Três discos: El Cuarteto de Nos, Sotomayor e Los Espiritus

Resenhas por Leonardo Vinhas

“Apocalipsis Zombi”, El Cuarteto de Nos (Columbia Records)
Os uruguaios do El Cuarteto de Nos abraçaram o mainstream sem medo em “Habla Tu Espejo” (2015), seu disco mais fraco desde a guinada de sucesso comercial e artístico arquitetada a partir de “Raro” (2006). OK, “Porfiado” (2012) já dava mostras disso, e a verdade é que agora o ouvinte já sabe que o quinteto não vai economizar em baterias tratadas eletronicamente, Auto-Tune e flertes com o ritmo da moda, seja ele qual for. A boa notícia é que, mesmo mantendo essas características de índole duvidosa, “Apocalipsis Zombi” usa esses elementos apenas como tempero, e não como caldo de preparo, das boas narrativas e do pop bem sacado. “Gaucho Power”, o primeiro single, é um chiclete meio irritante e de letra patrioticamente ufanista, mas “Mirada de Nylon”, “Invisible” e a faixa-título são canções na qual a verve radiofônica é tratada com respeito e pegada roqueira de qualidade. Mérito da banda? Pode ser, mas o produtor espanhol Cachorro López tem boa porção de responsabilidade nisso. López trabalhou nos melhores discos de Julieta Venegas, Andrés Calamaro, Vicentico e outros, e sabe fazer com que a essência do artista caminhe junto com a vocação comercial. Até onde não parecia haver muito a se desenvolver, como nas duas últimas faixas (o Cuarteto nunca foi bom em encerrar seus discos), há um trabalho de timbres e arranjo que empresta brilho à canção. Dessa vez, não há nenhuma das antes obrigatórias composições do baixista Santiago Tavella – ficou tudo nas mãos de Roberto Musso, que não tem pudor em imitar o estilo do colega no folk “La Bestia”. Porém, o frontman parece ter deixado a pieguice da crise dos 50 anos de lado, voltando a investir em personagens bizarros e momentos absurdos. Ou seja: tudo indica que El Cuarteto de Nos já perdeu sua capacidade de surpreender, mas pelo menos esse “Apocalipsis Zombi” traz à banda de volta ao que ela sabe fazer melhor.

Nota: 7,5

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“Conquistador”, Sotomayor (Independente)
Era esperado que o duo mexicano Sotomayor apresentasse um bom segundo disco. Seu álbum de estreia, “Salvaje” (2015), levou a banda a apresentações por vários países e os colocou no centro da hype da cena eletrônica latina, mas isso não os deixou em uma situação de deslumbramento. Mais que isso, fez com que sentissem a necessidade de não se acomodar e de arriscar além de seus limites, como contaram em uma entrevista ao Scream & Yell. “Conquistador”, o resultado desse risco e da experiência construída no palco, é um álbum de música inovadora, hipnótica e dançante. A essência da banda – traduzir a polirritmia de seu país em uma estética que faça sentido no mundo moderno – está cristalina aqui: “Tierra Viva” e “Pulso” são duas boas maneiras de entender isso imediatamente. Já “Electrico”, “Aroma y Canto” e “Y Mi Voz se Va” são mostras do quão apropriada para as pistas sua música continua, mesmo em tempos de hegemonia do reggaeton. Nos momentos mais “fracos”, soa como um Bomba Estéreo melhorado – o que te dá uma dimensão da evolução da banda.

Nota: 8,5

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“Agua Ardiente”, Los Espiritus (Independente)
Ayahuasca em vez de bourbon, percussões de candombe em vez de bateria minimalista, voz aguda e anasalada cantando em espanhol, e não voz rouca se lamentando em inglês: esses são elementos do “blues amazônico” do Los Espiritus. Mesmo que seu país natal, a Argentina, esteja a milhares de quilômetros da maior floresta tropical do mundo, o rótulo define bem o terceiro disco da banda bonaerense. O cânone norte-americano do gênero é apenas um ponto de partida – há influências da cumbia, da chicha e das trilhas sonoras dos western spaghetti por todo o disco, assim como da percussão dos ritmos de origem afrolatina, como o candombe. Os caminhos dessa receita já haviam sido avistados pela banda desde suas primeiras gravações (há três EPs e dois LPs anteriores), mas nesse “Agua Ardiente” soam perfeitos e viciantes. Escute (o disco na integra no Bandcamp) sem pular faixas.

Nota: 9,5

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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