Entrevista: Marcelo Viegas

entrevista por Bruno Lisboa

“Skatista, cientista social, jornalista, editor e pai do Milo”. É assim que o multifacetado Marcelo Viegas se autodescreve na orelha de “Então”, coletânea de entrevistas que compila em pouco mais de 220 páginas mais de 20 anos dedicados ao jornalismo cultural (a primeira entrevista, com Alexandre Sesper, do Garage Fuzz, é de 1995, e a temática abordada na conversa continua atualíssima como se tivesse sido feita domingo passado), que, como a autodescrição adianta e não diz tudo, não foi a única atividade a que Marcelo Viegas se dedicou neste tempo.

Incansável, Marcelo Viegas é um autêntico militante da cultura alternativa. Sob a sua batuta já nasceram fanzines (“the answer”), um selo musical (o sHort records, que lançou discos de Pin Ups, The Butchers’ Orchestra e Hateen, entre outros) e uma loja de discos. Ele ainda cantou em bandas como The Sundance Season, Chocolate Diesel e ästerdon, trabalhou como editor na revista cemporcentoskate e na Edições Ideal, responsável por colocar no mercado uma série de livros imperdíveis sobre o universo da música. E tamanha experiência o permitiu estar próximo (e entrevistar) artistas das mais variedades esferas. Os anos de dedicação resultaram neste “Então”, seu primeiro livro, lançado pela sHort Books, sua própria editora..

Na conversa abaixo, Marcelo Viegas fala sobre o livro, a cultura do it yourself (“Enquanto existir contracultura, existirá também a presença do espírito “do it yourself”), sua experiência como editor, jornalismo independente (“As entrevistas feitas “cara a cara” têm muito mais vida”), a experiência de ter com a sHort Records (“Não apenas foi uma chance de contribuir com a cena lançando várias bandas, como também – e principalmente – permitiu que eu conhecesse pessoas incríveis, de todos os cantos do Brasil”) e muito mais . Confira!

“Então” é uma compilação das várias entrevistas que você fez nos últimos anos. Como se deu a seleção?
Antes de falar especificamente da seleção das entrevistas, queria só dar uma palavrinha sobre o nascimento do projeto. O livro nasceu dentro do MBA Book Publishing que estou fazendo, a ideia era que cada grupo produzisse um ebook. Falei com o pessoal do meu grupo e disse que tinha esses arquivos das entrevistas que fiz ao longo dos anos. Eles curtiram e, então, mergulhei no material para fazer a seleção. O primeiro passo foi pensar no recorte e percebi que daria para amarrar esses três temas: skate, arte e música. Como não sou o sujeito mais desorganizado do mundo, tinha o back up da maioria das entrevistas. E, como elas já estavam transcritas, o trabalho mais pesado foi o de escrever novas introduções, além de revisar, editar e criar uma certa padronização. Adotei o rumo de só selecionar entrevistas estilo “pergunta e resposta”, o que exigiu que eu deixasse de fora muitas entrevistas legais no esquema de texto corrido (como, por exemplo, as entrevistas do Carlos Dias e do Stephan Doitschinoff). Tinha uma entrevista que eu não tinha back up: a do Garage Fuzz, de 1995. Então, fotografei o zine e mandei para a Karina Goto, e ela fez a nova transcrição que está no livro.

O lançamento do livro foi feito por sua conta, sem apoio de nenhuma editora. Por que você optou por trilhar este caminho?
Porque esse é o nicho do nicho. Mesmo uma editora independente, que não é tão focada no aspecto comercial, encontraria dificuldades para “fechar a conta” no caso de um livro com essas características. Eu já sabia disso, e sabia também que seria infrutífero e desgastante ficar correndo atrás de editora para esse projeto. Por outro lado, eu sabia que talvez fosse possível viabilizar o lançamento fazendo por conta própria. E, para que isso acontecesse, a primeira decisão foi optar por uma pequena tiragem. Como já tive selo musical nos anos 90, sei muito bem como era difícil desovar as prensagens de mil CDs – e não queria repetir essa experiência agora. O livro poderia ter até um preço de capa mais barato se eu tivesse feito mil exemplares, mas não tenho a menor intenção de dormir em cima dos livros pelos próximos anos. (risos)

As entrevistas no livro foram realizadas num formato “old school”, de forma presencial e com gravador registrando a conversa. Com o advento da internet surgiu a possibilidade de realizar uma entrevista a distância. Você acha que isto interferiu de alguma forma no gênero?
Na verdade, nem todas as entrevistas do livro foram feitas de forma presencial. Creio que metade foi feita por e-mail ou Facebook. O que salta aos olhos, e isso não é nenhuma novidade, é o fato de que as entrevistas feitas “cara a cara” têm muito mais vida, muito mais sabor e uma dinâmica bem mais interessante. Nada substitui a experiência de uma entrevista “olho no olho”. Por outro lado, não podemos negligenciar as facilidades que a Internet trouxe para a vida dos repórteres. Encurtou distâncias e permitiu que conseguíssemos conteúdos que antes pareciam praticamente inacessíveis. Tento me consolar com a comparação com o passado: nos anos 90, fiz várias entrevistas “por carta”. Parece jurássico, mas funcionava: de cabeça, lembro que entrevistei, por carta social, bandas como Pinheads, Muzzarelas e até o Pirexia, do Uruguai. O e-mail é mais ou menos isso, só que mais rápido. (risos)

Grande parte dos entrevistados tem em comum o fato de dividirem as mesmas paixões que você pela música, o skate e a arte. A afinidade é um dos elementos essenciais para você realizar uma entrevista?
Nesse aspecto, creio que tive sorte: nunca precisei fazer uma entrevista demasiadamente chata. Sempre trabalhei com esse nicho do skate, da música e da cultura alternativa, o que permitiu dialogar com pessoas que compartilham de interesses similares aos meus. Estaria mentindo se dissesse que a afinidade foi obra do acaso, pois não foi. Pra ser sincero, tenho até curiosidade para saber como eu me sairia se tivesse que trabalhar em uma outra editoria, entrevistando pessoas de outras áreas.

Você teve na década de 90 um fanzine (o “The answer”). Qual a importância do gênero para época?
Os zines desempenharam um papel fundamental nos anos 90. Naquele mundo pré-Internet, ou de Internet ainda engatinhando, os zines eram veículos essenciais na divulgação da cena independente. Todo um circuito nacional de bandas novas encontrava espaço nas páginas dos zines. Zines e demo-tapes circulavam pelo país, criando um verdadeiro networking alternativo. Tenho muito orgulho de ter participado daquela cena dos anos 90.

E de certa forma, o blog veio a substituir a lacuna deixada pelo fanzine. Você acha que o mesmo é hoje a melhor forma de realizar jornalismo de forma independente?
Acho que o blog é uma das plataformas possíveis. Creio que também dá pra fazer jornalismo independente pelo Instagram, pelo Twitter, em autopublicações etc. Como sustentar financeiramente esses projetos são outros quinhentos, e acho que as novas gerações sabem fazer isso bem melhor, com mais naturalidade. Nos dias atuais, os zines (e eles seguem firmes e fortes) desempenham outro papel, menos informativo e mais conceitual/artístico, por assim dizer.

Como foi a experiência de ter tido um selo musical (o sHort Records)?
Guardo com muito carinho e orgulho a experiência da sHort (tinha essa grafia metida). Não apenas foi uma chance de contribuir com a cena lançando várias bandas, como também (e principalmente) permitiu que eu conhecesse pessoas incríveis, de todos os cantos do Brasil. Naquela época, a cena tinha vários problemas – alguns permanecem até hoje –, mas tinha um plantel ótimo de bandas. E tive o prazer de trabalhar com algumas delas na sHort: Pin Ups, Hateen, Snooze, Echoplex, Dread Full, Thee Butchers’ Orchestra e por aí vai. O selo começou em 1995 e ficou na ativa até 2004 (11 CDs lançados). Uma das coisas mais legais era a famosa banquinha, que misturava trabalho e prazer, comércio e risadas, e percorreu muitos quilômetros por esse Brasilsão: além de São Paulo, a banquinha da sHort também marcou presença em Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Paraná e Sergipe.

A sHort foi criada numa época em que os selos musicais independentes começaram a surgir. Você acha que hoje o grande número de selos existentes, de alguma forma, dão continuidade ao legado deixado por você, pela Midsummer Madness (ainda na ativa), a Banguela, a Rock it!. entre outros?
Com certeza. Tem muito selo legal colocando boa música na praça, dos mais diferentes gêneros da música alternativa (indie, punk, crust, experimental etc). E tem essa mescla de selos novos (Balaclava, Transfusão Noise, Nada Nada Discos, HBB Recs, No Gods No Masters etc) com selos da antiga, afinal muitos estão na ativa até hoje (Läjä, Submarine, Peculio, Midsummer etc). São os independentes de verdade, e não aqueles pseudo-independentes que apareceram nos anos 90 (Banguela, Tinitus), que eram subsidiados por majors. Faço sempre essa distinção, para separar o joio do trigo.

A parte das entrevistas musicais consegue expor cronologicamente como o universo da música mudou nos últimos anos. Foi intencional?
Não foi intencional. A intencionalidade reside na tentativa de selecionar entrevistas das mais diferentes épocas, desde material de meados dos anos 90 até coisas que foram feitas no ano passado (2016). Pode ser que essas mudanças apareçam no conteúdo dessas conversas ao longo dos anos, de modo natural. Mas não foi algo planejado.

E hoje em dia, quais artistas você tem acompanhado e recomenda?
Do “estrangeiro”, posso dizer seguramente que a minha banda favorita da atualidade é o DIIV. Nessa mesma onda, o álbum novo do Beach Fossils tem pelo menos duas pérolas (“This Year” e “Down the Line”). O novo do Afghan Whigs também está bem legal (a maravilhosa “Oriole” poderia estar tranquilamente no “Black Love”). Além desses, também tenho escutado muito Turnover (toca no Brasil em dezembro), The Radio Dept., Run The Jewels, A Tribe Called Quest, Mars Red Sky e o punk grudento lindo do Beach Slang. Das bandas de cá, tem os de sempre: Hurtmold, Parteum, Merda etc. Das paradas que estou ouvindo agora, tenho gostado bastante do material mais recente da rapper Lívia Cruz; a banda Rakta tem feito um trabalho impecável, acho foda; o Herzegovina, novo projeto do Rafael Crespo, encontrou uma sonoridade bem interessante; e acabei de escutar o EP novo da banda Os Chás (“Já Delírio”) e recomendo com entusiasmo!

Você foi editor da revista Cemporcentoskate e de livros lançados pela Edições Ideal. Como você entrou nessa área?
Começando pela CemporcentoSKATE. Sou colaborador da revista desde os primórdios: ela nasceu em 95 e meu primeiro texto foi publicado em 96. Até 2005 atuei como colaborador esporádico, e em 2006 fui contratado para ser redator. Dois anos depois, passei a editor e fiquei no cargo até o final de 2012. E sigo colaborando com a revista até hoje. De certo modo, dá pra dizer que o skate determinou o curso da minha vida. Ando de skate desde 1988, mas sempre soube que não seria um skatista profissional, o que me levou a trilhar o caminho de profissional do skate, atuando na mídia. Apesar de ser formado em Ciências Sociais, minha atuação sempre se deu mais no campo do jornalismo. Tem até um fato curioso, ou melhor, incomum: o meu primeiro texto não foi publicado em um zine, mas sim em uma revista, a extinta One Street Magazine, no distante ano de 1994. O meu primeiro zine (The Answer), feito em parceria com o artista plástico Flávio Grão, só saiu em maio de 1995. Bom, depois da CemporcentoSKATE, fui chamado pelo Felipe (Gasnier) e pela Maria (Maier) para ser o editor da Edições Ideal, no início de 2013. Foram quatro anos na casa, totalizando uns 36 livros no período. Foi muito legal dar um tempo na rotina diária do skate para me dedicar a um projeto focado na música. Livros de música! E acho que a editora plantou a semente de um projeto editorial bacana, com um nicho muito bem definido e que construiu um catálogo bem interessante e diversificado. Além das biografias (Slayer, Motörhead, Ian Curtis, Kid Vinil, The Cure etc), também teve espaço para quadrinhos, livros infantis, ficção, jornalismo e livros de fotos. Muitos desses títulos talvez não existissem no mercado brasileiro se não fosse pela iniciativa da Edições Ideal.

É inegável a inter-relação entre o skate, a música e a arte. Mas como foi que nasceu esta relação para você?
Nasceu de forma natural, na medida em que esses elementos foram sendo incorporados na minha vida. Muita gente não sabe, mas durante a minha infância e adolescência eu desenhava, cheguei a cursar Desenho Artístico na ASBA (Associação São Bernardense de Belas Artes). Mas depois optei pelos textos mesmo, o que acredito ter sido uma decisão correta (risos). E a música já vinha despertando o meu interesse antes do skate entrar na minha história. Já escutava Camisa de Vênus, Replicantes, Garotos Podres, tinha já uma fogueira do punk acesa – e o skate só fez o fogo aumentar de intensidade (e direcionou com mais qualidade). Então, com 14 anos eu já tinha esses três elementos inseridos na minha vida: já andava de skate, já curtia música alternativa e já tinha um interesse pelas artes que vinha desde pivete, principalmente com a fascinação pelo universo das HQs. Mas é interessante notar como o skate tem essa capacidade de abrir horizontes culturais: tanto no âmbito das artes (as ilustrações dos adesivos, shapes e camisetas, por exemplo) quanto no campo musical (as trilhas dos vídeos, a música que toca no campeonato, na festa, a banda que é entrevistada na revista, para citar algumas ocorrências). Quando você começa a andar de skate, essa bagagem cultural é oferecida praticamente desde o primeiro dia. Aí cada um decide o que fazer – ou não fazer – com ela.

Como fruto do “do it yourself”(faça você mesmo) como você vê esta cultura hoje? Ela ainda preserva a essência do movimento?
Acho que o “do it yourself” permanece absolutamente vivo e válido. As gerações vão se sucedendo, mas o espírito continua reinando. Ele fica ali, pairando no ar e aguçando a imaginação e a criatividade das pessoas. É engraçado porque hoje muito se fala sobre o tal do empreendedorismo, tem todo esse culto ao empreendedor, mas a cena independente já sabe disso há anos, já pratica isso há décadas, mas sem os clichês corporativos e enfadonhos dos “comentaristas” da Globo News. Não é pelo lucro, mas sim pela cultura (ou contracultura) na qual você está envolvido. Vejo tanta gente vomitando esnobismo, com uma postura do tipo “sou empreendedor, sou um ser digno de reverência, blablabla”, enquanto a menina (ou menino) do punk lança disco, faz zine, monta distro, organiza show, traz banda gringa pra tocar aqui, vai com a sua banda pra tocar no exterior, edita livro, cria blog, canal do YouTube, a porra toda! Pergunte pra essa pessoa se ela é empreendedora ou punk, acho que sabemos a resposta. Vou além: faz tudo isso, colabora ativamente com a cena e não fica com aquele discurso de vitimismo (“aimeudeus, é tão difícil ser empreendedor no Brasil” ou “aimeudeus, os encargos trabalhistas aniquilam o meu negócio” ou qualquer equivalente). E o faça você mesmo pode ser aplicado nos mais diversos segmentos: para citar um exemplo recente, acabou de acontecer em São Paulo o UGRAFEST 2017. Evento incrível, inspirador. Muito bom ver a quantidade de gente produzindo publicações independentes de altíssima qualidade. Enquanto existir contracultura, existirá também a presença do espírito “do it yourself”.

Podemos esperar por um “Então” Vol. 2?
Tenho pensado sobre isso. Principalmente porque cortamos 10 entrevistas da seleção inicial. Mas não é algo que eu vá fazer nos próximos meses. De todo modo, quero também sentir como será o resultado do livro, se vou conseguir escoar toda a tiragem e tal. Em termos de projetos autorais, tenho uma outra ideia em mente, ainda na fase embrionária, mas posso adiantar que não será uma obra jornalística.

“Então” pode ser adquirido nas lojas abaixo, presencialmente ou online:

Ugra: https://goo.gl/5u2AWP
Locomotiva: https://goo.gl/ueWNWh
HS Merch: https://goo.gl/HxZ9tl
HBB Store: https://goo.gl/sJszhT
Sebo Clepsidra: https://goo.gl/oo5U2d
Sensorial: https://goo.gl/H2LLD1

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão. As fotos coloridas do texto são de Holyver Yoshida; a foto PB é de Marcelo Ribeiro, todas de divulgação

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