Entrevista: Maglore (2017)

entrevista por Bruno Lisboa

Com oito anos de estrada, a Maglore é um dos melhores exemplos nacionais de que a cena independente vai muito bem, obrigado! Neste tempo, a banda conquistou um público devoto, se apresentou em grande parte dos festivais nacionais (Lollapalooza, Transborda, DoSol) e tem em sua discografia quatro discos elogiados. O mais recente, “Todas as Bandeiras” (2017), traz a tona a sonoridade peculiar da banda (unindo de forma equilibrada MPB, rock e pop) alinhada a um discurso político/social nas letras.

“A gente não aborda a política como política partidária. Não faz parte da gente ser panfletário. Achamos que o buraco é mais embaixo”, explica Teago Oliveira, principal compositor e letrista da Maglore em conversa por e-mail. Com pré-produção em um sítio no Pico do Jaraguá, em São Paulo, gravação no Rio com produção de Rafael Ramos e Leonardo Marques mais masterização (por Felipe Tichauer) nos EUA, “Todas as Bandeiras” “foi um disco escrito à flor da pele, em tempos onde o mundo anda a flor da pele”, afirma Teago.

No ótimo bate papo abaixo, Teago ainda fala da conexão estabelecida com a cidade de Belo Horizonte (“BH virou uma cidade de amigos pro resto da vida”), a importância de Léo Marques para a banda (“Leozeira foi o cara que mudou o som da Maglore”), planos e objetivos futuros (“O negócio da gente é tocar, a gente gosta. Não existe pretensão financeira gananciosa ou fama global”), a mudança de formação do grupo, carreira solo, a admiração por Tim Bernardes e o seu recém lançado “Recomeçar”. Confira.

“Todas as Bandeiras” tem em suas letras um forte apego a temas políticos sociais? Qual a importância de se posicionar ante a tempos tão sombrios que vivemos?
A gente não aborda a política como política partidária. Não faz parte da gente ser panfletário. Achamos que o buraco é mais embaixo. É social, é civilizatório, passa por transformações, inicialmente, individuais. A gente tá cercado de vozes que precisam ser ouvidas e nada melhor do que elas mesmas pra se levantar. Não falamos por ninguém. O disco também é sobre mudança e sobre amor. E sobre o mundo em que se vive hoje, contextualizando isso tudo.

Poucos são os artistas que abordam o cenário atual em suas composições. A omissão artística incomoda? Em tempos como estes que vivemos torna-se ainda mais necessário adotar um discurso que oriente uma reflexão?
Veja bem, até onde esse discurso precisa existir de forma lírica ou poética? Arte é um multiverso. Às vezes algo totalmente abstrato nos gera uma reflexão muito mais profunda do que uma poesia concreta de protesto. Eu acho que nenhum artista é obrigado a falar sobre seu tempo, pra mim isso não o torna um alienado. A obra é livre. Ela pode ser tão inspiradora e revolucionária falando sobre uma gravata, e não sobre o político. Eu faço meu trabalho de acordo com o que sinto no momento. Esse disco da Maglore é menos direto que o “lll”, mas, na minha opinião, ele diz mais, comunica e reflete mais o nosso tempo. Eu precisava falar uma porção de coisa ali, mas ao mesmo tempo se eu quisesse me expressar só com tambores ecoando e onomatopeias, estava valendo também. Olha que fenomenal é o “Jóia”, de Caetano. A gente é livre =D (ainda quero acreditar nisso, apesar dos dias de hoje).

Para mim, coesão é a palavra que melhor define “Todas as Bandeiras”. Como foi o processo de criação e gravação do disco?
Esse foi um disco escrito à flor da pele, em tempos onde o mundo anda a flor da pele. Estávamos todos muito sensitivos, vibrando na mesma vibe. Tudo tinha que fazer um sentido absurdo pra todos, de forma unânime. Acho que isso contribuiu pro disco soar tão verdadeiro. Estávamos todos imersos naquela viagem. Ficamos uns 15 dias no sítio pirando nos esqueletos das músicas (eu tinha muita ideia de harmonia e melodia e letras rascunhadas e soltas, então muita coisa já estava de certa forma iniciada). Foi frenético, depois fizemos os ensaios e chegamos ao Rio prontos pra gravar. Leozeira foi essencial pra todo o processo, tanto do sítio (ele pré-produziu o disco conosco) quanto na gravação em si. Foi uma jornada e tanto, e foi bem divertido entupir tudo de chorus – (o guitarrista) Lelão (Brandão) está viciado naquele chorus do Connan Mockasin, acabou enchendo o disco todo com aquilo e eu achei ótimo. A gravação ocorreu em 10 dias. Matamos 12 músicas, mas só lançamos 10. Futuramente vamos ver o que fazemos com as duas que não entraram.

A Maglore por onde passa, pelo o que vejo no Insta de vocês, tem um público cativo. Sou de Belo Horizonte (cidade que, aliás, já foi homenageada em canção por vocês) e percebo nas apresentações que vi como a devoção é presente. Como vocês procuram e constroem esta relação de fidelidade?
Naturalmente. Aconteceu de Belo Horizonte ser um lugar acolhedor para a Maglore desde sempre. Caímos na amizade de pessoas muito queridas, desde o início. Enfim, BH virou uma cidade de amigos pro resto da vida. A gente adora andar pela cidade também, então ela acabou virando tema. As idas de São Paulo pra BH na estrada também eram bem legais, íamos de carro, nos divertindo bastante, Minas é um estado lindo. Então a gente não procurou nada, aconteceu de forma natural, mesmo.

São daqui dois dos convidados do novo disco, Léo Marques (que produz o disco) e Luiz Gabriel Lopes (Graveola) que colabora em “Aquela Força”. Como se deu a parceria com ambos?
Leozeira foi o cara que mudou o som da Maglore. Nos conhecemos em 2010 e ele nos apresentou o Dr. Dog, e isso adiantou 10 anos de pesquisa pra gente. Ficamos muito próximos e com uma ótima conexão. Desde o “Vamos Pra Rua” (2013) que Léo está presente influenciando o som da Maglore. No “lll” (2015) e em “Todas as Bandeiras” (2017) ele foi um elemento muito importante dentro do estúdio, produzindo ou tocando. É como se ele fosse da banda, mas não cumpre a agenda completa, só faz alguns shows por conta do seu trabalho intenso lá no Ilha do Corvo, o estúdio dele em Belo Horizonte. Ele tem gravado quase que a cena inteira de BH e está cada vez melhor. Virou um produtorzão, mesmo. Luiz Gabriel foi coisa da vida, e da estrada, o conheci num show dele em Salvador depois de muito enrolarmos esse encontro mágico & quicá promissor (como ele escreve). Luiz chegou aqui em casa um dia dizendo, “bicho, eu tô com isso aqui há dois anos e não consigo resolver”. Era o refrão de “Aquela Força”. Eu falei “uou, isso aqui é lindo, que presente, é nosso né?” e resolvi. A banda achou que esse tinha que ser o primeiro single do disco e ele foi. Foi pá, pum. Conexão mágica e promissora beloryhills soterópolis. Amo LG.

Inclusive “Aquela força” é uma das minhas prediletas do disco! A mesma fala sobre um tema atual e pertinente para os tempos atuais: a autoafirmação. Seria ela a principal virtude que o artista deva ter em mente? Em algum momento vocês já pensaram que não seria possível seguir em frente?
Eu não consigo ter uma ideia absoluta, mas acho que a vontade de se conhecer melhor leva a gente a melhorar tudo a nossa volta, essa força motriz que tem nos bichos e na gente, pois também somos bicho, é o que a música traz, pode parecer misticismo demais, mas pra mim tem conexão. O tempo todo a gente pensa que pode não ser possível seguir em frente. Eu nunca pensei que trabalhar com música seria algo tão desgastante, pelo menos pra mim. É viver sabendo que não se pode ter certeza de nada, o tempo todo, e tudo muda rápido e você escolhe acompanhar ou não. Mil variáveis. V1D4L0K4 mesmo.

A banda é um dos maiores exemplos do cenário nacional de que é possível se estabelecer com artista independente. Prova disso é o fato de que vocês já se apresentaram por todo o Brasil, tocaram em festivais importantes e lançaram discos elogiados. Há algo que vocês ainda não realizaram e pretendem alcançar?
Não existe nada muito específico. Gostaríamos de tocar mais em festivais, gostaríamos de tocar mais fora do país. Gostaríamos de tocar mais e de tocar em lugares novos, cidades novas, países novos. Tocar no Rock in Rio deve ser massa, mas fechar o mapa do brasil em todas as capitais e abrir espaço na Argentina – Urugua – Chile e até México e EUA seria lindo né. Portugal também. Eu particularmente queria fazer aquele programa de Seattle, o “KEXP”. Acho sensacional. O negócio da gente é tocar, a gente gosta. Não existe pretensão financeira gananciosa ou fama global. Ser músico já basta, viver disso já é uma vitória nos dias de hoje.

Qual o “segredo” para esta longevidade nestes quase 10 anos de carreira? O que dizer para aqueles que são debutantes nesta seara?
Na real, se você analisar, nós temos oito anos de banda e quando a gente fala isso pra outros artistas eles dizem que a gente é super novo. Eu acho que produzimos uma quantidade legal de discos nesses anos, estamos sempre em atividade e talvez seja hora de pisar um pouco no freio também, pra não lançar qualquer coisa só por lançar, não gostamos dessa ideia. De lançar pra ficar em evidência. Não funciona assim pra gente. Eu acho que não existe segredo, cada caso é um caso, não existe fórmula pronta, não existe nada além da sua vontade e capacidade de realizar coisas. Sou péssimo em conselhos desse tipo, preciso rever aquele documentário do Ayrton Senna.

Recentemente a banda passou por uma reformulação na formação devido a saída de um integrante (Rodrigo Damati). Como o processo de readaptação aos novos integrantes. Isto de alguma forma alterou o seu fazer musical?
A gente continua em casa, pois a banda ficou mais próxima do seu status original, principalmente com o retorno de Lelão. Rodrigo foi muito importante pra fase da banda como trio e, claro, toda mudança na banda gera mudança no som, porque a gente trabalha muito com a personalidade do outro pra construir as canções. Acho que o quarteto é o formato original da Maglore e isso acaba trazendo de volta elementos que tiveram que sair pra gente se construir como trio, ali em 2014. Meu processo de fazer música é alterado em como eu vou vivendo, e rola também uma adaptação ao formato da banda, em quarteto, penso diferente em como usar a guitarra. Mas o processo de composição é um longo aprendizado interno, também. De ir evoluindo e se descobrindo, tentando e experimentando. É massa.

De fato a banda trabalhou de maneira árdua nestes oito anos, lançando um disco a cada dois anos seguidos de turnês. Você sinalizou a vontade de desacelerar as atividades da Maglore. Algum projeto em vista?
Na verdade a Maglore está indo mais rápido agora do que antes. A gente só desacelera se não tiver substrato artístico suficiente pra gente mesmo. Enquanto tiver sintonia e estrutura, vamos fazendo. Vamos seguindo nessa vibração. Isso gera cansaço mental, então é preciso refletir até onde todas essas coisas são saudáveis. Na real o que acontece é que depois de um disco eu saio esgotadaço emocionalmente pelo envolvimento e etc, e esgotado mentalmente de tanto pensar e trabalhar. Some isso ao fato de eu ser dramático e aí você alimenta o gremlin aqui. Estou há quatro anos tentando fazer um disco solo, mas não tem estrutura nenhuma. Preciso de uma certa estrutura pra realizar esse disco, porque é como começar tudo de novo e a essa altura não tenho como bancar. Preciso de apoio, mas também não gosto de ficar chorando, não, vou arrumar um jeito de ir fazendo sozinho ou com quem tope a empreitada. Mas também, passei 2014 até esse ano bolando como seria, quais caminhos estéticos ia seguir, os reverbs, o violão, o piano, as cordas e, esse ano, comecei a rascunhar e conversar com músicos sobre esse disco e aí esse tal de Tim Bernardes fez um disco lindo com a mesma ambiência que planejei por anos. O que eu vou fazer agora? Replanejar, né? Não dá. Um moleque safado vem e mata a pau tudo que você idealiza por anos. A gente deve ter muita referência parecida (risos). Ele me disse pra eu fazer o meu mesmo assim que vai dar bom. Fácil falar isso quando você faz primeiro, né, Tim? (Acho ele incrível e amo forever o Mauricio (Pereira). What a família de monstro!).

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão. Escreve para o Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Duane Carvalho / Divulgação

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