Conexão Latina: A Band of Bitches

por Leonardo Vinhas

Uma banda de putas. Não é o melhor dos nomes para se ter quando você pensa em expor sua música em países onde o inglês é falado ou amplamente compreendido, mesmo sem ser o idioma oficial. Mas, de muitas formas, não havia nome melhor para A Band of Bitches, projeto paralelo de integrantes de várias bandas famosas mexicanas que, em menos de quatro anos, conseguiu uma projeção muito maior do que imaginavam ao montar o grupo.

A identidade dos integrantes permanece oculta sob diferentes máscaras. Em princípio, elas serviam para dissociar a música nova do A Band of Bitches dos trabalhos que consagraram os músicos. Agora, já se tornaram parte da identidade, forjada em vídeos de alta rotação no Youtube e em apresentações que já passaram por festivais como o estadunidense South by Southwest e muitos mexicanos, Vive Latino, Desert Fest, Festival Internacional del Globo e outros. A música, dançante, moderna e tão bem-executada quanto vulgar, é um amálgama de rapidíssimos beats eletrônicos, folclore local, rock e hip-hop.

“The Pre End of the World Sountrack” é o único álbum até o momento. Dois EPs, os volumes 1 e 2 de “Chingadazos Musicales”, se seguiram (um terceiro deve sair em breve) e agora, em 2016, causam com “El Diablo Güero”, canção que pega pesado no tema da imigração latina para os EUA e que foi feita sob encomenda para a trilha sonora do filme “Desierto”, de Jonas Cuarón (roteirista do premiado “Gravidade”) e estrelada por Gael García Bernal.

O vocalista Ushka Rappat atendeu à chamada por Skype mascarado e fumando um cigarro eletrônico. Não escondeu sua surpresa em estar falando com um veículo brasileiro – algo que, em seu entender, só foi possível porque a indústria musical mudou. Leia a entrevista e saiba que ele quer dizer com isso.

“El Diablo Guero” é uma canção bastante direta sobre o momento atual. O que vocês esperam gerar com essa canção? A quem vocês esperam que ela chegue?
Para ser sincero, não compus a canção pensando na situação política atual dos Estados Unidos. A inspiração é sobre a questão migratória do México aos Estados Unidos, e tampouco foi uma crítica ao governo norte-americano, e sim ao governo do México. Aqui não há oportunidades de vida, então temos que buscar a imigração. A canção foi escrita sob encomenda para o filme “Desierto” e nos baseamos em assuntos de conhecidos que passaram por esse tipo de situação. A canção nada mais que é uma fotografia. Inevitavelmente, ela pode ser associada com os Estados Unidos, ou até com o que está acontecendo em outros países, mas aí dizer se essa associação é certa ou errada não é algo que me cabe. É uma canção tão subjetiva que qualquer um pode buscar seu significado.

Dada essa subjetividade, não custa então perguntar como as pessoas estão entendendo e aceitando essa canção aí no México.
As pessoas gostam! Acho que algumas pessoas se identificam com a letra, mas acho que as pessoas se pegam mais pela música mesmo, porque ela é bastante, digamos, autóctona – ou regional – e está relacionada com a música moderna, dançante, até roqueira. Aqui no México, por muito tempo, os gostos estavam divididos entre o que era a música estrangeira e o que era a música regional, e, afinal de contas, todo mundo gosta dos dois estilos. Sempre buscamos encontrar a maneira de fazer esses estilos se encontrarem, e é exatamente isso que estamos tentando fazer agora.

Algumas reportagens recentes sobre A Band of Bitches comparam a banda com Café Tacuba ou Molotov exatamente por essa premissa de combinar o folclórico e o moderno. O som de vocês não têm uma sonoridade que remeta diretamente a essas duas bandas, mas de alguma maneira vocês se sentem herdeiros dessa tradição que lhes apontam?
Sim, eles definitivamente são influências, e são bandas que estão tomando suas raízes folclóricas e levando para rumos modernos. Vamos dizer que isso já virou um subgênero na música mexicana, e somos muito tentando dar nosso aporte para expandir isso. Me sinto fortuitamente relacionado com Molotov, Café Tacuba, Nortec Collective e outros.

Não me lembro qual foi o artista brasileiro que disse que “as pessoas pensam melhor quando dançam” (ri). Passa por aí a ideia de vocês?
Sim, definitivamente sim. E eu tenho uma teoria que fazemos música para dançar porque não sabemos dançar (risos). Ficamos envolvidos na dança quando criamos. A dança é importante em nossas canções, não o gênero que estamos tocando. Veja que todas as nossas canções tem 100, 130 beats por minuto. Não importa se é hip hop ou música local, tudo acaba em música dançante. Isso gera uma euforia e faz com que nossos shows terminem sendo um baile.

A identidade mexicana da banda está clara no som, mas também no visual. Só que os vídeos estão tendo boa divulgação até fora de seu país. Estão fazendo algo diretamente focado no público estrangeiro?
Estamos tratando de preparar algumas viagens. Vamos passar 15 dias na Espanha fazendo promoção de nosso trabalho, vamos tocar na Argentina no início do ano que vem… Queremos exportar nossa música porque acreditamos que ela funciona em vários lugares, e porque nós, como músicos, logicamente queremos expor nosso trabalho em outros lugares.

Vocês tocaram em muitos festivais. Sei que não falam muito de suas identidades “reais”, mas imagino que foi justamente por terem um retrospecto com suas outras bandas que os ajudou a estarem presentes em tantos palcos importantes em relativamente pouco tempo.
Sim. Não todos, mas a metade da banda toca em projetos conhecidos, eu estou em um projeto que está estabelecido há 20 anos, e todos somos caras de 30 e poucos, 40 anos. De muitas formas, já sabíamos algumas coisas que davam certo e outras que não queríamos ter que repetir. Por outro lado, queríamos apagar completamente isso da percepção do público para que nos reconhecessem apenas pela música. E todo o music business mudou, as redes sociais não existiam quando começamos [com as outras bandas], então tínhamos que ver como funcionaria tudo isso. Tivemos sorte com isso, porque se fosse no passado, teríamos que ter uma companhia grande para fazer com que nossa música chegasse até você no Brasil, por exemplo. Estou fazendo essa entrevista contigo graças à internet, e nossa música chegou até você por ela. Não precisamos dos esforços e dos investimentos de uma gravadora para chegar a isso, o que é alentador. E te permite tentar e fazer mais coisas.

Certamente. Aliás, é justamente a internet que permite que vocês possam ir à Argentina. Seria bom se pudessem vir ao Brasil também…
Seria maravilhoso! Com nossas outras bandas já tocamos na América do Sul, mas nunca pudemos ir ao Brasil, então seria bárbaro. A música do Brasil nos influenciou muito.

Bem, então é justo dizer o que chegou de brasileiro até vocês que os impactou, especialmente algo moderno.
Uh, um montão de coisas! Moderno eu não sei assim de cabeça, mas gosto das partes mais funkeadas do Jota Quest, e gosto demais do Marcelo D2. Já não é moderno também, mas gosto do Carlinhos Brown, Seu Jorge, tenho os discos de Chico Science & Nação Zumbi. E, claro, Antonio Carlos Jobim, João Gilberto, Marcos Valle…

Voltando a questão de levar a banda para mais países: o nome pode ser um problema, não? O Facebook chegou a apagar a comunidade oficial da banda por causa do nome (risos).
No princípio, não nos importamos muito. Em parte porque não conhecíamos esse sistema novo e pensávamos que a internet ia ser realmente sem censura, e já vimos que não é bem assim, há uma censura relativa. E em outra medida porque a banda começou como nosso escape criativo, procurávamos fazer o que tínhamos de fazer e ponto. Mas logo começaram a nos aparecer muitas possibilidades, e o nome se tornou um problema mesmo no México, então estamos vendo todas as possibilidades quanto ao nome, para que possamos modificá-lo sem que se mude radicalmente a ideia ou o logo (nota: no Facebook, o nome da banda agora aparece abreviado: A.B.O.B.). A ideia é ressignificar o nome. Também temos outras ideias, ficamos debatendo se é melhor nos mantermos mascarados ou se mostramos a cara e fazemos algo mais formal e mais público. Não queremos que a banda fique estagnada ou perca oportunidades porque nós mesmos fomos néscios.

Estar lançando mais EPs que discos têm a ver com essa adequação ao momento atual do music business, no qual as pessoas estão se importando menos com álbuns?
Nos demos conta que funcionava assim. Vimos que pessoas estavam ansiosas para escutar uma canção da qual gostassem rápido porque estavam a fim de já seguir para a próxima e encontrar algo na banda que viesse depois. Me lembro que tínhamos quatro canções, e faltavam oito mais para completar um LP. Fomos gravando aos poucos, mas aí colegas mais jovens foram nos dizendo que não fazia sentido esperar para lançar um disco, que hoje não era mais assim. Na verdade, hoje não são nem EPs, são os singles que as pessoas querem ouvir. Mas fazer singles me causa muito problema, porque sou de outra escola (risos). Por outro lado, você já não tem a limitação física de tempo dos CDs. Lembro-me que a última faixa de cada lado do vinil tinha que ser uma canção lenta, porque se fosse rápida, podia danificar a agulha (risos). Esse é o bom do formato atual: sem limitação física, você pode fazer o que quiser. Mas gostamos de fazer canções de três ou quatro minutos, então não é problema.

Você se sente anacrônico?
Não! Eu aproveito! É como começar a fumar esse cigarro eletrônico aqui (risos). Me sinto bem, não estou preso a um disco. Tudo muda, e o legal é abraçar isso. A tecnologia também permite até tocar num samples instrumentos que minha banda não toca, então aproveito isso.

O que acontece se a banda crescer demais? Sei que esse é um cenário hipotético, mas… Ou melhor, refaço a pergunta: o quanto A Band of Bitches é importante para vocês, como artistas e como indivíduos, hoje?
Era uma fuga no começo, se transformou em algo maior. Conseguimos musicalmente e publicamente coisas que em outro momento não nos seriam possíveis e que sempre quisemos. Claro que é uma situação delicada se tivermos que pesar entre A Band of Bitches e o que já temos construído com outras bandas, mas é um problema bem melhor para se ter do que estar na merda e não saber como sair (risos). Acho que, se acontecer isso, teremos cuidado ao conduzir as coisas.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell

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