Três HQs: Superman, Doutor Estranho e Ruínas

por Adriano Mello Costa

“Superman: Fim dos Dias”, de Peter J. Tomasi (Panini)
Chega a dar certa tristeza o que a DC Comics faz com o Superman nos últimos anos. Dentro dos anos 2000, por exemplo, pouco se salva. Várias mentes e mãos se alternaram nesse período e, aliadas com as questionáveis decisões editorais, raramente produziram material de qualidade e que faça jus a um dos pilares dos heróis nos quadrinhos. E quando se pensa que as coisas não podem piorar, bom, é melhor não duvidar. Amostra recente disso é o encadernado “Superman: Fim dos Dias” que a Panini Comics coloca agora nas bancas com capa cartonada e 196 páginas. Estão reunidas as revistas Superman (51-52), Batman/Superman (31-32), Action Comics (51-52) e Superman/Wonder Woman (28-29) lançadas em junho e julho de 2016 nos EUA. Trata-se, como o nome supõe, de um encerramento, mais precisamente da fase do Homem de Aço em “Os Novos 52” e que abre caminho para o novo (outro) projeto da DC chamado “Rebirth” (“Renascimento”, por aqui). Esse encerramento é a morte do Superman que detonado por vários eventos anteriores (que são explicados no volume) está exaurido e fraco, descobrindo que vai falecer e não tem saída ou cura para tanto. Ao mesmo tempo em que isso ocorre, uma nova gama de desafios surgem enquanto ele busca avisar aos mais próximos o que acontecerá. O foco é deixar as coisas acertadas quando não estiver mais por aqui, contudo tem que lidar com as ameaças que aparecem na forma de três envolvidos que também dizem ser o Superman. Em uma trama confusa criada por Peter J. Tomasi (de “Batman & Robin”), quase nada se salva, somente uma arte aqui e outra ali, o envolvimento com a Mulher-Maravilha e o teor emocional do final. No entanto, “Superman: Fim dos Dias” consegue uma proeza rara: desagradar tantos fãs antigos quanto mais recentes e afastar neófitos das revistas do personagem no futuro. Parabéns a todos os envolvidos. De pé.

Nota: 2

“Doutor Estranho – Shamballa”, de J. M. DeMatteis e Dan Green (Panini)
Você tem nas mãos a oportunidade de conduzir a humanidade para uma nova época resplandecente e brilhante onde todo o potencial será alcançado na totalidade e o mundo será um lugar de paz e harmonia. Porém, tem um problema, um inimaginável problema no meio. Para que isso ocorra boa parte da população precisa ser obliterada, 3/4 para ser bem exato, e é você que ditará o processo. Parece papo de cientista maluco, de alguma seita radical ou de um tirano fanático, mas é essa situação que Stephen Strange precisa lidar em “Doutor Estranho – Shamballa” que a Panini Books relançou no país no final do ano passado com 68 páginas, capa dura e formato um pouco diferente do usual (21 x 28cm). Publicada em setembro de 1986 nos EUA, o álbum já tinha ganhado publicação anterior aqui no final dos anos 80 pela editora Abril, mas nem se compara ao capricho e o papel dessa nova edição. O argumento é elaborado em conjunto por J. M. DeMatteis (Moonshadow) e Dan Green (Wolverine), sendo que este último assume sozinho a belíssima arte pintada. A trama inicia quando no aniversário de morte de seu antigo mestre, o Doutor Estranho resolve voltar ao Himalaia para prestar homenagem ao Ancião, mas descobre que este lhe deixou uma incumbência nada fácil de ser resolvida. A missão é aceita com um pouco de dúvida no início e é levada adiante devido a confiança do Mestre das Artes Místicas no mentor e amigo. Entretanto essa dúvida vai aumentando no decorrer da sua ação levando o personagem principal a uma rota que inclui conhecimento pessoal, briga com o passado e a pressão das escolhas. Na verdade, “Doutor Estranho – Shamballa” é sobre isso, o poder das escolhas e o preço cobrado por elas, sendo envolvida por uma arte encantadora e um roteiro bem elaborado.

Nota: 7

“Ruínas”, de Peter Kuper (Jupati Books)
Peter Kuper nasceu em 1958 nos Estados Unidos e se destacou no mundo dos quadrinhos por conta da revista “World War 3 Illustraded” e da tirinha “Spy Vs. Spy” que sai pela “MAD Magazine” desde o final dos anos 90, porém têm diversas outras obras no currículo que trazem sempre que possível um afiado olhar crítico tanto político, quanto social. Uma dessas obras foi lançada aqui na Comic Con Experience Brasil 2016 onde o autor esteve conversando e dando autógrafos. “Ruínas” (Ruins, no original) é de 2015 e chegou ao país pelo selo Jupati Books da Marsupial Editora. São 326 páginas de uma história magistralmente construída pelo autor e com uma arte do grau mais elevado possível. Peter Kuper entrelaça em “Ruínas” a busca de um casal para se encontrar com a viagem de uma borboleta monarca que migra do Canadá para o México e se constitui como observadora afiada. Samantha e George saem para um ano sabático de Manhattan para Oaxaca, no México, onde a esposa quando jovem já passou um período e deixou alguns fantasmas. Ela, em teoria, pretende acabar de escrever um livro lá e ele, desempregado, busca se renovar e projetar novos caminhos. Todavia, mais no fundo está o objetivo maior de deixar o casal mais alinhado e resolver questões pertinentes como a geração ou não de um filho em um mundo tão caótico e destrutivo. Mas o ambiente mexicano oferece outras nuances e quando menos se espera os dois estão envolvidos na briga política que acontece na região, com greves, opressões, corrupções e abuso policial. Enquanto isso, a borboleta monarca passa por cidades com violência explodindo, fábricas contaminando o ar e rios completamente poluídos atestando todo o nosso cuidado com o mundo em que vivemos. “Ruínas” ganhou o conceituado prêmio Eisner no ano passado de melhor álbum gráfico, o que é justíssimo, pois é uma obra sensacional em todos os quesitos.

Nota 10

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) assina o blog de cultura Coisa Pop

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