Boteco: 5 cervejarias gringas, 10 cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo uma série países pelos Estados Unidos com a quinta Sierra Nevada que marca presença neste site (antes foram Hop Hunter, Pale Ale, Oktoberfest e Torpedo): Otra Vez, uma Gose que recebe adição de toranja e também da fruta do cacto Opuntia, originário da Califórnia. De coloração dourada suavemente turva com creme branco de média formação e retenção, a Sierra Nevada Otra Vez exibe um aroma delicado que deixa perceber doçura maltada, cítrico bastante suave, acidez comportada e, ainda, leve salgado. Na boca, doçura cítrica no primeiro toque seguida de acidez baixa, mas marcante, e salgado suave, mas presente. A textura traz textura suave e o amargor subsequente fica na retaguarda, já que a acidez e o salgado tomam a frente e levam o conjunto, com doçura cítrica muito bem inserida, até o final com leve adstringência e salgado. No retrogosto, adstringência suave e doçura cítrica numa cerveja simples e eficiente.

A segunda cerveja da Sierra Nevada na sequencia (sexta deles no blog) é a Kellerweiss, uma tradicionalíssima German Hefeweizen, mas feita em Chico, na Califórnia, e não na Alemanha. De coloração dourada levemente turva (e não filtrada) com creme branco de ótima formação e média alta retenção, a Sierra Nevada Kellerweiss exibe um aroma tradicionalíssimo sugerindo frutado (banana, claro) e doçura de caramelo, mas, infelizmente, com pouca condimentação – cravo é uma das outras marcas do estilo. Na boca, doçura de caramelo no primeiro toque sendo superada logo na sequencia pela potência da banana, que novamente chega sozinha, sem a condimentação tradicional. A textura é cremosa (a condimentação aparece aqui) e o amargor praticamente num conjunto saboroso, que adapta para a Califórnia um estilo clássico alemão. No final, doçura e condimentação suave. No retrogosto, doçura, trigo e caramelo.

Dos Estados Unidos para Tallinn, cidade de 400 mil habitantes localizada no golfo da Finlândia que é capital da Estônia e abriga a cervejaria Põhjala, fundada em 2013, que marca presença nessa série com a Virmalised (Aurora Boreal), uma American IPA cuja receita une os maltes Pale, Cara Pale e Crystal 150 com os lúpulos Magnum, Amarillo, Centennial e Citra. De coloração âmbar com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção, a Pöhjala Virmalised exibe um aroma cítrico com também leve percepção herbal. Há sugestão de maracujá, grapefruit e leve pinho. Na boca, doçura de caramelo suave rapidamente deixada para trás em prol dos lúpulos cítricos, que acrescentam frutado, mas baixo amargor (50 IBUs, como consta, soa até alto). A textura é picante e o conjunto bastante equilibrado, saboroso e refrescante, finalizando de maneira docemente caramelada e levemente amarga. No retrogosto, mais amargor que doçura. Boa.

A segunda da Põhjala é da linha de Special Series da casa, uma TIPA, ou seja, uma Tripel IPA de 13% de álcool cuja receita se apoia na união dos maltes Pale e Munich com flocos de aveia e quatro lúpulos: El Dorado, Mosaic, Citra e HBC-431. Como o nome de Kolmekordne, essa Triple IPA exibe coloração âmbar alaranjada com creme bege claro de média formação e retenção. No nariz, a percepção do álcool em primeiro plano é inevitável, adiantando uma cacetada, mas ainda é possível perceber bastante frutado cítrico envolvido em caramelo (como uma laranja confitada) e leve sugestão de condimentação. Na boca, doçura e cítrico juntos no primeiro toque até ambos serem afogados numa onda de álcool, que “caramela” tudo que vê pela frente. A textura é melada, mas menos licorosa do que se espera. Esqueça amargor aqui, mas se preocupe com o álcool, ainda que ele não vá fazer você se esquecer dele em todo o trajeto de uma cerveja para se beber devagar e lentamente. O final é doce e picante (de álcool). No retrogosto, álcool, cítrico e calor.

Da Estônia para a Nova Zelândia com duas da cervejas da 8 Wired, de Warkworth, cidade de pouco menos de 5 mil habitantes na península de Northland. Fundada em 2009 (quatro anos depois do fundador da cervejaria ter ganhado um kit para produção de cerveja caseira da esposa), a 8 Wired é bastante respeitada no meio, e estreia aqui com a Hippy Berliner, uma Berliner Weisse lupulada de coloração amarela levemente palha com creme branco de boa formação para o estilo, e rápida dispersão (tradicional para o estilo). No nariz, os lúpulos norte-americanos e neozelandeses fazem a diferença acrescentando notas cítricas suaves num território dominado por acidez e azedume, que ficam na base aguardando o bebedor. Na boca, doçura discreta no primeiro toque seguida de rápido cítrico e, então, uma pancada de acidez e azedume. A textura é altamente frisante e a acidez confunde a percepção de amargor, que é baixo, ainda que o acético provoque bastante as papilas. Dai pra frente, um conjunto delicioso, agradável e refrescante, que se encerra de maneira seca, mas mais suave do que arisca. No retrogosto, adstringência suave, salgadinho e cítrico.

A segunda 8 Wired é uma releitura neozelandesa do tradicional estilo belga Saison com um capricho extra: a adição do famoso lúpulo local Nelson Sauvin. O resultado é uma cerveja amarela (mais turva que a anterior) com creme branco espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, a levedura dá uma pancada sugerindo acidez e traz consigo notas cítricas deliciosas que remetem a casca de limão fresquinha além de abacaxi maduro. Ainda é possível perceber algo de compota de laranja mais feno, floral e campestre. Roça. Na boca, doçura melada com toque cítrico no primeiro toque seguida de aridez e secura a lá Saison sugerindo uva branca, madeira e vinho. A textura é altamente frisante (como tem que ser) e o amargor fica encoberto pela percepção de acidez e azedume, que juntos decididamente um conjunto que prima por notas cítricas, florais e campestres incríveis. O final é seco e campestre, com um pouco de curral. No retrogosto, mais curral, cítrico e azedinho. Delícia.

Da Nova Zelândia para Glasgow, na Escócia, casa da Tennent’s, que já havia passado por aqui com a 1885 Lager, a Scotch Ale, a Original Export e a Tennent’s Aged With Whisky Oak. Agora é a vez dos escoceses marcarem presença primeiro com sua Stout, uma cerveja de coloração marrom bastante escura e creme bege espesso de excelente formação e longa retenção. No nariz, uma pancada de doçura sugerindo caramelo e chocolate e até banana assada com café muito, mas muito discreto. Na boca, o que se percebe no aroma surge acentuado com muita doçura sugerindo caramelo e chocolate desde o primeiro toque. A textura sugere suavidade, mas surge acompanhada de metálico. Já o amargor, esqueça: a potência da doçura é tanta que mesmo o café ou algum derivado amargo da torra do malte desaparecem num oceano de caramelo, baunilha e chocolate. O final é… doce. No retrogosto, mais doçura. Decepção.

Já a Tennent’s India Pale Ale é uma English IPA com nítidas influências californianas, pois, explicando para o bebedor neófito, a escola britânica de IPA é mais contida que a dos EUA, com destaque para o lúpulo, mas com malte bastante acentuado ditando a experiência – enquanto na América é lúpulo mais lúpulo mais lúpulo. De coloração âmbar caramelada com creme bege claro de boa formação e longa retenção, a Tennent’s India Pale Ale apresenta um aroma que combina doçura de caramelo com frutado cítrico (grapefruit) e herbal (pinho). Na boca, mais presença de lúpulo sugerindo grapefruit do que de malte (caramelo), embora possa se perceber os dois já no primeiro toque. A textura é picante e cremosa e o amargor posterior é baixo (30/35 IBUs no máximo), mas presente, abrindo as portas para um conjunto que une grapefruit com biscoito. No final, secura e amargor herbal. No retrogosto, mais herbal. Muito boa… para uma Tennent’s.

Da Escócia para a Dinamarca com duas Mikkeller (produzidas na De Proefbrouwerij, na Bélgica) bem especiais. A primeira é a uma versão da sensacional Monk’s Brew, Belgian Quadrupel que nasceu inspirada nas versões da Westvleteren e Rochefort, que é maturada em barris de vinho tinto e vinho branco para, depois receber adição de raspberry em uma terceira maturação. Há, ainda, infusão de açúcar mascavo. O resultado é uma cerveja de coloração âmbar bastante escura e turva com creme bege de média formação e retenção. No aroma, a Monk’s Brew Barrel Aged Raspberry oferece inicialmente uma pancada de framboesa que vai amaciando e deixa perceber levemente a maturação em barris de vinho sugerindo madeira. Na boca, tudo que o aroma esconde surge numa pancada inicial de doçura de frutas vermelhas que vai se abrindo em madeira, azedume suave, vinho tinto, doçura e praticamente nada de álcool (e são 10%!). A textura é sedosa e picante de álcool (alguns segundos sobre a língua e está o álcool aquecendo tudo e trazendo consigo madeira) e amargor não é a questão aqui, já que o azedume e o avinagrado tomam a frente, mas são as frutas vermelhas que dominam o conjunto até o final, doce (e sugerindo açúcar mascavo). No retrogosto, vinho tinto, madeira, açúcar mascavo e vinagre. Muito boa.

Fechando o passeio com a segunda Mikkeller da série, também feita na De Proefbrouwerij, a Black Hole, uma Russian Imperial Stout de potentes 13.1% de graduação alcoólica, que exibe uma coloração marrom bastante escura, praticamente preta, com creme marrom escuro de excelente formação e longa retenção. No nariz, doçura de chocolate amargo, baunilha e café chamam a atenção num primeiro momento, mas, com calma, pode-se perceber também leve remissão a vinho do Porto, fumaça e álcool muito sutil. Na boca, doçura de chocolate amargo no primeiro toque, que vai ganhando força e impacto na sequencia com o volume de álcool, magicamente escondido, e a remissão a vinho do Porto, que surge mais intensa. A textura é licorosa e picante, com o álcool mordiscando a língua intensamente. Não se preocupe com o amargor, mas sim o álcool, pois apesar dele não aparecer no conjunto, ele está aqui. Cuidado. O final é levemente alcoólico sugerindo vinho do Porto, percepção que retorna no retrogosto junto a calor alcoólico e felicidade. Belíssima RIS.

Balanço
A primeira representante dos Estados Unidos inspirou-se na Alemanha para oferecer uma Gose agradável com cactos, cítrica e refrescante. Boa essa Sierra Nevada Otra Vez. Assim como é boa a Sierra Nevada Kellerweis, capaz de mostrar como os californianos sabem fazer bem uma cerveja alemã (mas pra que beber uma cervejaria norte-americana replicando uma alemã se você pode beber uma autêntica alemã???). Bora para a Estônia, que estreia por aqui com a Põhjala Virmalised, uma boa American IPA, cítrica e levemente amarga. Já a Põhjala Kolmekordne é uma pancada de álcool do começo ao fim, do aroma ao retrogosto, e talvez lá pra cima, com o inverno abaixo de zero da região, desça bem, mas pra gente é difícil, principalmente porque (pra nós) é uma cerveja pra se beber devagar. Mesmo assim, achei o álcool exageradamente exagerado. A 8 Wired estreia com uma bela surpresa, a lupuladinha Hipy Berliner, saborosa e refrescante. Já a Saison com o lúpulo local Nelson Sauvin é ainda mais agradável, altamente recomendável. Da Nova Zelândia para a Escócia com uma Stout da Tennent’s tão doce, mas tão doce, mas tão doce que surpreende até quem já não esperava nada muito profundo vindo dessa cervejaria escocesa. Já a Tennent’s IPA assume o posto de melhor das seis dos escoceses que provei (não crava um lugar no Top 1000, mas é boa). Da Escócia para a Dinamarca com a Mikkeller Monk’s Brew Barrel Aged Raspberry, que me soou tortinha, mas nem tanto, com a framboesa dominando excessivamente o conjunto, que ainda trouxe bastante madeira, um tiquinho de vinho tinto e quase nada de álcool. Bela, mas esperava outra coisa. Já a Mikkeller Black Hole, um RIS de 13.1% de álcool, surpreendeu por exibir uma deliciosa sugestão de vinho do Porto. Adorei.

Sierra Nevada Otra Vez
– Produto: Gose
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3,41/5

Sierra Nevada Kellerweiss
– Produto: German Hefeweizen
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3,29/5

Pöhjala Virmalised
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Estônia
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,41/5

Pöhjala Kolmekordne
– Produto: Triple IPA
– Nacionalidade: Estônia
– Graduação alcoólica: 13%
– Nota: 3,31/5

8 Wired Hippy Berliner
– Produto: Berliner Weisse
– Nacionalidade: Nova Zelândia
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3,58/5

8 Wired Nelson Sauvin
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Nova Zelândia
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,69/5

Tennent’s Stout
– Produto: Stout
– Nacionalidade: Escócia
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 2,69/5

Tennent’s India Pale Ale
– Produto: English IPA
– Nacionalidade: Escócia
– Graduação alcoólica: 6.2%
– Nota: 3,10/5

Mikkeller Monk’s Brew Barrel Aged Raspberry
– Produto: Belgian Quadrupel
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3,94/5

Mikkeller Black Hole
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 13.1%
– Nota: 3,96/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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