Boteco: 10 cervejas brasileiras

por Marcelo Costa

Abrindo mais uma série de cervejas nacionais por Minas Gerais, casa da Wäls, que já passou por este espaço diversas vezes, agora representada pela Session Willy, versão da Session Citra (muito bem recebida pelo mercado) sem Citra, mas com trigo e o lúpulo alemão Callista. Na taça, a Session Willy apresenta uma coloração amarela puxado para o palha com creme branco de ótima formação e retenção. No nariz, notas cítricas sugerindo limão siciliano, um leve floral e capim limão sobre uma base suave de doçura de trigo. Na boca, textura levemente picante e posteriormente cremosinha. O primeiro toque reforça a pegada cítrica com bastante leveza e doçura baixa subsequente. O amargor também é baixo (28 IBUs) e abre caminho para um conjunto refrescante e que entrega o que promete, sem invencionices, finalizando de forma leve, cítrica e refrescante.

A segunda também, assim como a primeira, é do domínio Ambev: Colorado Nassau, o novo experimento da cervejaria de Ribeirão Preto, uma Session White IPA (ou seja uma India Pale Ale com trigo) que recebe adição de suco de caju e dry hopping do lúpulo Equinox. Na taça, uma cerveja de coloração amarelo palha levemente brilhante com creme branco de ótima formação e retenção, a Colorado Nassau exibe um aroma com lúpulos à frente distribuindo notas cítricas (laranja e mamão), florais e um levíssimo herbal sugerindo aroma campestre. Também é possível perceber o caju. Na boca, a textura é levemente picante. O primeiro toque exibe leve doçura cítrica seguida de amargor baixo (47 IBUs que soam uns 35), que abre as portas para um conjunto refrescante entre o cítrico dos lúpulos e a doçura do trigo e da cevada. No final, leve secura e refrescancia. Já no retrogosto, cítrico, doçura e refrescancia. Boa.

A terceira da série vem de Itatiba, interior de São Paulo, mais propriamente de uma cervejaria comandada por mulheres, a Freising Bier, nascida em 2008, mas cuja história que remonta a 1994, época em que Gláucia Puccinelli foi estudar (e formar) na mítica Universidade Técnica de Munique (Weihenstephan) como mestre cervejeira. O cardápio da casa soma mais de uma dúzia de rótulos, boa parte deles disponível no brewpub da cervejaria e também em garrafas. Essa Saison Citra é uma cerveja de coloração levemente dourada com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, bastante doçura em meio a frutas cítricas (abacaxi, mel, caramelo, pêssego) e nada da acidez rebelde do estilo. Na boca, textura seca. O primeiro toque oferece doçura caramelada com baixa presença cítrica e nada da aridez frisante do estilo. O amargor é bastante baixo (os 31 adiantados até soam muito) e, dai pra frente, a Saison Citra soa mais uma Golden Ale (sem tanto corpo), não uma Farmhouse. O final é seco e docinho. No retrogosto, mel e pêssego.

Da capital paulista e totalmente artesanal, a segunda Cerveja Cavalo a surgir nesse espaço é uma Witbier Sorachi Ace, edição limitada do estilo belga com acréscimo do sensacional lúpulo japonês (que alguns cervejeiros norte-americanos amaram tanto que começaram a cultiva-lo no Oregon, EUA). De coloração dourada com creme branco de ótima formação e média alta retenção, a Cavalo Witbier Sorachi Ace exibe no aroma suaves notas cítricas condimentadas (marca registrada do lúpulo) e leve floral sobre uma base delicada de caramelo e leve pão. Na boca, a textura é levemente picante e vai ficando suave. O primeiro toque traz leve cítrico, doçura baixa e discreto condimentado, e nada de uma Witbier tradicional, com o Sorachi Ace levando o conjunto para um lado mais Saison. O amargor é baixo e abre as portas para um conjunto suave e refrescante, com cítrico (abacaxi!), doçura e trigo bem agradáveis. O final é seco e levemente picante. No retrogosto, abacaxi, leve condimentado e refrescancia!

A quinta da série é uma receita especial criada pela Blondine, de Itupeva, interior de São Paulo, para o mítico Empório Alto de Pinheiros, uma cerveja de trigo bastante lupulada que atende pelo nome auto-explicativo de Hoppy Wheat. De coloração amarela turva com creme branco de ótima formação e média alta retenção, a Blondine EAP Hoppy Wheat apresenta um aroma bastante cítrico, com deliciosas notas frutadas sugerindo abacaxi, laranja lima e limão siciliano combinando com a base suavemente doce de malte. Na boca, a textura é picante. O primeiro toque oferece um balde de frutas cítricas seguindo por doçura de trigo e amargor caprichado que soa um tiquinho a mais dos 27 IBUs que a casa adianta (por volta de 40). Dai pra frente surge um conjunto altamente refrescante, de belo corpo e com uma pegada cítrica deliciosa. O final é amarguinho e cítrico. No retrogosto, um pouco de doçura, laranja, limão e abacaxi. Que bela cerveja!

Colaborativa dos curitibanos da Way Beer com o… mítico Empório Alto de Pinheiros (outra), a Way EAPeated é uma Sour deliciosamente provocante com levedura Brett e malte turfado. De coloração âmbar alaranjada com creme branco de baixa formação e rápida dispersão, a Way EAPeated exibe um aroma notadamente influenciado pela turfa sugerindo defumado, peito de peru, bacon suave e fumaça com leve percepção de azedume e acidez. Na boca, a textura é levemente acética, menos do que se espera, pois a frisância é baixa por falta de carbonatação. O primeiro toque traz turfado rápida seguido de azedume e acidez mais intensos do que no aroma, equilibrando de maneira torta o conjunto, que não prima por amargor, mas azedume. Dai em diante, o conjunto se sustenta entre azedume, acidez e turfado, finalizando de maneira terrosa (e nada dos 7.2% de álcool). No retrogosto, mais terroso, acidez discreta, azedume e turfa equilibrados. Bem boa!

Homenagem da cervejaria curitibana Bodebrown a São Arnould, responsável pela pacificação na região de Flanders, Bélgica, e pela reconstrução da Abadia de Oudenburg no século XI, a Saint Arnould 6 é uma Belgian Dubbel de abadia de coloração âmbar escura, meio marrom, com creme bege claro de boa formação e média retenção. No nariz, doçura de caramelo em destaque seguida de toffee, biscoito, floral, canela, leve condimentação e álcool. Na boca, a textura é levemente áspera e picante, mas vai se tornando cremosa. O primeiro toque reforça a pegada de caramelo, que se destaca. Na sequencia, toffee, canela e biscoito, reprisando o que o aroma já tinha adiantado. Não se preocupe com amargor, mas sim com os 7% de álcool bastante presentes, picando a língua e deixando um risco na garganta. O final é meladinho e alcoólico. No retrogosto, caramelo, toffee e álcool.

A Heilige, de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, marca presença com sua Saison, que utiliza o lúpulo alemão com características norte-americanas Hallertau Blanc. De coloração ambar levemente turva com creme branco espesso de ótima formação e média alta retenção, a Heilige Saison exibe um aroma bastante adocicado e com percepção de banana. Há leve remissão a levedura com suaves notas ariscas e um tiquinho de uva branca. Na boca, a textura é picante e cremosa. O primeiro toque traz aridez cítrica (uva verde) seguida de caramelo, leve terroso, caramelo e laranja. O amargor é baixo (26 IBUs), mas a levedura provoca o bebedor num conjunto terroso, frutado (banana, uva verde e laranja) e levemente adocicado. O final é seco e terroso. No retrogosto, uva verde, caramelo e laranja.

A antepenúltima da série é mais uma aposta frutada da Colorado, que após uma Session IPA com Uvaia (Eugênia) e a versão de White IPA com suco de caju (Nassau) surge agora com esta Cream Ale com Graviola que atende pelo nome de Murica. De coloração dourada com creme branco de boa formação e média retenção, a Colorado Murica exibe um aroma discretíssimo com uma leve sugestão de graviola sobre uma base de malte sugerindo biscoitos, trigo e caramelo. Na boca, a textura é levemente seca (Cream Ale?). O primeiro toque reforça a timidez do aroma com leve percepção de graviola seguida de doçura de malte. O amargor é baixo e abre caminho para um conjunto discreto que continua com a graviola tímida em destaque até o final. No retrogosto, graviola e trigo.

Mais uma da série artesanal, a Cervejaria Risoflora ocupa o último andar do tradicional Edifício Pernambuco, em plena Av. Dantas Barreto, no centro de Recife. A primeira deles a passar por este espaço é a American IPA da casa, de coloração âmbar levemente turva e creme branco de ótima formação e média alta retenção. No nariz, notas cítricas agradáveis sugerindo laranja, manga e goiaba com leve percepção herbal e resinosa. Na boca, a textura é levemente picante e cremosa. O primeiro toque reforça a pegada lupulada da receita, com laranja, maracujá e goiaba. O amargor é potente, mas não chega aos 60 IBUs prometido (uns 45 estão de bom tamanho). Dai em diante surge uma cerveja robusta, lupulada, frutada e bem aconchegante, com amargor limpo e um levíssimo traço de resina, que segue até o final, refrescante. No retrogosto, laranja, maracujá e uma suave doçura de caramelo. Muito boa!

Balanço
A primeira dessa nova seleção Brasil é uma variação da linha Session, da Wäls, aberta com a ótima Session Citra, e que aqui recebe sua segunda adição, Session Willy, uma American Wheat delicadamente lupulada e refrescante. Entrega o que promete, mas soa inferior a Citra. A Freiseng Saison Citra não me soou dentro do estilo Farmhouse. Falta frisância, picância e todas as características que e levedura Saison acrescenta ao estilo. Do jeito que está, a Saison Citra lembra uma boa Golden Ale belga. Partindo para a caseira Cavalo Witbier Sorachi Ace, que soa um tiquinho mais caramelada do que deveria, mas o lúpulo Sorachi se destaca numa cerveja leve e refrescante. Com um incrível custo/benefício, a Blondine EAP Hoppy Wheat é uma cerveja de trigo lupuladissima e deliciosa. Uma das boas surpresas desta sessão, a Way EAPeated poderia ter uma carbonatação mais alta para valorizar a acidez, mas do jeito que está parece uma boa receita para neófitos nos estilos Smoked e Sour. A Bodebrown Saint Arnould 6 me decepcionou um tiquinho. As seis medalhas em seu rótulo não justificam uma cerveja com álcool saltando pra fora da taça (e olha que são só 7%). A Saison da Heilige é interessante, mas doce (e com banana) demais pro estilo. Já a Colorado Murica foi uma decepção por ser uma Cream Ale que não remete nada ao estilo Cream Ale com um leve sabor de graviola. Dispensável. Fechando a série, uma caseira de Recife, Risoflora Flor do Mangue, refrescante e saborosa India Pale Ale.

Wäls Session Willy
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3,10/5

Colorado Nassau
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.8%
– Nota: 3,25/5

Freising Saison Citra
– Produto: Farmhouse Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,01/5

Cavalo Witbier Sorachi Ace
– Produto: Belgian Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3,01/5

Blondine EAP Hoppy Wheat
– Produto: Pale Wheat Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3,45/5

Way EAPeated
– Produto: Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.2%
– Nota: 3,67/5

Bodebrown Saint Arnould 6
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,27/5

Heilige Saison
– Produto: Farmhouse Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.4%
– Nota: 3,17/5

Colorado Murica
– Produto: Cream Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 2,78/5

Risoflora Flor do Mangue
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.1%
– Nota: 3,31/5

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