Entrevista: Faca Preta

por Marcos Paulino

Fabiano Santos (vocal), Anderson Boscari (guitarra), Dudu Elado (guitarra), Shamil Carlos (baixo) e Guilherme Miranda (bateria) são músicos rodados da capital paulista. Conhecem-se há tempos, passaram por várias bandas da cena roqueira paulistana – Fabiano e Shamil tocaram no Inkognitta, pelo qual também passou Anderson, uma banda que acabou após 11 anos de estrada hc, grind e metal – e andavam meio desencanados da carreira artística.

Até que, em 2013, um show do Blind Pigs, no qual estavam Fabiano, Shamil e Anderson, reacendeu a chama. E dela emergiu o Faca Preta, que mostrou seu street punk num EP com cinco faixas de 2014. Dois anos depois, o quinteto participou do segundo volume da coletânea “Para Incomodar”, lançado pela gravadora Hearts Bleed Blue, que reuniu canções de 10 bandas punk brasileiras. Dai a coisa embalou.

“Gravamos mais dois sons que sairão numa coletânea em fita K7”, avisa Shamil, enquanto Fabiano completa: “Já temos algumas composições pra um novo disco. A ideia é ter algo pra lançar até o fim do ano, mais tardar no começo do ano que vem”. No bate papo abaixo dos dois com Marcos Paulino, do Mundo Plug, parceiro do Scream & Yell, você fica sabendo um pouco mais sobre o Faca Preta.

Os integrantes do Faca Preta já tocaram em várias outras bandas. Como surgiu a oportunidade de se reunirem pra trabalhar juntos?
Fabiano: O Shamil e eu tocamos juntos na Inkognitta, uma banda que começou no punk rock e terminou mais puxado para o HC, metal, crust e grind. O Anderson tocou com a gente nessa banda durante um tempo e com ele gravamos um CD. Depois o Anderson saiu, a banda continuou até meados de 2012, foram 11 anos. Já estávamos meio de saco cheio e decidimos encerrar as atividades. Aí, em 2013, rolou aquele famoso show do Blind Pigs no Cine Joia, nós três estávamos lá, e veio a vontade de montar uma banda novamente, punk rock. E assim surgiu o Faca Preta.

Shamil: A gente sempre foi amigo. Em outra banda, Don Vito & Seus Foguetes, tocamos o Anderson e eu, o Dudu também tocou um tempo. Fora isso, sempre mantivemos contato, frequentamos a casa um do outro.

Desde que a banda surgiu, em 2013, como vocês têm sentido a recepção do público?
Fabiano: Tem sido positiva, sempre cola uma galera no show, pessoal vem conversar com a gente, manda inbox no Facebook da banda. A gente acaba sempre conhecendo uma galera nova, fazendo amizade, interagindo com outras bandas, fazendo uma espécie de intercâmbio. Esse é o lado positivo do que podemos chamar de “cena”. Como exemplo, cito os Rejects SA, de São Bento do Sul (SC). Tocamos com eles aqui em São Paulo e nos tornamos amigos. Pouco tempo depois, fomos tocar com eles em Curitiba, em Rio Negrinho (SC) e na cidade deles.

Shamil: Poxa, acho que só tem melhorado. Quando montamos a banda foi bem despretensioso. Aliás, ainda é, então quando tocamos, lançamos algo, levamos da maneira mais leve possível. Tipo quando recebemos alguma mensagem falando sobre ou comentário no Youtube, já achamos fodaço!

O punk rock já teve momentos de maior visibilidade, mas algo no ar mostra que o gênero vem ganhando força novamente. Vocês acreditam nisso?
Fabiano: Eu, particularmente, acredito sim, vejo muitas bandas boas surgindo e quem gosta, gosta, não tem jeito, não é só uma fase. As bandas de hoje procuram ser mais profissionais, gravar materiais de melhor qualidade, procuram usar equipamentos bacanas e isso acaba trazendo mais gente pros shows. Claro, ainda precisa melhorar, o pessoal anda meio desanimado, com preguiça de conhecer coisa nova, não quer sair de casa pra assistir a um show, e as bandas também precisam se organizar melhor.

Shamil: O punk rock nunca vai morrer ou ser esquecido. Assim como nós, sempre existirão os que acreditam na música e na mensagem.

Inocentes, Garotos Podres e Cólera foram algumas bandas punk que conseguiram, de alguma forma, transcender seu som para um público que não escutava só punk. O Faca Preta pode fazer o mesmo?
Fabiano: Quero acreditar que sim, quanto maior a diversidade de público seguindo a gente, melhor é. A gente busca não se prender a rótulos, a gente toca rock pra quem quer ouvir. Vira e mexe pessoas que não são envolvidas no meio punk vêm elogiar a banda. Principalmente quem conhecia a nossa antiga banda, que era bem difícil de ouvir, hoje, quando escuta o Faca Preta, diz que o som está bem mais acessível e eu acho isso muito bom, pois assim a gente sabe que mensagem que queremos passar pode acabar atingindo um número maior de pessoas.

Shamil: Seria um grande sonho, ainda mais no sentido de conseguir levar uma mensagem contestadora para um público que não está acostumado com isso.

Qual a importância de um projeto como a coletânea “Para Incomodar”, que vem abrindo espaço pra novas bandas?
Fabiano: Lembro que antigamente era uma febre esse lance de coletânea, quase todo mês saía uma, era um excelente meio de se conhecer bandas novas. Às vezes, você comprava por causa de uma banda e acabava conhecendo um monte de coisa legal, e isso foi se acabando. A “Para Incomodar” se mostra como uma resistência no meio disso, o que é muito foda. Já tinha ouvido e conhecido as bandas do primeiro volume, antes de sermos convidados para participar do “Volume 2”, resgatando o que se fazia no passado. Acredito que a história se repete, o pessoal ouve, conhece, divulga, começa a ir ao show, as bandas acabam se conhecendo também, fazendo intercâmbio, e assim a cena se fortalece. Sem falar no reconhecimento internacional que vem também, uma vez que a coletânea é distribuída fora do país.

Shamil: As coletâneas sempre serão importantes, elas marcam uma época, uma cena, um momento dentro do estilo. Quando era mais novo e a internet era difícil, as coletâneas foram ótimas referências para conhecer bandas. As coletâneas “100% Stereo”, “Ataque de Nervos” e “Monday Isn’t Bad Day For All” me marcaram muito. Conheci bandas como Dominatrix, Againe e Elroy através delas.

Vocês gravaram um EP em 2014 e no passado participaram do “Volume 2” da coletânea “Para Incomodar”. Estão preparando um disco cheio?
Fabiano: Sim, já temos algumas composições pra um novo disco. A ideia é ter algo pra lançar até o fim do ano, mais tardar no começo do ano que vem, vamos ver.

Shamil: Junto com a gravação de “Vida Dura”, que acabamos de lançar o clipe e que saiu na coletânea “Para Incomodar Vol. 2”, gravamos mais dois sons que sairão numa coletânea em fita K7 chamada “Oi! The Tape Vol. 3”, do selo Crowd Control Media, lá na gringa. O Blind Pigs saiu no “Vol. 2” dessa coletânea. Fora isso, estamos preparando nosso full.

Que influências têm inspirado as composições da banda?
Fabiano: A gente tem gosto bem variado. Particularmente, me inspiram muito Flicts, Cólera, Blind Pigs, Garotos Podres. De banda de fora, ouço muito Cock Sparrer, Clash, Rancid. Ando ouvindo muito The Interrupters e mais uma porrada de coisas.

Shamil: Eu gosto muito de Bouncing Souls e sempre tento trazer isso para os sons, mas cada um curte uma coisa, o que ajuda muito na hora de compor, já que as várias influências ajudam a temperar nosso som.

Uma aposta do Faca Preta tem sido os clipes. Hoje, o visual tem que andar ao lado do áudio pra chamar a atenção?
Fabiano: Acredito que isso faça parte sim. O público hoje é muito exigente e a parte visual é importante nesse contexto. O Anderson trabalha com isso, o que dá uma facilitada na hora de gravar um clipe.

Shamil: Todo tipo de mídia independente é valido. O clipe alcança pessoas que talvez não estivessem tão interessadas em ouvir a música.

Vocês planejam aparecer mais fora da capital? O que têm feito pra isso?
Fabiano: Sempre está nos nossos planos e estamos sempre procurando formas de tocar fora, seja da capital ou até fora do país. O problema é a logística que envolve tudo isso, os custos, a disponibilidade e o tempo de todos os nós.

Shamil: Por mim, só tocaríamos em outros Estados e no interior, fazendo um ou dois shows por ano em São Paulo. Só não tocamos mais por falta de convite, então pode chamar a gente, entrar em contato, procurar o Faca Preta no Facebook, Youtube, Instagram, Bandcamp, Spotify, que estamos lá e respondemos tudo.

Marcos Paulino é editor do caderno Plug (www.mundoplug.com), da Gazeta de Limeira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *