Entrevista: Ana Bacalhau

entrevista por Bruno Capelas

Começar um disco com os versos “vida nova é aquilo que mais quero / começar do ponto zero / meu destino refazer” não é algo que se faz à toa. Especialmente quando quem os canta é a dona de uma das vozes mais populares de um país: Ana Bacalhau, a vocalista do Deolinda, banda que deu novo impulso à música popular portuguesa a partir de 2008. “Depois de 10 anos com o Deolinda a cantar os outros, eu senti vontade de cantar a mim mesma”, diz Ana, em entrevista ao Scream & Yell. “Havia partes de mim que não cabiam no Deolinda e pediam para sair para fora”.

O resultado dessa busca, iniciada em 2013 com uma série de shows chamada “15”, na qual a cantora interpretava influências como Amália Rodrigues, Pearl Jam, Elis Regina ou Janis Joplin, é o álbum “Nome Próprio” (2017), lançado em outubro em Portugal. À moda da cantora brasileira que lhe influenciou, Ana buscou reunir no disco composições dos melhores nomes da geração atual lusa. É o caso de Samuel Úria, Miguel Araújo (Os Azeitonas), Jorge Cruz (Diabo na Cruz) ou a rapper Capicua, responsável pelo divertidíssimo rap à lusitana “A Bacalhau”, uma espécie de “vingança” contra todas as piadas infames já ouvidas pela cantora graças a seu sobrenome. “É o meu Grito do Ipiranga!”, brinca Ana.

Além disso, o disco também traz três composições da cantora – duas delas, em parceria com o músico português Janeiro. “Não me vejo como autora, só escrevo quando tenho algo entalado e preciso por para fora”, explica. Mas que fiquem calmos os fãs do Deolinda: apesar da banda ter anunciado recentemente uma pausa na carreira, “Nome Próprio” é parte apenas de um “até logo”, e não um de “adeus”. “Achamos que era uma altura em que seria bom para o Deolinda parar durante um tempo por conta de projetos paralelos”, explica Ana.

Um deles é compartilhado com o marido José Pedro Leitão, contrabaixista do Deolinda: Luz, a filha que Ana concebeu junto com a criação de “Nome Próprio” – e que acompanhou a entrevista via Skype com o Scream & Yell ao lado da mãe, brincando em um tapete. Enquanto isso, o guitarrista Luís da Silva Martins se dedica a um projeto de guitarra portuguesa e o compositor e guitarrista Pedro da Silva Martins trabalha no disco de retorno da cantora Lena D’Água, famosa nos anos 1980 em Portugal.

Na entrevista a seguir, Ana Bacalhau conta mais sobre o processo de concepção de “Nome Próprio”, explica a ânsia de cantar a si mesma e comenta algumas das principais canções do trabalho, como o blues-pop “Ciúme”, primeiro single do disco. Além disso, indica artistas portugueses para os brasileiros, fala sobre redes sociais (“há que ser mais erotismo do que pornografia”) e dá pistas do que pode estar na mira de sua carreira no futuro. “O mundo está de pernas pro ar! Quando o Deolinda voltar, espero que tudo esteja a caminho de ser resolvido”, diz. “Se não estiver, infelizmente, o Deolinda não vai falhar em conversar um bocadinho sobre isso”.

O que é o “Nome Próprio”? Por que gravar um disco solo nesse momento da tua carreira?
Em 2013, fiz uma série de concertos chamada “15”. Nele, fiz versões de canções que foram importantes no meu percurso: Amália (Rodrigues), Pearl Jam, Elis Regina, Miriam Makeba… eram muitas coisas diferentes, mas que me influenciaram. Naquela época, comecei a pensar como ligar estas influências minhas: a música portuguesa, mas também a canção anglo-saxônica e a lusofonia. São mundos diferentes, mas que se juntam de forma coerente para mim. Deixei amadurecer a ideia na cabeça, e fiquei à espera de um momento na carreira do Deolinda em que eu pudesse ter tempo para esse projeto. Depois do “Outras Histórias”, o último disco do Deolinda, vi que havia um tempo para me concentrar nessa ideia de disco solo. Começamos o ensaio em setembro de 2016, gravamos em fevereiro de 2017, e aí está.

Li numa entrevista que você queria cantar a Ana, e não a Deolinda. O que isso quer dizer, afinal?
Depois de 10 anos com o Deolinda a cantar os outros, eu senti vontade de cantar a mim mesma. Sempre cantei em bandas: tive o Lupanar, um trio de jazz chamado Tricotismo, e depois o Deolinda. No Deolinda, canto a vida dessa personagem que vê a vida pelas janelas de Lisboa. É um projeto específico e partilhado com pedaços meus, do Pedro, do Luís e do Zé. Nós quatro servimos a esta personagem. E comecei a pensar quem é que sou quando estou solo – não sozinha, porque obviamente ninguém faz nada sozinho, mas sim quando é o meu nome que está no cartaz. Essas partes de mim começaram a pedir para sair cá para fora. Eu queria que esse disco não fosse um decalque do Deolinda, mas sim do meu mundo. É óbvio que há coisas do Deolinda que estão lá: ele está no meu DNA, mas também há outras coisas.

Você gravou o disco ao mesmo tempo em que estava grávida. Como foi a concepção das duas obras – o disco e a Luz, a tua filha – ao mesmo tempo?
Sim! (risos). Foi em consonância. No primeiro ensaio, eu já estava grávida. A Luz me acompanhou, e o crescimento dela acompanhou o do disco. Foi interessante: eu estava em busca de mim como mulher, como indivíduo, e acabei também por me entender como mãe, alguém que está a moldar a vida de outra pessoa. Isso teve uma influência forte na forma como interpreto. Acho que toda a luminosidade do disco, da capa, tem muito a ver com o momento de concepção, de dar a luz à Luz.

Neste disco, foi a primeira vez que você gravou músicas suas. Como foi se colocar à pena?
Foi complicado (risos). Quando comecei a cantar e tocar guitarra [violão, no “português-brasileiro”], adolescente, eu fazia canções em inglês. Depois, parei: quando comecei com os Lupanar, interpretava as músicas dos outros e fiquei preguiçosa (risos). Não me vejo como autora, só escrevo quando tenho algo entalado e preciso por para fora. Também acho mais fácil escrever só a letra do que a música e a letra. Pode estar o mundo a desabar à minha volta e consigo escrever letra. Já para a música, é preciso pegar na guitarra e ficar em silêncio – e agora mesmo com a bebê é difícil estar quieta. O que aconteceu é que eu já tinha algumas letras, e conheci um músico jovem, o Janeiro, que tem muita facilidade musical. Dei-lhe três letras e ele sacou duas incríveis, que são “Só Eu” e “Menina Rabina”. “Só Eu” é uma expressão que minha vó usava muito, “só eu, mais ninguém não”, que é algo muito português. “Menina Rabina” é como me chamavam quando me comportava mal, é uma menina mal-comportada. Já o “Deixo-me Ir”, que é só minha, saiu fácil. Peguei na guitarra e me veio o refrão: “Deixo-me ir”. Quando é que isto acontece? Quando canto, então é uma música sobre esse processo terapêutico que é cantar. Num disco em que pretendo cantar a mim, era importante ter algo que era só meu, então me dei força, ganhei coragem e consegui finalmente escrever algo meu.

Quando ouvi “Menina Rabina”, senti que ela também poderia ser um comentário a respeito do feminismo, da mulher que luta para não precisar ser “bem comportada”. É isso?
É o retrato da minha vida, e é também o retrato de uma geração de mulheres que têm alergia a papéis pré-existentes e que lhes são impostos. Quero criar meu próprio caminho na minha vida e dos que me são próximos, sem regras de conduta. Não quero ter de me comportar só porque sou mulher, mas sim me comportar de certa maneira porque sinto que esta é a minha verdade. E não tenho pena se nos acham difíceis, rabugentas, rabinas ou má comportadas. Não tenho pena nenhuma. Para poder almejar ser feliz, não posso estar preocupada com o que os outros pensam de mim e deixar que me encaixem numa forma onde não me sinto confortável. Sou feminista neste sentido. Ao ser humano, tudo tem de ser permitido desde que não perturbe a vida dos outros. Uma pessoa que está em busca da sua liberdade não irá fazer isso.

Uma coisa que eu queria perguntar é que teu disco me lembrou algo que a Elis Regina fazia aqui no Brasil…
Ai, adoro a Elis!

Para fazer seu disco, você se cercou de um grupo de amigos, dos melhores compositores portugueses da atualidade. Como foi este processo?
Essa busca de amigos que me conhecem e que vai me escrever (ou descrever) foi algo inspirado no trabalho incrível que a Elis fazia de descobrir autores e os trazer para sua esfera. É uma influência, e fico feliz com a comparação. Vejo-me como intérprete, adoro cantar as palavras e as notas dos outros. Esse disco me pareceu a oportunidade perfeita de cantar muitos autores que eu queria. Quando falei com todos, pedi que escrevessem sobre a Ana que eles conhecessem, falassem de uma faceta minha. Conheço todos muito bem, pessoalmente – a exceção é o Afonso Cruz, e achei interessante ter também a visão de alguém sobre mim que não me conhece ao vivo. Quando comecei a receber as músicas, fiquei feliz, pois todas são certeiras. O Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, que me conhece há muito tempo, fez uma canção surrealista, “Debaixo da Mosca”. Ela não faz grande sentido, como às vezes também não faço. Tem a música da Capicua, tão biográfica que é quase autobiográfica. O Samuel Úria, que pegou bem esta coisa da inquietação, de eu não estar contente e em busca de algo. O Nuno Prata, com “Passo a Tratar-Me Por Tu”, que também tem essa coisa da busca constante na minha vida. E há sentimentos comuns a todos, como o “Ciúme” que o Miguel Araújo me deu, ou o “Morreu Romeu”, que é gostarmos de alguém e depois vermos este alguém nos braços de outra pessoa.

Por que “Ciúme” como primeiro single? É por que ela é muito diferente do Deolinda?
Foi. Ao escolher o primeiro single, queria algo que não deixasse dúvidas que estou num caminho diferente. “Ciúme” tinha intensidade, um som com cavaquinhos e a raiz portuguesa, mas também o órgão Hammond, algo bluesado, um soul-rock com final à la [Janis] Joplin. É outra grande influência. Isso nunca coube no território do Deolinda, e acho que é uma das canções que balizam o disco – o outro é o da Capicua, “A Bacalhau”. Escolhi estes extremos para caracterizar bem o que queria dizer. Já o segundo single, “Leve como uma Pena”, é do Jorge Cruz, do Diabo na Cruz, e se calhar de fato parece mais com o Deolinda.

E “A Bacalhau”, como surgiu?
Tudo nasceu com uma ideia minha. Vi um concerto do [cantor popular português] Fausto há um tempo. No show, ele misturava os ritmos tradicionais e danças portuguesas por baixo, e falava, quase dizendo a letra. Pensei: “Bolas, isso não está assim tão afastado do hip-hop”. É um hip-hop à portuguesa! Aqui temos a figura do mandador de baile, quem vem “mandar” o baile e dizer umas coisas ao público. Achei graça em juntar essas duas tradições, e pensei em usar o corridinho, um ritmo português que é geralmente instrumental. Liguei à Capicua e disse: “Ana”, pois ela também se chama Ana, “eu estava aqui com uma ideia meio parva. Diz lá se ela é completamente ridícula ou se achas graça. Quero fazer um corridip-corridop”. Ela gostou, mas ela disse que queria que a letra deveria ter força, porque afinal seria eu quem mandaria no baile. Ela me disse que teria de ser uma espécie de egotrip, falando sobre a minha vida. Conversamos por umas duas horas. Não queria chamar de homenagem, mas vejo “A Bacalhau” como uma prenda dela para mim. Uma música com meu nome!

E a letra é um pouco uma vingança, depois de tantas piadas que você já deve ter ouvido com o teu nome…
É mesmo! É o meu Grito do Ipiranga! (risos). É pá, é que é mesmo, desde pequena ouvi piadas, quando era miúda sofri com isso na escola. Ainda hoje, ouço piadas, cada vez menos originais. Ouvir uma piada comigo original é cada vez mais difícil. Mas é, “A Bacalhau” é uma vingançaaaaaaa! (grita)

Como têm sido os primeiros shows solo? Isto é, não exatamente sozinha, porque tens uma banda…
São os Pataniscas! É uma espécie de bolinho de bacalhau, mas é diferente. Vocês têm Pataniscas no Brasil?

Apenas em restaurantes portugueses, mas eu não lembro de já ter comido.
É espetacular! Eu faço umas pataniscas de-li-ci-o-sas, são uma das minhas especialidades! Mas pois bem: estávamos ensaiando, e pensamos que a banda tinha de ter um nome. O que pode ser? Ora, se são a banda da Ana Bacalhau, são os Pataniscas! Só fiz um concerto até agora, em Loulé [cidade do Sul de Portugal, na região do Algarve]. Foi bonito. A maior parte das pessoas que comprou bilhete para aquele show não conhecia o disco, porque os ingressos se esgotaram antes do lançamento do disco. Foi um voto enorme de confiança, fiquei emocionada – afinal, podiam não gostar nada do disco. Eu não sabia como as pessoas iam reagir, não sabia se iam sentir falta das canções do Deolinda, se iam pedir para cantar. Decidi que não vou cantar nada do Deolinda, não acho que é correto da minha parte. Mas confesso que tinha um bocadinho de receio que as pessoas não conseguissem separar as duas carreiras. Para além de todos os nervos da estreia, estava muito gripada, e não sabia como ia ficar a minha voz. Comecei super nervosa, mas no meio do concerto, fiquei mais confiante, porque vi que as pessoas estavam genuinamente a gostar do que eu cantava. No final, a salva de palmas quando saímos do palco me deu um alívio. Depois, quando saí para falar com o público, entendi que as pessoas perceberam mesmo o que é que eu estava tentando fazer. Foi bonito!

Há espaço na turnê para você vir ao Brasil?
Ai, queria tanto! Queria mesmo, sério! O Deolinda é sempre tão bem recebido quando vai ao Brasil, queria tanto mostrar esse disco ao Brasil. Vamos ver se é possível. Da minha vontade, sempre que é possível, vou ao Brasil.

Achei que você ia dizer que a Luz precisaria crescer um pouquinho para ir junto.
Não, é na boa! Ela já está aqui a ouvir a mãe falando, reconhece as músicas. Isso é tão engraçado. Quando ela era mais pequenina, eu cantava para que ela adormecesse. Agora, felizmente, já não é mais preciso, ela adormece bem. Para comer é que é um tormento. Quando ela está mais rabugenta para comer, começo a cantar canções do Deolinda ou do meu disco, e ela reconhece. Mas o que ela prefere é o aquecimento vocal! Mamamamamamama, bababababa, ela ri muito! Ouviu tanto o aquecimento na barriga que fica feliz quando ouve. Esta é a minha vida e a vida do pai, que me acompanha na banda, e acho que é importante para ela acompanhar os pais algumas vezes, conhecer o mundo através da vida dos pais. Se eu for ao Brasil, quero muito levar minha filha, para ela sentir o mundo.

Quais são os planos do Deolinda para o futuro?
Olha, neste momento, todos nós temos projetos paralelos. O Luis tem um disco a solo, de guitarra portuguesa – e aí é mesmo solo, porque é só ele tocando. O Pedro está escrevendo para outras artistas e também está envolvido com o disco da Lena D’Água [cantora pop portuguesa dos anos 1980], além de outros projetos que ele tem em desenvolvimento. O Zé tem umas ideias que quer concretizar e eu tenho o meu disco. Portanto, nós achamos que era uma altura que estávamos concentrados em coisas paralelas, e seria bom para o Deolinda parar durante um tempo. Fazer uma pausa, para nos podermos dedicar agora a outros projetos, e enriquecermos-nos de experiências. Isso, para daqui a algum tempo – um ano, dois, quando sentirmos que estamos preparados –, voltamos com toda a força, renovados, e andar para a frente com novas músicas e novas canções. Vamos alargar este universo da Deolinda, que continua, claro, obviamente.

Nos últimos anos, Portugal passou por uma forte crise econômica. Morei em Lisboa em 2013, vi o show de lançamento do “Mundo Pequenino” [o terceiro disco de estúdio do Deolinda] no Coliseu dos Recreios, e lembro que ali as coisas começavam a melhorar, mas ainda estavam muito ruins. Como está Portugal agora?
Olha… felizmente, as coisas estão melhores. (pensa um pouco). Finalmente, o poder político começou a olhar mais para o ser humano e menos para a economia, e distribuir o pouco que há para os que têm menos, para ajudar as pessoas que não tem a possibilidade de ajudar a si mesmos. Além disso, estamos tendo um enorme boom no turismo. Lisboa e Porto, sim, mas também em outras cidades do país. A vinda para cá de celebridades (para morar), como a Madonna e o Michael Fassbender ajuda. Agora Portugal está na moda e isso ajuda a economia. É uma ideia de um Portugal mais próximo da realidade. Nós, portugueses, também estamos mais confiantes das nossas capacidades, temos menos vergonhas de sermos quem somos. Ainda temos alguns constrangimentos a nível financeiro, mas o ar está mais respirável. Os líderes têm suas falhas – e houve algumas, como os incêndios e o período da seca –, mas eles estão mais aberto ao humanismo. Sei que no Brasil é um bocadinho ao contrário, infelizmente…

Pffff… Não vamos falar sobre isso! O Deolinda é uma banda que cresce na crise e se identifica com isso, especialmente por músicas como “Parva que Sou”. No momento que as coisas ficam bem em Portugal, vai ser a hora de cantar os problemas do mundo ou as coisas boas de Portugal?
Pois, teremos que cantar os problemas do mundo. O mundo está de pernas pro ar! É engraçado: Portugal sempre anda em contraciclo! Não entendo. Quando aqui está a ficar bom… Pá, os Estados Unidos estão de cabeça para baixo! O Brasil também está virado de cabeça para baixo. Valha-me Deus, é altura de cantar os problemas do mundo! Não sei o que se passa! É um desespero. Apesar de não estarem aqui tão próximos, os problemas estão próximos do coração, porque o mundo somos todos nós. Eu nunca posso estar bem se o meu semelhante não está bem. É triste ver a política se afastando do ser humano, dificultando a vida e a liberdade. Para mim, não há felicidade sem liberdade, e ver que a liberdade do ser humano, de ser feliz e ser quem é, está cada vez mais sendo cortada e limitada em tantos países me deixa angustiada. Quando o Deolinda voltar, espero que tudo esteja a caminho de ser resolvido. Se não estiver, infelizmente, o Deolinda não vai falhar em conversar um bocadinho sobre isso.

Você tem uma participação ativa nas redes sociais, tem as crônicas, o blog… como é lidar com isso? Há problemas com a exposição? Quais são os limites?
Dos artistas que conheço e admiro, todos que tem uma carreira longa foram capazes de estabelecer uma relação emocional com seu público, que permitem às pessoas se reconhecerem neles, como um amigo. Há ali um diálogo que se consegue com música, mas que também se conhece do trato, de ir falar com o público ao final dos concertos, e agora esta realidade das redes sociais. No entanto, como todos, temos direito nas nossas profissões a um lado público e um lado íntimo – e este não pode ser totalmente exposto. Esta intimidade só pode ser exposta pela música, quando cantamos a nós próprios. Minha relação com a exposição pública se estabelece na diferença entre o erotismo e a pornografia. Tem de haver qualquer coisa que se vê, mas muito que se adivinha, e não se pode mostrar tudo. Senão, não há mistério. Na nossa relação com o outro, para manter o interesse, tem de existir também algum mistério, uma parte do outro que não conseguimos alcançar. Esse é o meu limite, de fato. Há uma parte pequenina que é só mesmo minha, não mostro a mais ninguém.

Que artistas portugueses os brasileiros devem ouvir hoje – e já começo dizendo que não vale falar do Salvador Sobral, porque este até na trilha de novela já está!
Eu sei! (Risos). Felizmente, acho que o intercâmbio Portugal-Brasil está em uma dinâmica interessante. Agora há pouco tempo a Capicua esteve aí, é uma artista interessante de se conhecer. Há a Isaura, uma artista de voz linda, com um trabalho dentro do pop e da eletrônica bem interessante. O Samuel Úria… por favor, conheçam o Samuel, que o trabalho dele é incrível. Muitos destes artistas, eu tenho a felicidade de cantar no meu disco. Os Dead Combo, a Márcia, deixa ver, os Virgem Suta, o Valete, os PAUS, Linda Martini, Marta Ren. Depois, vão vendo. Com estas coisas de Spotify agora, se há algo de bom são os “artistas relacionados”. Se procurarem e gostarem destes artistas, depois vejam os artistas relacionados. É uma rede muito interessante que se está a criar em Portugal, em diversos campos, não só na matriz portuguesa, mas em outras com identidade própria.

Vou para a pergunta mais difícil: Ana, você vai para uma ilha deserta e só pode levar cinco discos na bagagem…
Olha, levava um da Elis. Vocês dizem Elís, marcando o i. Aqui a gente diz “Élis”. Um disco da Janis Joplin, qualquer um deles. Levaria um disco do Miles Davis, provavelmente o “Kind of Blue”. Aí, é difícil! Callas, uma ópera qualquer de Callas. E levaria Nick Drake. Nos momentos mais calminhos, que eu preciso de consolo, é o Nick Drake.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e trabalha no caderno Link, de O Estado de São Paulo

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