Entrevista: Daniel Ferro fala sobre o livro “Contos Do Rock”

entrevista por Cainan Willy

Você consegue imaginar os integrantes da Legião Urbana pixando todos os quadros da sede da gravadora por vingança? E Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, empurrando um carro enguiçado bem na porta do local onde havia acabado de fazer um show para milhares de pessoas? E que tal Gabriel Thomaz, dos Autoramas, todo encabulado por dar ter dado um baile no fliperama em Lemmy, o todo-poderoso vocalista do Motorhead?

Essas e outras histórias foram compiladas pelo jornalista Daniel Ferro e exibidas no programa “Contos Do Rock – Histórias Dos Bastidores Do Rock”, veiculado pelo canal Multishow, em 2012, e agora ganha uma versão em livro, que reúne 54 causos do universo rock and roll nacional. De Erasmo Carlos até Rogério Flausino, de Skank até Pitty passando por Mutantes, Dead Fish, Cidade Negra, Vivendo do Ócio, Titãs e muito mais.

“Eu procurei sempre escolher pessoas que tinham presenciado boas histórias”, conta Daniel em conversa com o Scream & Yell. “Meu único crivo foi esse: ter presenciado ela mesmo a história e me garantir que ela era verdadeira”. Para Daniel, o mérito do livro, publicado pela Editora Dublinense, é conseguir fazer “parecer que o artista está ali na sua frente contando a história. Como se fosse seu amigo sentado contigo na mesa de bar contando “aquele causo” muito doido”. Confira o bate papo.

Como surgiu o desejo/ necessidade/ vontade de transformar o programa em livro. Tem a ver com essa parada de eternizar um discurso?
A ideia do programa “Contos do Rock”, que criei para o Multishow em 2012 (foram 25 episódios no total) e resultou no livro, surgiu de uma lacuna que percebi que havia nos documentários a que assisti e nas biografias musicais que eu li nos últimos anos. Eles não tinham histórias de camarim, de bastidores, que são engraçadas e ajudam a entender muito sobre as bandas, os artistas, e que sempre ficavam à margem. Daí surgiu o programa, que por sua vez tinha uma linguagem audiovisual que emulava um livro, por isso mesmo foi natural essa transição.

Voltando um pouquinho a época do programa, como funcionava a curadoria dos convidados que iriam apresentar suas histórias?
Eu procurei sempre escolher pessoas que tinham presenciado boas histórias. Não somente artistas, mas empresários, produtores, roadies… meu único crivo foi esse: ter presenciado ela mesmo a história e me garantir que ela era verdadeira. O que a pessoa testemunhou e nos contou na pesquisa está no livro. Ele inclusive é uma transcrição fiel do relato do entrevistado. Apenas procurei evitar relatos de “alguém me disse que fulano viu…”. Procurei manter relatos de primeiro grau no livro, assim tenho tranquilidade de que tudo que está lá deve ser verdade “verdadeira”.

Na época teve alguma história que vocês não levaram ao ar, talvez por ser muito sem graça ou por ser uma parada muito explicita?
Esse livro é 100% sem censuras. O que apenas tentei pautar na edição era entender se a história não era muito “piada interna” para a banda. Muitas das vezes ela parece ser engraçada dentre amigos, mas para um público de fora não. Mas isso aconteceu muito pouco durante a pesquisa. A grande maioria das histórias tem seu valor, ou por serem cômicas ou por terem uma carga histórica mais relevante.

Já pro livro, imagino que tenha sido difícil selecionar quais histórias iriam pro livro e quais não. Como funcionou essa segunda curadoria?
Nisso a editora Dublinense me ajudou muito. Por mim o livro teria os 250 contos que foram ao ar no programa. Mas aí eles me mostraram que a edição seria maior que todos os volumes de Game of Thrones somados (risos). Mas procuramos manter um conto por entrevistado e pescamos as histórias que vinham à mente mais rapidamente. Foi até um processo tranquilo.

Alias, depois de ler (em menos de dois dias), fui dar uma olhada nos vídeos e percebi que vocês preservaram todos os trejeitos dos artistas, né? Inclusive na história do Dinho Ouro Preto dá pra ler ouvindo a voz dele na nossa mente ecoando muitos “cara” (risos).
Super. Mas essa é a graça. Acho muito bacana parecer que o artista está ali na sua frente contando a história. Como se fosse seu amigo sentado contigo na mesa de bar contando “aquele causo” muito doido.

Você pretende continuar coletando material e quem sabe escrever mais um livro com contos do rock independente ou, quem sabe, expandir isso para estilos musicais diferentes?
Não sou muito de fazer planos. Não dá tempo. O lance é ter a ideia e realizar. Não deixar pra ontem. É algo que aprendi na estrada, tendo banda. Mas que contos (já pesquisados e editados) a gente tem pra mais dois ou três volumes da “série”, isso a gente tem! Vai, Dublinense! 😉

– Cainan Willy (www.facebook.com/CainanWily) e editor chefe do site Pacovios

3 thoughts on “Entrevista: Daniel Ferro fala sobre o livro “Contos Do Rock”

  1. Tinha um outro programa bem bacana do Multishow exibido algum tempo atrás chamava “Que Rock É Esse?”. Era bem bacana, tinha vários depoimentos de artistas e jornalistas. Procurei no Youtube e só tem trechos, podiam dar um jeito de lançar, seria uma base legal de pesquisas e um ótimo registro.

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