30 discos que completam 30 anos em 2017

por Marcelo Costa

Quando gravei o primeiro vídeo da série Scream & Yell Discos focando na efeméride de aniversário de álbuns, a ideia na minha cabeça é de que seria impossível bater 1967 como um ano responsável por grandes álbuns (que completam 50 anos em 2017). Tido na cultura pop como um álbum inigualável devido aos lançamentos dos primeiros álbuns de Velvet, Doors, Pink Floyd, Jimi Hendrix e Leonard Cohen além de clássicos dos Beatles, The Who, Kinks, Aretha Franklin, Byrds, Jefferson Airplane e muitos outros, 1967 foi um ano… foda.

Então quando fui gravar o especial 1977 (40 discos que completam 40 anos em 2017), uma (boa) surpresa surgiu de um ano que pariu as estreias de Iggy Pop, The Clash, Elvis Costello, Sex Pistols, Television, Richard Hell & The Voidoids, Talking Heads, Motorhead, entre outros, e álbuns clássicos de Bowie, Queen, Kraftwerk, Caetano, Belchior, Banda Black Rio, Fleetwood Mac, Leonard Cohen, a trilha de “Embalos de Sábado á Noite”, mais Eric Clapton, AC/DC e muito mais. Por isso é facilmente cravável: 1977 também foi um ano foda.

Agora chegamos a 1987 com uma seleção de 30 discos que completam 30 anos em 2017. Aqui a coisa muda de figura por vários fatores. O primeiro é de que se eu (e provavelmente você, caro leitor) não era nem nascido em 1967 e em 1977 era apenas moleques no primeiro grau do colégio (eu tinha 7 anos), em 1987 eu já tinha 17, um emprego e a possibilidade de comprar muitos discos via abertura política, plano Cruzado e salário mensal – não é a toa que os maiores recordistas de venda na indústria brasileira estão encravados nos anos 80.

O que aconteceu é que na hora que decidi “baixar” os discos de 1987 favoritos da estante para a mesa, me surpreendi com a quantidade volumosa de discos “queridos” e sensacionais, muitos deles comprados in loco, no dia do lançamento. Tornou-se, no decorrer da gravação do Scream & Yell Discos número 14, visualmente impossível falar de todos os discos num programa só, e decidi ali, com auxilio do diretor Tiago Trigo (da produtora Casa Inflamável), dividir o programa em dois, um nacional, outro internacional, o que já demonstra que 1987 não foi fraco não. Sinta-se à vontade para listar os seus discos favoritos nos comentários. Divirta-se (tanto quanto eu me diverti.)

Um mea culpa importante: “Kicking Against The Pricks”, o brilhante disco de covers de Nick Cave & The Bad Seeds, presente no vídeo internacional, é de 1986, não de 1987! Me empolguei demais 🙂

TOP 30 INTERNACIONAL – 1987

No território internacional, 1987 pode ser encarado com um dos primeiros anos em que o indie enfrenta o mainstream de igual para igual, quando não se apossa dele e começa uma relação turbulenta que irá desembocar, lá na frente, em “Nevermind” e todo o grunge. Aqui já temos bons exemplos com Husker Dü pela Warner e Replacements pela Sire, mas R.E.M. pariu seu clássico “Document” (só o disco de “Is The End’ e “One I Love”) pela IRS Records enquanto Jesus and Mary Chain lançou seu “Darklands” pela Blanco Y Negro, os Smiths se despediam com “Strangeways, Here We Come” pela Rough Trade e o Sonic Youth lançava o brilhante “Sister” pela SST enquanto “Songs About Fucking”, do Big Black, saiu pela Touch and Go (e demorou uns cinco anos para rodar nas vitrolinhas nacionais, trazido pelo furacão Nirvana”).

No mainstream, grandes vendagens de Michael Jackson (“Bad” não bateu como “Thriller”, mas a turnê que se seguiu impulsionou o álbum), George Michael (“Faith”) e U2 (“The Joshua Tree” tocou e tocou e tocou muito nas rádios até enjoar. Hoje praticamente apenas “In Gods Country” sobrevive incólume) e o Guns n’ Roses com “Appetite For Destruction”, marcando um avanço hard rock metal farofa thrash que irá colocar o Metallica no topo da Billboard anos depois – são de 1987 “Hysteria” de Def Leppard; “Girls, Girls, Girls” do Mötley Crüe; “Electric” do The Cult; “Abigail” de King Diamond; “Surfing With The Alien” de Joe Satriani; “Whitesnake”, o álbum; e “The House Of Blue Light” do Deep Purple. Teve também disco esquecível do Black Sabbath e grandes álbuns de Rush, Aerosmith e um ao vivo histórico de Ozzy, “Tribute”.

Apesar da listinha pessoal de 30 discos abaixo valorizar  o debute do Pixies, o duplo alegre do The Cure, o último álbum da formação original do Echo and The Bunnymen, e o primeiro grande disco do Wedding Present (eles vão gravar mais uns três grandes álbuns lá pra frente), ainda há fora da lista completando 30 anos discos de Spacemen 3 (“The Perfect Prescription”), Primal Scream (a joiazinha “Sonic Flower Groove”), Dinosaur Jr. (“You’re Living All Over Me”) Flaming Lips (“Oh My Gawd!!!”), Love and Rockets (“Earth, Sun, Moon”) e um favorito da casa, “Calenture”, do The Triffids (tenho a edição comemorativa de 25 anos, dupla).

Uma fato interessante: 1987 foi um ano de grandes coletâneas! Começando pelo New Order e seu obrigatório “Substance”, passando pelos Smiths, que lançaram duas coletas no período, “The World Won’t Listen” e “Louder Than Bombs”, até o Dead Kennedys, que teve sua carreira revista no essencial “Give Me Convenience Or Give Me Death”. Outra coletânea importante, e que serviu para apresentar Nick Drake a novas gerações, foi “Time of No Reply”, mas vale ainda incluir “Back to Basics”, do grande Billy Bragg, “Out of Our Idiot”, que compila raridades de Elvis Costello, e “Joe’s Garage”, ópera rock de Frank Zappa gravada em 1979 e lançada como dois álbuns de estúdio separados pelo selo Zappa Records, que foi remasterizado e reeditado como este álbum triplo lançado em 1987. O ano ainda viu disco medianos de Bruce Springsteen e David Bowie, que ficaram fora da lista abaixo. Confira!

1) “Warehouse: Songs and Stories”, Husker Dü
2) “The Joshua Tree”, U2
3) “Document”, R.E.M.
4) “Sign O’ The Times”, Prince
5) “Darklands”, The Jesus and Mary Chain
6) “Pleased To Meet Me”, The Replacements
7) “Strangeways, Here We Come”, The Smiths
8) “Bad”, Michael Jackson
9) “Faith”, George Michael
10) “Appetite For Destruction”, Guns n’ Roses
11) “Kiss Me Kiss Me Kiss Me”, The Cure
12) “Come on Pilgrim”, Pixies
13) “Sister”, The Sonic Youth
14) “Franks Wild Years”, Tom Waits
15) “Kick”, INXS
16) “Echo and The Bunnymen”, Echo and The Bunnymen
17) “Music For The Masses”, Depeche Mode
18) “Songs About Fucking”, Big Black
19) “George Best”, The Wedding Present
20) “By The Light Of The Moon”, Los Lobos
21) “Diesel and Dust”, Midnight Oil
22) “The Lion and The Cobra”, Sinead O’ Connor
23) “Permanent Vacation”, Aerosmith
24) “You’re Living All Over Me”, Dinosaur Jr.
25) “Introduce Yourself”, Faith No More
26) “The Uplift Mofo Party Plan”, Red Hot Chili Peppers
27) “Floodland”, The Sisters Of Mercy
28) “In My Tribe”, 10.000 Maniacs
29) “Hold Your Fire”, Rush
30) “Among The Living”, Anthrax

Playlist no Spotify: 30 canções internacionais com 30 anos

TOP 30 NACIONAL – 1987

Essa é uma lista de memória, e 1987 foi um ano bastante intenso para a música nacional, primeiro com a Legião raspando o fundo do baú e vindo com um álbum que tocou muito com um lado A que era a nossa versão do “punk rock para as massas” e um lado B que fechava citando Lou Reed (“Hey white boy”). No quesito vendagens, os Engenheiros mudaram de formação: Humberto Gessinger foi pro baixo e Augusto Licks assumiu a guitarra e lançou um baita disco que consagrou “Infinita Highway” e “Terra de Gigantes”. Na esteira de “Cabeça Dinossauro”, os Titãs lançaram Jesus “Não Tem Dentes no País dos Banguelas” com “Comida”, “Lugar Nenhum”, “Desordem” e, talvez, a melhor de todas as músicas da banda: “Diversão”.

A prisão inspirou um grande disco hard rock de Lobão repleto de hits, mas a favorita ficou longe das rádios (“Soldier Lips”). O Ultraje vinha de uma grande estreia e não decepcionou com “Sexo!”. O Camisa de Vênus não conseguiu repetir o número de hits do álbum antecessor, “Correndo o Risco” (1986), mas cravou um baita repertório em “Duplo Sentido”, com um lado blues excelente e um de covers ainda melhor. 1987 teve estreia de Nenhum de Nós num grande disco que vai muito além de “Camila, Camila”. Outra grande estreia: Fausto Fawcett. O Picassos Falsos também debutou em 1987, e ainda que este primeiro disco não tenha a força de “Supercarioca” (1989), o segundo, a música “Carne e Osso” sozinha vale mais do que o segundo disco do Capital Inicial inteiro (tanto que “Independência” ficou fora da lista).

Da série álbuns cult que venderam pouco, mas bateram forte, a estreia do Defalla não é só dos grandes discos do ano, mas da década, uma pérola perdida que impressiona até hoje. Mais obscuro ainda é o segundo disco do Metrô, que perdeu a vocalista Virginie e se afundou na psicodelia. Que disco é “A Mão de Mao”, que disco. Outra pérola: “O Striptease da Alma”, Último Número. O clássico “Três Lugares Diferentes”, do Fellini, foi eleito disco do ano na revista Bizz (empatado com o Titãs) enquanto a cena paulista ainda venerava os bons discos de estreia de Gueto (“Estação Primeira”), Inocentes (“Adeus Carne”, que sucedeu o mini-lp “Pânico em SP”) e Nau (“Nau”), Violeta de Outono (“Violeta de Outono”), Harry (“Caos”) e o poderoso “Corredor Polonês”, da Patife Band, além, claro de “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo”, do RDP.

Há mais, há mais: Cazuza voltou com um grande segundo álbum, “Só se For a 2”, e o Biquini Cavadão mostrou mais foco em “A Era da Incerteza”, que merece ser ouvido com seriedade, pois é um grande disco. A Plebe Rude quase tropeçou no segundo álbum, “Nunca Fomos Tão Brasileiros”, mas pariu um grande álbum. Do Sul do país, uma leva de grandes álbuns: a estreia do TNT, um baita disco de Nei Lisboa (“Carecas da Jamaica”) e outro clássico, agora dos Replicantes (“Histórias de Sexo e Violência”). No Rio, Dulce Quental lançou o delicado “Voz Azul” (outro grande álbum que merece ser redescoberto) enquanto Marina retornou com o ótimo “Virgem” (“Uma Noite e ½” é daqui). Ainda há a MPB: Caetano (a bela “O Ciúme” é deste ano), Jards Macalé, Chico Buarque e Luiz Melodia (que lançou o álbum “Claro”). E discos menores como Kid Abelha (“Tomate”), Paralamas (“D ao Vivo”) e Raul Seixas. Ufa!

1) “Que Pais é Este”, Legião Urbana
2) “Papaparty”, DeFalla
3) “Adeus Carne”, Inocentes
4) “A Revolta dos Dandis”, Engenheiros do Hawaii
5) “Três Lugares Diferentes”, Fellini
6) “A Mão de Mao”, Metrô
7) “Jesus Não Tem Dentes no País dos Bnaguelas”, Titãs
8) “Histórias de Sexo e Violência”, Os Replicantes
9) “Carecas da Jamaica”, Nei Lisboa
10) “A Era da Incerteza”, Biquíni Cavadão
11) “Estação Primeira”, Gueto
12) “Corredor Polonês”, Patife Band
13) “4 Batutas e 1 Coringa”, Jards Macalé
14) “Caetano”, Caetano Veloso
15) “Voz Azul”, Dulce Quental
16) “Vida Bandida”, Lobão
17) “Duplo Sentido”, Camisa de Vênus
18) “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo”, Ratos de Porão
19) “Violeta de Outono”, Violeta de Outono
20) “Sexo!”, Ultraje a Rigor
21) “Nau”, Nau
22) “Só Se For a 2”, Cazuza
23) “Francisco”, Chico Buarque
24) “Nenhum de Nós”, Nenhum de Nós
25) “Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros”, Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros
26) “Nunca Fomos Tão Brasileiros”, Plebe Rude
27) “Picassos Falsos”, Picassos Falsos
28) “O Striptease da Alma”, Último Número
29) “Virgem”, Marina
30) “TNT”, TNT

Playlist no Spotify: 30 canções nacionais com 30 anos
Não tem Gueto, Patife Band, Nau e Último Número em streaming, o que abriu espaço para Raul Seixas, Kid Abelha (o álbum “Tomate” é de 1987), Paralamas (com “Será Que Vai Chover?”) e Harry (do EP “Caos”)

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

11 thoughts on “30 discos que completam 30 anos em 2017

  1. boas lembranças, em 1987 eu não tinha toca discos, e então compravas ou pedia para gravarem as fitas cassetes para ouvir músicas.

    Quando era office boy e ao passar em uma loja no Bexiga, eles tinham acabado de receber (ajudei a abrir a caixa), o Adeus Carne dos Inocentes, foi a primeira fita que comprei com um dos meus primeiros salários.

    Da lista também comprei a fita de “Histórias de Sexo e Violência” d’ Os Replicantes e depois os discos “Que Pais é Este” da Legião Urbana e “Estação Primeira” do Gueto.

    Cadê minhas fitinhas? inclusive das gravações de programas de rádio, coletâneas feitas por amigos ou shows gravados na platéia, só sobrou a gravação do Legião Urbana no Parque Antartica.

  2. Só uma correção Marcelo, o primeiro disco do Hüsker Dü pela Warner foi o anterior, Candy Apple Grey de 1986. Grande abraço !

  3. Muito legais as listas, grandes menções para Big Black e Anthrax. Bem provável que meu Top 1 1987 seja Electric do The Cult. Na minha lista também entrariam King Diamond, Pussy Galore e Celtic Frost. Já George Michael não entraria no meu Top 500. Enfim… um grande abraço.

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