Entrevista: PWR Records

por Renan Guerra

Numa das melhores faixas de 2016, Salma Jô, da banda Carne Doce, canta: “Meu sexo sempre é um impasse / É a razão pra me acusar”. Um impasse desdobrado dentro de “Falo”, penúltima faixa do disco “Princesa”, que representa uma busca cada vez maior pela voz feminina dentro da música independente. E aqui não se fala em conceitos pré-estabelecidos de feminilidade, se fala das mulheres buscando seu espaço de fala e de liberdade criativa para falarem sobre o que bem entenderem.

Nesse sentido, Hannah Carvalho (19) e Letícia Tomás (20), meninas que têm movimentado intensamente a cena nordestina, se uniram a Nanda Loureiro, do selo cearense Banana Records, para construir uma lista colaborativa on-line que desse conta de mapear essas mulheres que trabalham com música independente, desde carreiras solo até bandas (que podiam incluir apenas uma integrante feminina). Entre os meses de julho e setembro de 2016, elas registraram 310 grupos com ao menos uma integrante, sendo que 44 são exclusivamente de meninas ou projetos solo. No final das contas, a maioria desses projetos se concentra na cidade de São Paulo, com 83 artistas.

Com esses números em mãos, Hannah e Letícia chegaram à conclusão que mais importante que dados, era a ação, por isso decidiram fundar, em Recife, a PWR Records, que visa lançar artistas femininas, mas mais que isso, dar suporte a todo o ciclo de lançamento e ao fortalecimento dessa cena. Com o conceito de que “o futuro é feminino”, as garotas lançaram esse ano o primeiro single da PAPISA – a.k.a. Rita Oliva, integrante das bandas Cabana Café e Parati (ambas em hiato) – chamado “Instinto”.

Para compreender melhor essa empreitada das garotas, conversei com Letícia Tomás, uma das metades da PWR. Confira!

A PWR começou inicialmente com uma pesquisa: era um mapeamento da presença feminina na música independente brasileira, certo? Como que surgiu essa ideia (ou mesmo necessidade) da pesquisa?
Foi isso mesmo. Era uma planilha que eu fiz pra eu mesma sabe? Para servir de base para uma zine que eu queria fazer, mas eu enrolava demais pra fazer tudo só (haha). Ai chamei Nanda, da Banana Records, e Hannah pra me ajudar a organizar tudo. Daí a Nanda postou a lista no grupo da Sinewave e em horas já tinha umas 100 bandas.

Mas os resultados dessa lista surpreenderam vocês? O que levou até o desenvolvimento da PWR?
A lista hoje tem 300 bandas, me surpreendeu. Mas percebi que a gente conhecia poucas daquelas bandas, a ideia depois da lista era fazer um site pra fazer matérias sobre cada uma, criar uma forma de separar todas por gêneros pra ficar mais fácil de achar e tal, mas isso era muito complicado, aí a gente desistiu. Hannah sempre quis fazer um selo e eu sempre quis trabalhar com música feita por mulheres. Depois de muito vai-não-vai e muito apoio dos nossos amigos, criamos o selo.

O primeiro lançamento do selo foi da PAPISA, que é o novo projeto da Rita Oliva, como foi esse processo e a escolha desse nome para marcar o início da trajetória de vocês?
A gente já estava com tudo idealizado pra lançar o selo, e a Rita já estava com quase tudo pronto para lançar a PAPISA. Aí nossos amigos em comum fizeram a ponte: nos apresentaram o projeto dela, e apresentaram a ela nosso projeto. Desde o início a gente já teve uma sincronia muito massa. O conceito do trabalho dela é muito parecido com o nosso, eram duas coisas totalmente novas, femininas e feministas.

Pelas suas falas, fica claro que parte fundamental do nascimento da PWR tem relação com essas trocas de contatos e tudo mais, o que podemos considerar como uma base importante para que o feminismo se estabeleça, não? Você percebe essa união como cerne do trabalho de vocês?
Com certeza! Nada disso aconteceria se fizéssemos tudo sós, trabalhamos com troca de conhecimento, ideias e mensagens motivacionais hahah.

Uma nossa pesquisa agora foi lançada por vocês, focando nas minas que trabalham no backstage. Como surgiu a necessidade de mapear essa presença?
Quero, além de divulgar o som, ajudar a produzir. Criar uma rede de contato, quando uma mina quiser produzir seu som, indicamos uma mina pra ajudar, outra pra mixar, outra pra fazer a arte e tal.

Super legal essa ideia! Ontem mesmo eu estava lendo um post da Karina Buhr sobre ela sempre ter que reafirmar que é responsável pelo trabalho dela, que compôs, que fez aquilo sem o apoio de um homem. E isso é ressonante do fato do Brasil muitas vezes ser visto como um “país de cantoras”, mas mulheres que sempre precisam estar cercadas de homens. Vejo nestes últimos anos um debate importante sobre isso (no próprio trabalho da Buhr, do Carne Doce, da Aíla). Como você percebe esse cenário? Acredita que esse é um momento de mudança e de as mulheres assumirem seu espaço de fala sem interlocutores?
Mulher sempre foi vista como intérprete só, né? É foda demais vê-las se impondo e mostrando sua autonomia artística.

Após o lançamento inicial, vocês já têm outros projetos engatilhados ou algum lançamento que pode ser adiantado para nós?
A gente tá conversando sobre muitos lançamentos e parcerias, mas acho melhor não falar agora não hahaha. Posso adiantar que em breve lançamos o próximo single da PAPISA!

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Scream & Yell

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