido (em atuação que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar, a primeira desde “Beginners”, em 2012) com direito a refilmagem de todas as cenas que incluíam o personagem (com mais confusão surgindo devido a diferença astronômica de salários entre Michelle Williams e Mark Wahlberg – ela recebeu US$ 1000 e ele US$ 1.5 milhão pelas cenas extras – que terminou com Mark doando seu cachê ao movimento Time’s Up) e Ridley Scott não alterando o cronograma original um segundo sequer, é impressionante como “Todo o Dinheiro do Mundo” sobreviveu ao caos da produção. Tendo como base o livro “Dolorosamente Rico: A Escandalosa Fortuna e Desgraça dos Herdeiros de J. Paul Getty”, escrito por John Pearson em 1995, “All the Money in the World” (no original) narra o sequestro em Roma em 1973 de John Paul Getty III, neto do então homem mais rico do mundo, John Paul Getty (enquanto John Paul Getty II, o filho junkie, injetava heroína com os Stones pelo mundo), que se recusou a pagar os US$ 17 milhões de dólares de resgate. O roteiro a lá thriller de suspense simplifica (às vezes até demais) a história e foca nos meses de negociação da mãe tanto com sequestradores quanto com o milionário, envolvendo máfia, paparazzis, orelha cortada, quadros valiosíssimos (que hoje estão no Museu Getty, em Los Angeles – menos “A Virgem e o Menino”, de Albrecht Dürer, que aparece no filme e está exposto no Museu de História da Arte em Viena) e a mesquinhez de J. Paul Getty resultando num filme cinematograficamente correto, digno de um ano de produções nota 8, de filmes ótimos, mas dois (grandes) degraus abaixo dos filmes sensacionais. Para entreter.

Nota: 8 (nos cinemas)

“Doentes de Amor”, de Michael Showalter (2017)
Assim como os dois filmes acima, também com uma indicação isolada ao Oscar 2018 (neste caso, na categoria de Melhor Roteiro Original), “The Big Sick” une dois estilos cinematográficos considerados vilões em Hollywood e que costumam causar urticária em pseudo-intelectuais, comédia romântica + comédia de costumes, mas que, quando respeitadas as doses corretas de pieguice e humor, podem sim render um grande filme. Este é o caso de “Doentes de Amor”, cuja história (inspirada em fatos reais assim como os dois acima) flagra o encontro de Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani (que assinam o roteiro e compartilham seu romance com o mundo). Eles vivem em Chicago e tudo começa quando Kumail (interpretado pelo próprio) está no meio de uma apresentação de stand-up e é cortado por um gritinho de Emily (interpretada por Zoe Kazan, muito bem) na plateia. Após o show, Kumail se aproxima de Emily, o bate papo se torna um flerte e os dois acabam na cama. É apenas o começo de um relacionamento deliciosamente cumplice e praticamente sem futuro, já que Kumail é filho de imigrantes paquistaneses, que pretendem casa-lo nos moldes da cultura muçulmana: um casamento arranjado entre paquistaneses (e, bem, Emily é branca e norte-americana). Para ficarem juntos, Kumail precisará romper com sua família e conquistar a de Emily (Holly Hunter e Ray Romano estão excelentes como os pais da garota), obstáculos que ele não sabe se conseguirá enfrentar. Todos os elementos que fazem as grandes comédias românticas serem o que são batem ponto aqui, de maneira elegante, às vezes desleixada, e delicadamente comovente, num filme bonito que entrega muito mais do que propõe.

Nota: 8.5

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

3 thoughts on “Três filmes: “Artista do Desastre”, “Todo Dinheiro do Mundo”, “Doentes de Amor”

  1. Nossa Mac, achei o Artista do Desastre bem menos bobagem que qualquer outro filme do/com o Franco, desde o 127 horas. Tem uma autoconsciência dessas contradições bem legal e o Franco, com todas as limitações dele, não está um ator ruim não, apesar do irmão não convencer. E como você mesmo disse, só o 50% poesia merecia no mínimo um 5. Discordo frontalmente dessa.

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