Entrevista: Patrick Grosner (“Geração Baré-Cola”)

Texto por Marcelo Costa

Após o sucesso de Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude na metade dos anos 80, o rock na capital federal ganhou atenção nacional, e ainda que a segunda geração (Detrito Federal, Finis Africae e Arte no Escuro, que lançaram discos por majors no final dos anos 80) não tenha repetido o sucesso do primeiro trio, a semente das guitarras barulhentas estava plantada em Brasília, e nos anos 90 viu brotar algumas dezenas de bandas, que são o foco de “Geração Baré-Cola”, importante documentário de Patrick Grosner lançado em 2014 que agora ganha lançamento em DVD e Blu-Ray repleto de extras.

“Eu nunca imaginei que um dia faria um filme sobre o que presenciei e documentei em fotos nos anos 90 em Brasília”, conta Patrick em entrevista por e-mail ao Scream & Yell. “Brasília tinha 450 bandas de todos os estilos possíveis misturados”, enumera, e muitas delas surgem em “Geração Baré-Cola”, que é resultado do depoimento de 39 entrevistados que viveram intensamente o período (entre eles Digão, Canisso, Fred e Rodolfo, dos Raimundos; Gabriel Thomaz, do Little Quail e dos Autoramas; Joana Lewis e Carlos Pinduca, da Maskavo Roots, e muito mais gente) e um material raro coletado de 30 fitas VHS da época.

Entre os extras dessa edição em DVD e Blu-Ray há galeria de fotos das bandas, 12 videoclipes na íntegra, cenas adicionais com causos que não entraram no doc e legendas em português, inglês, espanhol e francês. “Pode parecer um capricho, mas sempre foi uma exigência nossa (as legendas), para justamente podermos ampliar os horizontes do filme e conseguir exibir em várias partes do mundo como nossa cultura é rica e diversa”, observa Patrick, que avisa: “Temos um projeto para transformar o filme em uma série televisiva, falando de todo o Brasil e não apenas de Brasília”. Ou seja, pode ter coisa boa vindo por ai! Confira o papo.

Patrick, como foi a epopeia do surgimento da ideia de um documentário sobre essa cena particular de Brasília até o lançamento deste DVD?
O projeto começou em fevereiro de 2011 em uma sala de aula de Documentário na Faculdade de Cinema da Universidade IESB em Brasília. A captação e pesquisa de arquivo foi toda feita neste ano. Com o desenrolar e o desenvolvimento do projeto muita gente boa foi se juntando ao sonho, já que é impossível fazer cinema sozinho. A ajuda de amigos e profissionais foi muito importante para termos um projeto de qualidade. Em 2012 conseguimos com o FAC um fundo para a Finalização do filme. O dinheiro foi liberado em 2013 e concluímos a finalização em 2014, quando participamos de importantes Festivais como o In-Edit e o Mimo. No final de 2014 tivemos uma pré-estreia com uma sessão de muito sucesso no Cine Brasília e achamos que conseguiríamos facilmente uma proposta de distribuição. Como esta proposta não veio tivemos que esperar o edital de 2016 do FAC para então pleitearmos um fundo para Lançamento e Distribuição do filme. Esta verba foi liberada no início de 2017 e aqui chegamos para o público com DVD, BluRay e exibições em salas de cinema de Brasília e algumas capitais do Brasil.

Para esta versão final, a “Directors Cut”, o que rolou de mudança da versão que circulou em festivais, inclusive no In-Edit Brasil?
Nenhuma mudança, o corte é exatamente o mesmo. O que melhorou foi o acabamento na colorização das imagens e tratamento dos VHS feitos pela Cinecolor que é nossa copatrocinadora.

O DVD chega com legendas em português, inglês, espanhol e francês, o que é muito legal, porque amplia não só o mercado do filme, mas a possibilidade real de pessoal em vários cantos do mundo terem acesso a um material importante sobre uma cena particular brasileira. “Geração Baré-Cola” chegou a rodar festivais gringos? Nesse tempo, você já teve algum feedback de pessoas de outros países falando do doc?
Ainda não rodamos fora do Brasil. Agora temos a Sétima Cinema como nossa distribuidora e temos muitos planos para exibirmos fora. A finalização do DVD com as legendas pode parecer um capricho, mas sempre foi uma exigência nossa, para justamente podermos ampliar os horizontes do filme e conseguir exibir em várias partes do mundo como nossa cultura é rica e diversa. Todos os estrangeiros que já assistiram ao filme comigo ficam maravilhados com a história.

Nessa época do documentário, você fotografava todas aquelas bandas. Como foi para você viver essa época, estar ali, presenciando uma cena intensa com trocentas bandas legais?
Eu nunca imaginei que um dia faria um filme sobre o que presenciei e documentei em fotos nos anos 90 em Brasília. O que eu sempre tive a certeza é que algo de especial, marcante e diferente acontecia. Isso me instigava e me provocava. Brasília tinha 450 bandas de todos os estilos possíveis misturados. O Raimundos ganhou merecidamente muita fama e mercado mas tantas outras propostas tão boas quanto a deles ficou de fora do mercado grande brasileiro. O filme resgata justamente estas bandas que poderiam ter ficado no esquecimento.

Esse lançamento em DVD também é bacana porque traz uma série de extras, certo? O que tem a mais nestes extras do DVD?
Nos extras do DVD temos: uma galeria de fotos, que foram usadas no filme mas que podem ser apreciadas com calma; uma tira extra de causos muito engraçados que não entraram na narrativa do filme por uma questão de espaço e encaixe na montagem; e a possibilidade de assistir 12 demo clipes por inteiro, pois no filme infelizmente tivemos que cortar pedaços dos clipes para termos uma montagem mais fluida.

Aliás, quem você queria muito entrevistar para o documentário, e ficou de fora? E, num viés contrário, qual seu momento favorito do doc?
Tem muita gente bacana que ficou de fora do filme, eu sei disso. Para quem viveu aquela época sempre haverá outras tantas pessoas que deveriam ter sido entrevistadas. Mas para o espectador tanto faz, o que interessa é uma boa história. Fazer um filme é assim mesmo, tem que rolar escolhas, tem que rolar cortes. Se temos 34 entrevistas com 39 entrevistados como poderíamos ter 400? É impossível para uma narrativa de 73 minutos. E tenho certeza que os 400 entrevistados seriam engraçados e contariam algo legal para o filme. Este projeto foi totalmente rodado com recursos próprios, os entrevistados foram aparecendo de acordo com as oportunidades. Muita gente bacana da época já não mora mais em Brasília. Não tive grana para viajar ou pagar viagem para ninguém, tive que contar com a sorte, e ela ajudou!

“Geração Baré-Cola” inicia agora, com o lançamento em DVD, o encerrando de um ciclo. Algum novo projeto pela frente?
Ainda não encerramos todas as possibilidades do filme. Temos os cinemas para batalhar, os DVDs para vender, alguma forma de Streaming para explorar, as TVs para exibirmos e isso tudo ainda vai levar algum tempo. Temos um projeto para transformar o filme em uma série televisiva, falando de todo o Brasil e não apenas de Brasília. Mas me prometi que nunca mais começarei um projeto sem antes conseguir captar recursos, portanto o próximo passo é conseguir dinheiro para então fazer esta sonhada série.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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