Entrevista: Héloa

por Marcelo Costa

“Uma voz que canta ventos e avenidas, amizades e mudanças, sorrisos e silêncios, amores e lembranças”. É assim, de forma poética, que começa o release que apresenta “Eu”, belo álbum de estreia da cantora sergipana Héloa, que trocou o “aconchego de Aracaju” pela “atmosfera urbainóide e um tanto caótica” de São Paulo, uma megalópole que “ensina a viver o aqui e o agora e a reduzir danos e expectativas”, segundo ela.

Com uma persona artística apaixonada pela “música popular nordestina e brasileira”, Héloa encontrou nos amigos e produtores Daniel Groove e João Vasconcelos a companhia perfeita para traduzir sua musicalidade de interprete: das 12 canções do álbum, Héloa assina apenas “A Avenida”, em parceria com Eduardo Escariz. Sua busca pessoal era encontrar um elo musical que transitasse entre sua “vivência em Aracaju, e o novo momento em São Paulo”.

Dentro desse cenário, Héloa pescou canções de Otto (“Crua”) e também de Geraldo Azevedo e Alceu (“Caravana”). O primeiro single do disco, “Calei”, ganhou um clipe filmado em uma fábrica de canela. “Esse local e sonoridade, em Aracaju, de alguma forma, também me conectava com São Paulo e seu fluxo acelerado e ruidoso”, conta Héloa, que saúda o grande momento da música sergipana: “Ela quer falar ao mundo”. Assista ao clipe, baixe o disco (gratuitamente) e confira o papo.

“Eu” é seu disco de estreia, após o EP “Solta”. Como você o define musicalmente? Qual sonoridade você busca que acabou resultando no álbum?
Exatamente. O “Eu” veio três anos depois do meu EP “Solta” e foi justamente o tempo necessário para que eu pudesse decantar e entender muita coisa em relação ao que eu queria musicalmente. Sempre tive como referência a minha vivência em minha casa, em Aracaju, mais precisamente o que ouvia ao lado de minha família, minha mãe, vó, vô e meu pai. Sempre fui uma apaixonada pela canção, pela música popular nordestina e brasileira, pela música romântica. E era exatamente isso que queria para o “Eu”, trazer a canção em primeiro plano, explorar meu lado interprete, e buscar sonoridades que transitassem entre meu universo e minha vivência em Aracaju, e o meu novo momento em São Paulo. Não buscamos definições nesse processo e acho que isso é que faz o disco ser o que ele é.

Como foi trabalhar com Daniel Groove e João Vasconcelos, que produziram “Eu”?
Foi uma baita experiência, a minha conexão com o Daniel vem muito nesse sentido de comungarmos do mesmo pensamento e referências musicais. Essa sintonia surgiu logo de cara, e antes mesmo quando eu já admirava seu trabalho como artista. Como produtor, ele procurou me conhecer um pouco mais e não só musicalmente, mas a artista como um todo, passamos meses buscando referências musicais, nas artes visuais, fotografias, filmes, me apresentou composições suas e de outros compositores, dai escolhemos as canções, e as tocamos bastante no violão com o auxílio do parceiro Eduardo Escariz (também presente no disco) e foi a partir desse processo que o Daniel foi desenhando cada canção antes mesmo de entrar no estúdio. Quando entramos, tudo o que Daniel já tinha como referência se somou com o que o João Vasconcelos pensava. O João, que possui um olhar mais técnico, foi fundamental na composição dos arranjos, além de tocar vários instrumentos nos disco e até mesmo me auxiliar nas intenções vocais para cada música.

Há algumas regravações no álbum, e queria destacar “Caravana”, do Geraldo Azevedo e do Alceu, e “Crua”, do Otto. Por que essas canções?
Esses são artistas que sempre admirei e ouvi bastante, o Otto eu tive a honra de conhecê-lo em 2014 e a partir dai passou a ser uma figura também muito importante nesse meu processo de mudança de Aracaju para São Paulo. Há tempos tinha dito para ele que queria gravar uma canção sua, a ideia era ele compor uma especialmente para o disco, mas, no processo, senti esse desejo de regravar “Crua” que, particularmente , é uma das suas canções que mais gosto. Ele não pestanejou em liberar. Escolhi principalmente pela visceralidade da canção. Pela linguagem poética e “dissolvida”. “Caravana” não foi diferente, me senti chamada pela canção, em meio ao processo de mudança que vivia na cidade de São Paulo, em algum momento me peguei cantando-a algumas vezes, a frase “a vida é cigana” vinha a tona como um mantra. Até que, em uma tarde, fui até o estúdio Cambuci Roots, sentei com o João Vasconcelos, e a fizemos. A gente já tinha vontade de regravar alguma canção do cancioneiro popular brasileiro. Ela veio como uma luva. Todas as canções foram escolhidas por um processo de conexão, elas falam por mim, mesmo que as não tenha escrito, e me vejo em cada uma delas. Por isso busquei contar e costurar uma história a partir daí. Esse “Eu”, repleto de vários “eus”. Costumo dizer que não gravei um disco, mas vivi um. E assim as canções chegaram: de um processo natural e intuitivo. Imersão.

“Calei” foi escolhida para ser o primeiro clipe do álbum, certo? Como foi pensar um clipe para essa canção?
Ele é um seguimento do processo de concepção artística da capa do disco que teve sua ideia concebida alguns meses antes. Eu e o Bruno Sousa (designer gráfico que assina a capa) conversamos muito sobre as minhas vivências até chegar no nome e imagem do disco. O clipe não foi diferente. O Gabriel Barretto, que dirigiu e captou as imagens, tá comigo nesse processo desde muito tempo e me conhece bastante. Não precisamos falar muito. Simplesmente priorizamos sentir até mesmo o que a música nos fala, “Calei, mas foi só pro meu corpo se expressar melhor”. O lugar escolhido foi a fábrica de canela de um vizinho de onde morei 25 anos e foi escolhido por fazer parte de uma memória muito sensorial minha. Nessa mesma fábrica, que exalava cheiro de canela pela rua, tinham sons de máquinas funcionando pelo dia e pela noite e música, pois o proprietário, também músico, a utilizava para ensaio. Esse local e sonoridade, em Aracaju, de alguma forma, também me conectava com São Paulo e seu fluxo acelerado e ruidoso, pontos que muito me assustaram e me chamaram a atenção quando fui morar lá. Então, a gente foi à fábrica com várias referências e sabíamos o que queríamos, mas também nos deixamos conduzir pelo acaso e o momento. Um tanto de vivência e performance art. Tava calor, a canela aqueceu meu corpo, cheguei a passar mal, soltei o cabelo, sujei o vestido e segui a dança. Assim o foi.

Alguns meses atrás, o Bruno Montavão publicou um texto sobre o grande momento da música sergipana, e era um texto tão especial que pedimos autorização a ele para republicarmos no Scream & Yell. Como você vê esse atual momento da música de Sergipe?
Sergipe é um celeiro de grandes artistas, atores, compositores, músicos, poetas… Vivencio isso desde sempre. Através do meu pai, também músico, pude estar inserida desde muito pequena nesse meio. Atualmente o cenário tem cada vez mais se fortalecido e temos grandes artistas alcançando visibilidade nacional e abrindo esse olhar cada vez mais curioso para o nosso estado. Acredito que estamos em um ótimo momento apesar da dificuldade de investimento e credibilidade. Mas, ao mesmo tempo, como artistas independentes que somos, estamos sempre nos reinventado e aprendido cada vez mais como andar no “caminho das pedras”, isso tem nos fortalecido aproximado mais ainda do nosso público. As redes sociais são fundamentais nesse processo. Mesmo para mim, que decidi morar em São Paulo há mais de um ano, busco estar sempre conectada com o que acontece em meu estado, e, a cada retorno que faço, fico encantada de ver uma nova geração de músicos e artistas se profissionalizando e selançando no mercado. Faço das palavras do Bruno Montalvão as minhas: está “pulsando cada vez mais forte” e “quer falar ao mundo” ao citar boa parte destes artistas como The Baggios, Coutto Orchestra, Arthur Matos, Sandy Alê, Alex Sant’anna, Lau e Eu , The Renegades of Punk, e tantos outros…

Agora você vive em São Paulo, certo? Como está sendo a sua experiência de viver nessa cidade tão incrível quanto terrível?
Tem sido incrível quanto terrível. (risos) Mas deixo o terrível muito mais para o início dessa minha mudança, no que tange a minha adaptação, estranhamento e todo processo de imersão nessa cidade. Em muitos momentos senti falta da minha cidade e do meu litoral, da leveza e aconchego de Aracaju. A atmosfera urbainóide e um tanto caótica, a condução de algumas relações sociais, em São Paulo, me assustaram bastante no início. Mas tudo isso foi se dissolvendo com o tempo. Hoje me sinto muito bem na cidade, criei grandes e fortes laços e me sinto muito bem acolhida, além do momento “incrível” que tenho vivido com a boa repercussão do disco. Está sendo delicioso viver e estar em contato com grandes artistas e acontecimentos e era exatamente justamente isso que eu queria quando decidi vir, aproveitar tudo que ela me oferece em termos de vivência. A decisão não foi fácil, mas com o tempo tudo entra no trilho. Hoje me sinto em casa, tenho uma família aqui mas sempre que posso vou me reenergizar em Aracaju, estar nesse fluxo também me agrada, é uma maneira de aprender a viver bem onde quer que esteja e necessariamente não pertencer a nenhum lugar. São Paulo foi e é uma grande mãe nesse sentido, ensina a viver o aqui e o agora e a reduzir danos e expectativas.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de José de Holanda / Divulgação.

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