Entrevista: Alf Sá

por Marcelo Costa

Agitador da cena musical de Brasília nos anos 90, quando comprou um gravador de quatro canais portátil e, em seu quarto, registrou as primeiras demos de muitas bandas da cena local, Luiz Eduardo Sá foi integrante de algumas das principais bandas de rock da capital federal da geração 1990/2000 tocando no Rumbora, Câmbio Negro, Raimundos e Supergalo. Após voltar para a cidade em 2009, Alf se viu sozinho e decidiu investir numa busca solitária que lhe rendeu o primeiro álbum solo, o recém-lançado “Você Já Está Aqui”, cujo “o foco musical principal do disco é o groove, a percussividade”, avisa.

Porém, apesar de solo, Alf Sá não está sozinho. Ele toca todas as guitarras do disco e o baixo em 12 das 13 faixas, mas vários amigos marcam presença no álbum, de Black Alien (“É um artesão das rimas, sou grande fã dele há muito tempo”) a Fred “Raimundos” Castro (“O Fred é irmão, a primeira banda que toquei com ele foi quando tínhamos uns 16 anos”), de Deb Babilônia, vocalista do Deb & The Mentals (“É outra preciosidade brasiliense”) ao saudoso Pedro Souto, jovem baixista que faleceu em maio deste ano vítima de um aneurisma.

“Você Já Está Aqui” ainda destaca um trabalho gráfico primoroso, da capa belíssima ao encarte que traz uma imagem exclusiva para cada música e que funciona como um livro para colorir. “Por isso todas as imagens são em preto e branco e em um papel diferente da capa”, conta Alf em entrevista ao Scream & Yell, alertando àqueles que tiverem receio de desenhar o encarte: “As imagens estão no www.alfsamusic.com para quem quiser baixar em A4 e se aventurar sem o risco de se arrepender (risos)”. Ouça “Você Já Está Aqui” abaixo (“Quis um disco sexy, misterioso e quente”, explica) e confira o bate papo.

Como é estar solo após trabalhar com tantas bandas? Como foi a experiência de criar “Você Já Está Aqui” sendo sua estreia como solista?
É continuar a trilha na forma que ele me foi apresentada, não foi uma decisão planejada. No final de 2009 voltei a morar em Brasília e me vi longe dos meus parceiros de bandas. Quando percebi que meus amigos músicos de lá ou já tinham banda fixa ou tinham partido pra outra resolvi botar em prática algo que sempre ensaiei, mas nunca fui até o fim, pois sempre dei preferência à ter banda com os amigos, um projeto onde criasse, produzisse e tocasse tudo. Controle criativo total. Foi uma busca solitária, mas ao mesmo tempo libertadora, pois a decisão era unicamente minha. Nesse contexto, foi uma volta aos tempos de quando comprei o meu primeiro gravador de quatro canais no começo da adolescência e fazia meus experimentos. As primeiras investidas foram de muito experimentalismo e busca. Com o que se tem hoje à disposição tudo é possível, então tinham músicas que tinham absolutamente tudo mesmo, rsrs, metais, cordas, percussões… O HD era o limite, rsrs. Daí as coisas foram decantando e os caminhos se conectando. Em 2013 lancei três singles (que vieram de bônus no álbum) de uma fase intermediária do processo e que geraram os primeiros shows, clipes e a formação da banda ao vivo. Fiz tudo no meu quarto. Produzi, cantei, toquei todos os instrumentos. Meu amigo Frango Kaos (Galinha Preta) me ajudou a mixar e mandei masterizar com o Tim Young (Massive Attack, Madonna, Bjork, Nick Cave) em Londres. Em 2014 comecei um processo de volta pra SP e em 2015, já estabelecido, finalizei o repertório já em uma 3ª fase desse processo criativo.

Você toca baixo e guitarra em quase todas as faixas, certo? Como você lida com esses instrumentos? O que você buscou valorizar de características em cada um deles? Qual o som que você quis imprimir a “Você Já Está Aqui”?
Sim, toco as guitarras em todas e o baixo em 12 das 13 faixas, mas não só isso, a fomeagem foi geral, rsrs. Segui a linha dos primeiros singles. Compus, arranjei e gravei tudo em casa primeiro. Quando o Biu (Rumbora) se juntou para produzir comigo e surgiu a possibilidade do crowdfunding, decidi regravar tudo e chamar os amigos pra participar. Mas já estava tudo lá. Levadas de bateria, percussão, grooves de baixo, riffs e harmonias de guitarra, teclados, vozes, tudo. Arranjos completos. Sempre tive esse interesse geral pela música. Quando comecei a ter banda ali pelos 11, 12 anos, fiquei em dúvida qual instrumento tocaria porque queria todos, rsrs. Primeiro, fiz um test-drive com a bateria de um amigo, mas por morar em apartamento ficou meio complicado e aí comprei o baixo com uma grana que havia ganhado dançando break. Maravilhas dos anos 80. Um pré-adolescente b-boy pós-punk, hahahaha. O baixo já estava na mira desde pequeno por ser enlouquecido por black music e por ser muito fã do John Taylor (baixista do Duran Duran) e de todas as bandas que vinham naquele contexto pós-punk que tinha o baixo muito presente. Estava ouvindo ontem o 1º da Legião, por exemplo. Como bom candango foi o primeiro álbum que aprendi a tocar todas as músicas. O baixo comanda o disco inteiro. O Negrete construiu altas linhas. Por muito tempo foi meu instrumento principal e com a feitura desse disco solo voltou pra linha de frente. Pra intenção e os arranjos de cada instrumento terem o que mereciam mergulhei no pensamento dos instrumentistas. Pensei quais eram meus bateristas preferidos, por exemplo. As levadas que mais me marcaram e serviam pro que estava procurando. Que tipo de equipamento e como usavam pra chegarem nos “efeitos” que me pegaram. Mesma coisa com os teclados e todos os outros instrumentos, inclusive as programações eletrônicas. Um dos primeiros discos que viciei quando tinha uns 6 anos foi “The Man Machine”, do Kraftwerk, e isso ficou de certa forma impregnado no meu sub-consciente e ainda é uma grande influência. Claro que nunca é tão calculado, muita coisa vem instintivamente e também sempre acontecem os “acidentes felizes” onde algo imprevisto e único acontece, além disso, sempre quem mandou foi a canção. Dito isso, o foco musical principal do disco é o groove. A percussividade. Mesmo os riffs de guitarra. Vários vieram primeiro de uma célula rítmica que depois transformei em riff e aí se somaram dedilhados pós-punk, funks à la Nile Rodgers, violão de afro-samba, Cartola, Gonzagão, Tim Maia, Tom Jobim… No disco tentei resumir elementos que me fizeram querer fazer música, o que me encantou em cada instrumento lá no começo. Tive que fazer uma regressão pra isso. Voltar ali pelos meus 10, 12 anos de idade onde se confundia isso tudo: funk, disco, pós-punk, new wave, technopop, Led Zeppelin, Kraftwerk, as bandas de Brasília, a música brasileira que ouvia através dos meus pais e fundir todas essas influências e sonoridades com o que aprendi ao longo desses anos. Quis um disco sexy, misterioso e quente.

Nesses tempos de streaming, MP3 e música compartilhada pela web, muito pouca gente valoriza o encarte de um disco como deveria. No caso do “Você Já Está Aqui”, o encarte é incrível porque você incluiu uma ilustração para cada canção! Como surgiu essa ideia e como foi trabalhar isso?
Sou fã de música que remeta a sensação visual. Que conte uma história. O “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais, é um exemplo incrível disso. Renato Russo era mestre também. O 1º dos Raimundos. Leonard Cohen… Por isso, todas as letras do disco são histórias. Pra reforçar isso, desde o início disso tudo lá em 2010, 2011, tive essa ideia de que cada música deveria ter sua própria imagem o que gerou praticamente uma capa de disco para cada uma delas. Contei a ideia pra minha namorada, Luciana Tolentino, que é artista visual e ela abraçou na hora fazendo um trabalho primoroso. Além disso, eu queria que o álbum (não só o cd, pois ainda quero lançá-lo em vinil) tivesse algo que fizesse sentido ter a versão “física” nos dias de hoje e que as pessoas pudessem interagir. Daí ela deu a ideia de fazê-lo como um livro para colorir. Por isso todas as imagens são em preto e branco e em um papel diferente da capa. Foi um processo longo e trabalhoso, assim como a gravação, ficamos meses pesquisando referências, ela desenhando, eu montando, editando e nós dois dirigindo um ilustrador que contratei para traduzir pro digital tudo o que queríamos. As imagens estão no www.alfsamusic.com para quem quiser baixar em A4 e se aventurar sem o risco de se arrepender, rsrs.

O disco tem várias participações bacanas numa mistura interessante de nomes já com bastante estrada (Black Alien, Fred Raimundos, PJ, do Jota Quest, o Malásia, da Ultramen) e gente nova de talento como a Deb Babilônia (Deb & The Mentals) e o saudoso Pedro Souto (Almirante Shiva). Como foi trabalhar com essa galera?
Foi massa demais. Tudo muito natural e divertido. Todos grandes amigos que admiro muito. O Gustavo (Black Alien) é um artesão das rimas, sou grande fã dele há muito tempo. Já tinha feito parcerias com sua alma gêmea na rima, nosso saudoso Speed, mas ainda não tínhamos feito nada juntos. Já tava mais que na hora e, como sempre, ele chegou lá e apavorou. Ele tá num fase foda. Muito inspirado e inspirador. Fizemos um show juntos outro dia e foi monstro. O Fred é irmão, a primeira banda que toquei com ele foi o “Roque & Os Biles”, contemporâneo do Little Quail, quando tínhamos uns 16 anos. Depois nos Raimundos e no Supergalo. Quando comecei o crowdfunding pedi pra ele fazer um vídeo pra ajudar a divulgar e no mesmo vídeo ele me intimou a participar. Não precisou pedir duas vezes, hehehe. Na época da gravação ele estava em turnê com os Autoramas e criou uma escala no voo pra participar. Chegou ao estúdio em São Paulo vindo de Porto Alegre, descemos umas geladas, ele desceu a marreta na mesma faixa que o Black Alien participou, “Através do Espelho”, tomamos mais algumas, demos muita risada e ele seguiu pro Rio. Foi rápido, mas como sempre muito divertido, o Fred além de ter uma pegada única na bateria tem um puta astral. Uma pessoa muito legal de ter perto. O PJ é outro amigo das antigas que me intimou, rsrs, dessa vez pelo whatsapp: “E aí, quer que eu participe?” Claro, né? O cara é um monstro do groove. A gente se conheceu no comecinho dos 90. Antes de cairmos nessa vida loca de músico brasileiro. Ele já morava em BH, mas tava visitando o pai em Brasília e aproveitou pra dar um curso de técnica de “slap” em uma escola de música por lá, rsrs. Eu tinha uns 18 anos, tava fissurado no Flea e em outros baixistas de funk-rock e prestes a me mudar pros EUA pra estudar na Berklee. Resolvi ver qual era a do curso dele e já viramos brothers na primeira aula. Quando ele mandou a mensagem eu já tinha gravado todos os baixos (menos “Sex no Banheiro” que tinha guardado pro Pedro Souto, que fazia parte da minha banda ao vivo, gravar), mas claro que não ia dispensar a participação do meu irmão dos graves. “Mandinga”, por ser a mais “funky” do disco, pareceu a mais apropriada. Ele adicionou uns overdubs de baixo com envelope filter, um efeito muito usado pelo mestre Bootsy Collins e pelo próprio Flea, que deu o molho final nessa faixa que terminou com três baixos, uma orgia baixística. Massa! É foda falar do Pedro depois dessa fatalidade. Pensa num cara talentoso, coração e com um futuro incrível. Era o Pedro. Eu tinha ele meio como irmão mais novo, quase como um filho, tentava sempre dar uns toques da minha experiência e aprendia muito com ele também. Os anos que tocamos juntos foram muito marcantes. Ensaiávamos quatro vezes por semana. A banda estava na ponta dos cascos. Fizemos altos shows. Um puta som e nos divertíamos muito. Tenho muitas saudades. Torcia pro Almirante Shiva se mudar pra SP e retomarmos. Era engraçado porque ele era um cara super novo que bebia muito nas raízes do rock e eu muito mais velho sou um cara ávido por novidades, então eu mostrava as bandas novas pra ele e ele me mostrava obscuridades dos anos 60 e tal. Não tinha como o Pedro não participar. Calhou de ter um show do Almirante Shiva na mesma época em que eu estava gravando os baixos e aproveitamos. Foi na casa do Biu (Rumbora). Tem alguns vídeos dele gravando com o “Rick”, o baixo RIckenbaker que ele amava e tinha um puta orgulho. A Deb é outra preciosidade brasiliense. Tem uma banda massa: Deb & The Mentals. Ela tem muita presença. Apesar de sermos de Brasília só a conheci em São Paulo, mas rapidinho já virou parceira também. Ela canta na mesma faixa que o Pedro tocou, “Sex no Banheiro”. Super sexy. Malásia é sempre grande presença. O nosso Malá. Nos conhecemos na virada pros 2000. Eu com o Rumbora, ele com a Ultramen. Vários shows juntos e muita história. É uma banda que levo no coração. Passei as músicas pra ele que adorou e executou lindamente. Uma coisa massa que fugiu do script foi que na faixa “Através do Espelho” eu tinha uma levada de candomblé da Bahia pra ele tocar na parte do Black Alien e daí ele mostrou uma do Sul que eu não conhecia. Acabamos colocando as duas junto com riffs de guitarra, claps 808 e o Black Alien rimando em cima. Mais sincrético impossível. O Malásia falou que eu inventei o Candomblé Progressivo, hahahaha. Outra participação importante foi a do Iuri Rio Branco, músico de Brasília e meu parceiro nas bateras da banda ao vivo desde que botei o bloco na rua em 2013. Monstrinho. Gravou as baterias das outras sete faixas em um dia. Toca muito e tem uma musicalidade incrível.

Essa coisa de gravar solo e tocar vários instrumentos sempre levanta a questão de como o disco funciona ao vivo. Quem está te acompanhando na estrada e como tem sido os shows? Só canções do “Você Já Está Aqui” ou rola também Rumbora e Supergalo?
Funciona muito bem , obrigado, rsrs. A questão é que é um disco muito vivo, dançante e não é mirabolante de uma forma que fique descaracterizado no palco. Estou realizando planos que tenho feito há anos. Um deles é ter vários formatos. Já fiz shows com dois deles: um trio comigo na voz, guitarra, programações e teclados, o Iuri na bateria e Thiago Buda (Kubata, Samuca & A Selva) no baixo; e outro em um formato one-man-band no esquema Live PA, como o que se usa na música eletrônica, onde canto, toco baixo, teclados e manipulo as canções ao vivo. Agora estou ensaiando em duo com o Iuri na bateria num formato que mistura esses outros dois e tá ficando muito interessante, gerando várias possibilidades. No show toco várias canções do álbum solo, obviamente, mas não deixo de lado o que ajudei a construir com meus amigos do Rumbora e do Supergalo. Vou variando. Toco umas em um show, outras em outro, dependendo faço versões fiéis às originais e em outras toco versões especiais. Os shows nunca são iguais. Tem umas versões 2017 bem massa, a galera tem curtido e cantado tudo junto. O mais sensacional foi no show de lançamento ver todo mundo cantando as músicas novas. Bonito demais. Tempo bom é agora e aqui.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Ronaldo Franco / Divulgação

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