Um domingo de Dia dos Pais hardcore em Belo Horizonte

Texto e fotos por Bruno Lisboa

No domingo de Dia dos Pais, o Music Hall, tradicional casa de shows de médio porte em Belo Horizonte, recebeu um mini festival punk que reuniu gerações, das iniciantes Grim e Horizonte, aos uberabenses do Project Black Pantera até os lendários Devotos (de Recife) mais os capixabas da Dead Fish como principal atração da noite arrastando um belo público para o evento.

Defendendo o repertório do primeiro álbum, o disco “Princípio, Meio e Fim” (2015), a banda local Horizonte exibiu uma sonoridade que se aproxima tanto do emo quanto do metalcore safra 2000. Liderado por Vitor Simões, o quarteto belo-horizontino ainda apresentou algumas canções novas que irão fazer parte do álbum “Singularidade”, a ser lançado ainda esse ano, num show correto.

Na sequência, de Uberaba, o trio Project Black Pantera, que em junho se apresentou em Paris, no palco Spitfire do enorme Download Festival, e aqui teve a oportunidade de mostrar ao público mineiro uma sonoridade que oscila entre o hardcore e o thrash conseguindo o mérito de incitar as primeiras rodas de pogo do dia. No repertório, as canções do álbum de estreia que leva apenas o nome da banda, lançado em 2015, soaram fortes e ganharam impacto com a presença de palco dos três integrantes destacando as faixas “Godzilla” e “Bota Pra Fuder”.

Punk rock, hardcore, sabe onde é que faz? Lá no Alto José do Pinho, em Recife, e também no Music Hall, em Belo Horizonte, com o Devotos festejando 20 anos do lançamento de seu mítico álbum de estreia, “Agora Tá Valendo”, culminando na terceira apresentação da banda na capital mineira. O trio Cannibal (baixo e vocal), Neílton (guitarra) e Celo Brown (bateria) mandou um hardcore sem firulas e hinos como “Vida de ferreiro” e “Punk, Rock, Hardcore Alto José do Pinho” foram enfileirados e entoados por boa parte do público presente.

Encerrando o dia dos pais punk rock, os capixabas do Dead Fish, divulgando o CD/DVD “XXV”, que celebra 25 anos de hardcore passearam por boa parte da discografia da banda que, aliás, permanece soando muito melhor ao vivo do que em estúdio graças à velocidade impressa em muitas canções (“Venceremos” é um belo exemplo) e a performance irrequieta do vocalista Rodrigo, que entre uma música e outra disparava impropérios ao figurativo Temer e a situação atual do país.

O público que até então permanecia de forma contida respeitando o gradil colocado pela produção local entre a pista e palco, assumiu o palco como seu buscando corresponder a tamanha entrega do Dead Fish, e assim se iniciaram inúmeros stage dives, sina que se seguiu até o último acorde (da pungente “Sonho médio”), naquela que seria a melhor apresentação da noite.

Talvez um dos últimos sobreviventes do que um dia foi chamado (punk) rock brasileiro, o Dead Fish segue arrastando um enorme público (que consome de maneira voraz o merchandising oferecido pela banda) onde quer que vá, mesmo em horário nada convidativo (a apresentação começou as das 22h do domingo), mesmo no dia dos pais. E, ao contrário de inúteis cânones dos anos 80, ainda mantém um posicionamento político coerente. Em tempos de vacas magras, onde muitos procuram por espaço e se omitem de maneira acovardada, o fenômeno Dead Fish precisa mais do que ser estudado: precisa ser admirado.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão.

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