Cinema: “Blade Runner 2049”, de Denis Villeneuve

Texto por André Forastieri

Como o primeiro “Blade Runner”, que se passava em 2019, o novo filme não se passa no futuro. Não propõe previsões. Não é para isso que se faz ficção científica. A ficção científica sempre se passa em mundos imaginários, inventados, alternativos. E a melhor FC é sempre sobre o presente, e extrapola a partir das escolhas possíveis no presente.

2049 dá umas piscadelas para nossos dramas atuais. Estão lá a extinção em massa de espécies. A mudança climática gerando clima extremo e subida do nível do mar. O aumento vertiginoso da desigualdade. O racismo, o preconceito, a precarização dos direitos dos trabalhadores, a expansão da vigilância policial por parte do Estado. A crescente influência da China e o aumento do poder das empresas transnacionais.

Mas isso não são previsões sobre o futuro. São ramificações possíveis de decisões que estamos tomando agora. Tem um único elemento em “Blade Runner 2049” que é inevitável no nosso futuro.

É Joi, a holograma linda, sexy, companheira de K, o protagonista. Vivida pela atriz cubana Ana de Armas, Joi é a única personagem no filme que exala calor humano, justamente porque é um software. Porque foi programada para isso. Ela entende K, e faz tudo para agradá-lo. Tem o nome perfeito – é a alegria personificada.

Joi já está entre nós, em potência. É o resultado previsível, e próximo, das seguintes tecnologias que já temos hoje, em 2017:

– Realidade Aumentada (como em Pokémon Go)

– Inteligência Artificial (como o Watson, da IBM)

– Assistentes para casa (como Amazon Echo e Google Home)

– Comando de Voz (como Siri)

– Processamento e armazenamento na Nuvem

– Pornografia personalizável via webcam

É evidente que serviços como Joi vão estar disponíveis em breve. Um escravo sexual 3D, infinitamente programável e maleável, é o sonho que muita gente nem sabe que tem. Se tiver ainda um ouvido pra nos ouvir e um ombro pra chorar, melhor ainda.

Mas a mesma tecnologia terá muitos outros usos. Poderemos aprender física com Einstein e futebol com Pelé. As crianças poderão brincar com hobbits ou o Super Mario. Só o mercado de pets virtuais já será trilionário. Em vez de um cachorro, que tal ter um tigrinho albino ou um unicórnio?

Conforme o filme avança, Joi deixa de estar sempre presa ao apartamento de K. Ele compra um pacote premium, e com isso ela pode ser transportada em um console portátil. Está “solta”, na rua, e todos podem vê-la e interagir com ela. Depois, melhor não contar o que acontece.

Mas o filme, lembre-se, não se passa no futuro. Por isso, no filme não há uma rede 10G em todo lugar, nem um mega wi-fi. No nosso mundo, haverá. Não precisaremos desses consoles portáteis.

Nossas Jois, nossos assistentes / amigos / amantes / pets virtuais, estarão por aí conosco, transmitidos via rede celular, dividindo a vida com a gente. E, porque não, nos melhorando. Bom lembrar que teremos também robôs (hardware + software) fazendo a maior parte do trabalho que temos hoje, braçal e intelectual.

A bela Joi, a sedutora software de “Blade Runner 2049”, em breve estará entre nós. E pouco depois talvez não possamos mais chamá-los de softwares, mas de seres. Esse mundo está aí. Não é “ficção-científica”.

É Não-Ficção, é realidade. E científica, porque resultado racional do que já temos hoje. A questão é como lidaremos com essas novidades, como seres racionais e irracionais que somos, como espécie tribal que somos, como sociedade global que somos.

O risco mais explícito é você passar a viver em um mundinho virtual que se ajusta completamente aos seus desejos. Em que todas as opiniões batem com a sua, em que tudo se ajusta a você, tudo está ao seu redor para servi-lo, e todas as suas conexões pensam e agem como você.

O que faz do Outro, de quem é diferente de você, um ser inferior, um pseudo ser humano, um replicante. Seja software, seja gente.

É a receita para o triunfo do individualismo, da xenofobia e do preconceito. É o que começa a acontecer com gente que passa o tempo todo nas redes sociais, que nos massageiam o tempo todo o ego para vender mais publicidade.

Com isso alimentam o espírito de horda. E ajudam a criar, e a dar voz, para gente agressiva e intolerante. Que não aceita questionamentos, odeia o diálogo, despreza o diferente.

Indo um pouco mais longe, há outro risco de termos uma infinidade de serviçais à nossa disposição, virtuais e robóticos. Senhores de escravos podem escorregar para o sadismo e a crueldade com muita facilidade.

O pior cenário para a raça humana é todos nos tornarmos insensíveis ao sofrimento dos outros. Como já é boa parte (a maior parte?) da elite governante do planeta, que mantém bilhões oprimidos para enriquecer cada vez mais. Insensibilidade que era a natureza, e a desgraça, dos primeiros replicantes. E é a natureza de Niander Wallace, o vilão de “Blade Runner 2049”, não por acaso um bilionário da tecnologia.

O ser humano é individualista e coletivista, compete e coopera. Esta dualidade está nos nossos genes. O grande desafio de toda inovação tecnológica é usar ela “para o bem”. Para isso, primeiro elas devem ser compreendidas em seu impacto social. E aí impulsionadas por nós na direção do maior ganho individual e coletivo.

Para aumentar nossa liberdade, sem transgredir a liberdade alheia. Para transferir esses ganhos produtivos fantásticos de maneira justa, para todas as pessoas. E não só para os investidores de Wall Street e do Silicon Valley, ou para os cofres dos governos e seus apaniguados.

O objetivo da inovação é a felicidade. O futuro não está escrito. A ficção científica frequentemente serve para iluminar o caminho que estamos por trilhar, e mostrar que há jornadas melhores para trilhar.

“Blade Runner 2049” faz isso de maneira gélida, solene, ambígua e arrastada. O que faz sentido, para um filme cujo principal tema é nossa humanidade, ou falta de, e nossa empatia, ou ausência dela.

É um filme imperfeito e imperdível. E nos deixa a inesquecível Joi, que em breve fará parte da nossa vida, e que nos convida a repensar o futuro, e a transformar inovação em felicidade real, em verdadeira alegria…

– André Forastieri (twitter.com/forastieri) foi editor da revista Bizz, colunista da Folha de São Paulo, editor executivo e diretor de novos negócios do R7. Em outubro de 2017 fundou a New Top Secret Startup. Você pode ler outros textos dele no Linkedin e em seu blog no R7.

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