Três perguntas: Esdras Nogueira

por Leonardo Vinhas

Esdras Nogueira passou 15 anos no Móveis Coloniais de Acaju, um dos mais curiosos casos da música independente brasileira. A banda circulou por quase todos os festivais de peso, teve discos produzidos por Carlos Eduardo Miranda, ganhou status de cult em várias cidades por onde passou (em especial sua Brasília natal), virou case de gestão de carreira e fundou seu próprio festival, o Móveis Convida. Ainda assim, em 2016 eles anunciaram a famosa “pausa por tempo indeterminado”, deixando seus componentes mais envolvidos em outros projetos.

Esdras já embalara na carreira solo em 2014, com o álbum “Capivara”, dedicado inteiramente a releituras de Hermeto Pascoal. “NaBarriguda” (assim mesmo, tudo junto), de 2016, veio com mais reinterpretações (de Hamilton de Holanda, Cartola e Egberto Gismonti), porém trouxe composições próprias, e envereda claramente por um caminho mais dançante, dando a tônica das apresentações ao vivo que agora ele começa a levar pelo Brasil e logo depois chegará a palcos europeus.

Se é verdade que ao vivo o saxofonista apresenta um show tão dançante quanto na época do Móveis (ainda que menos festivo e baseado em uma estética diferente), também é fato que ele encontrou melhor tradução para sua sonoridade em estúdio, um ambiente no qual sua antiga banda não apresentava resultados tão bons. “O Móveis foi minha escola durante mais de 15 anos. As linguagens musicais são diferentes, sim, mas o jeito de pensar é o mesmo, com liberdade pra fazer o que achar legal. E assim como nos shows do Móveis, gostaria que as pessoas saíssem felizes e que a música as tocasse, conta Esdras, por e-mail, ao Scream & Yell.

Da estrada, pouco antes de seu segundo show em São Paulo, o músico respondeu a outras perguntas sobre essa “estrada sem letras”, que o leva tanto por Taguatinga (DF) como pelos países ibéricos.

A linguagem instrumental sempre esteve presente na música brasileira – aliás, o instrumental precede a canção. Mas a profusão de bandas instrumentais – de diversos estilos – em festivais e em shows sugere que ela atravessa um momento muito bom, com mais popularidade do que tinha em décadas recentes. Você concorda?
Realmente, a música instrumental está num bom momento. Hamilton de Holanda é dos artistas brasileiros com mais visibilidade no exterior, esse é um bom exemplo. Acho que os artistas instrumentais estão tão preocupados com o publico e em tocar uma carreira quanto com o som. Pensar nessa relação é fundamental. Não adianta fazer um som que agrade só aos músicos e depois ninguém mais entende nada. Eu adoro musica instrumental bem esquisita, mas pensar na relação com o publico também me agrada. O Hermeto é ótimo nisso, ele faz um som super particular, que ninguém mais faz, e ao mesmo tempo é um showman que conquista todo mundo ao vivo.

Por outro lado, temos aquelas pessoas que entendem “música instrumental” como um rótulo, como se o que você faz fosse o mesmo que, digamos, o Bixiga70, ou mesmo Os Gatunos (risos). Existe um meio bacana de “educar” o público no sentido de compreender que todo gênero musical pode ser instrumental?
Acho sim, mas sem ser pedante ou como se soubesse mais que qualquer um. O processo de tocar, apresentar o som, e entender o resultado precisa ser natural e agradável, seja pro Bixiga, Passo Largo ou Egberto Gismonti.

Você tem shows já agendados na Alemanha. Acredita que sua música possa ter maior repercussão no exterior, já que pode pesar o “exotismo” da música brasileira junto aos públicos locais?
Na verdade, vou à Alemanha participar do Jazzahead, uma feira de negócios importante do meio instrumental. Mas não vou tocar, vou porque quero entender como funciona o mercado europeu e apresentar meu trabalho. Em julho sim, faremos shows em Portugal e Espanha, e espero que tenham uma boa repercussão que nos faça voltar mais e mais. Mas não quero deixar de fazer shows pelo Brasil, aqui tem um mercado muito legal de festivais de música instrumental, e agora que o Móveis parou, estou contente com a possibilidade desse recomeço. Quero tocar onde me chamarem e apresentar o trampo.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell. A foto que abre o post é de Celio Maciel / Divulgação.

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