Entrevista: Suco Elétrico

por Bruno Lisboa

Em Porto Alegre, longe demais das capitais (como cantava Humberto no século passado), a Suco Elétrico segue na ativa tocando rock há 15 anos. Em sua discografia constam três EPs (“Compacto”, de 2001, e “Segunda Leva” e “Para Colorir”, ambos de 2005), um disco ao vivo e dois álbuns de estúdio: “7007” (2008) e o recém-lançado “Se o Futuro Permitir” (2016), disco em que deixam de lado a sonoridade psicodélica e experimental de outrora em prol de uma musicalidade associada ao stoner e ao pop.

“A banda é nossa fonte da juventude e o rock é nosso estilo de vida”, conta Alexandre Rauen, vocalista e principal compositor da Suco Elétrico, em entrevista por e-mail ao explicar a longevidade do grupo. Durante esse tempo, a banda passou por diversas mudanças na formação. “Na formação anterior eu era o baterista, e agora sendo o atual vocalista ainda faço os arranjos e gravações das baterias”, diz Alexandre, que explica a mudança de sonoridade com uma imagem: “Trocamos as flores pelos cactos”.

No bate papo abaixo, Alexandre ainda fala sobre a longa trajetória do grupo, o processo de composição do novo disco, a influência da cidade natal (“Existe uma cena de bandas que veneram o chamado ‘rock gaúcho’, mas não nos encaixamos neste rótulo”), o cenário rock de hoje no Brasil (“A Internet democratizou o cenário, mas ao mesmo tempo dificulta o acesso pelo número astronômico de bandas que existem”), planos para o futuro e muito mais. Confira!

Qual a receita de longevidade da Suco Elétrico?
A banda persiste devido ao grande prazer que temos de estar juntos tocando. Somos grandes amigos e acreditamos muito no que fazemos. Nos divertimos muito nos ensaios e, principalmente, quando estamos no palco. A banda é nossa fonte da juventude e o rock é nosso estilo de vida .

Em “Se o Futuro Permitir” vocês unem uma sonoridade stoner a linguagem pop. Como foi o processo de criação do disco?
As canções e letras deste disco foram compostas por mim no violão, exceto a música “Dragão”, que tem a letra da nossa antiga vocalista. Daí levo as canções para os ensaios, onde fazemos os arranjos com toda a banda. Na formação anterior eu era o baterista, e agora sendo o atual vocalista ainda faço os arranjos e gravações das baterias. Nas últimas sessões de gravação, o novo baterista, Lucas Kinoshita, participou gravando as baterias de “Eu Acho”. Anteriormente tínhamos uma sonoridade mais psicodélica e experimental que, naturalmente, foi ficando mais pesada e pop. Esta mudança não foi feita por uma questão estratégica, mas sim por uma real evolução no que estávamos ouvindo e fazendo nos últimos tempos. Acho que a nossa fase experimental foi um grande laboratório para chegar aonde chegamos. Claro que a psicodelia ainda pode ser detectada de forma mais sutil neste novo trabalho. Trocamos as flores pelos cactos. O nosso som faz os caras baterem cabeça e as meninas dançarem.

Vocês são de Porto Alegre, cidade famosa por revelar talentos do rock nacional de ontem e de hoje. Aparentemente, para quem é de fora, a impressão é que a cidade realmente exerce poder e influência no que é feito por aí. Procede?
Porto Alegre é uma cidade de contrastes e de pluralidade. Aqui tem um verão e inverno rigorosos, tem um povo de origem muito variada, e isso faz com que existam bandas no segmento rock, pop e afins muito diferentes entre si. A cidade tem um histórico de bandas de rock desde os anos 60. Existe uma cena de bandas que veneram o chamado “rock gaúcho”, mas não nos encaixamos neste rótulo. Fazemos um som universal, só que feito em Porto alegre. A cena (local) tem altos e baixos, acho que agora está numa fase de renovação. Tem muita gente boa surgindo como Dingo Bells e Apanhador Só. O Suco não tem a mesma característica dessas bandas, apesar de admirá-los. Somos uma banda com mais testosterona, mais suor e pegada, principalmente no palco.

Recentemente a banda passou por mudanças na formação. O que os novos integrantes trouxeram pra sonoridade do grupo?
A mudança na formação foi acontecendo de forma gradual. Éramos um quinteto com duas guitarras e, após o lançamento do disco “7007”, um guitarrista saiu e mantivemos o quarteto. Por incrível que pareça, com uma guitarra a menos começamos a soar mais pesados. Em 2013, após muita estrada e shows, a Dani Rauen (antiga vocalista e minha irmã) pediu as contas, mas continuamos a ensaiar de trio (comigo na bateria e voz). Foi nesse momento que começamos a formar a nova sonoridade da banda. Já percebíamos que a Dani estava com intenção de deixar a banda e pensávamos na ideia de eu assumir os vocais, pois, afinal de contas, sempre fui o compositor e dividia os vocais com ela. Dois dias depois da saída dela conheci o Kino (Lucas Kinoshita), que já era fã do Suco Elétrico e que aceitou o convite para ser o novo baterista. Ensaiamos e fomos fazer um show sem muito alarde num encontro de estudantes de biologia no meio do mato. Palco tosco, som tosco, mas um público muito animado. Subimos no palco e ali nos sentimos como uma nova banda. Nos redescobrimos no palco de forma visceral.

Muitos dos lançamentos fonográficos de hoje são feitos somente no formato digital. Porém, “Se o Futuro Permitir” foi lançado não só neste formato como também tem versão em CD e ganhará versão em vinil (pelo selo 180 em agosto). Apostar no formato físico é o caminho?
A nossa ideia inicial era apenas o formato digital e o disco de vinil. O vinil sempre foi um sonho e uma vontade da banda. Adoramos o formato, colecionamos vinis e agora temos como fabricar aqui no Brasil. O mercado de vinil está crescendo muito e a sonoridade do disco foi pensada para o vinil. O Selo 180 foi perfeito para nós por trabalhar, principalmente, com discos de vinil. Decidimos lançar o CD também para vendermos nos shows e presentear os fãs, já que o vinil tem um custo mais alto. O formato digital facilita a divulgação e consumo do trabalho da banda no mundo todo, o CD é um regalo para quem quer ter um produto físico da banda, e o vinil é a joia rara.

Para viabilizar o lançamento de “Se o Futuro Permitir” vocês utilizaram de uma campanha de financiamento coletivo (o Traga Seu Show) . Como foi o processo?
A experiência de termos feito a campanha de financiamento coletivo foi muito proveitosa. Além de arrecadarmos os recursos para a fabricação do disco, esse tipo de campanha aproxima o publico da banda, fazendo com que os fãs se sintam parte do disco por terem contribuído e acabam tendo alguns privilégios como ter o download antecipado do disco e ter um contato mais direto com os integrantes da banda. A campanha também gera uma expectativa no público que já sabe quando receberão as recompensas e quando será o lançamento do disco. A campanha também contou com apoiadores que produziram algumas recompensas como a cerveja artesanal, as camisetas e os posters. Claro que as principais recompensas eram o disco de vinil e o CD. Quando iniciamos a campanha, já tinhamos o disco praticamente todo gravado e mixado, então os recursos foram usados para fabricar os vinis e CDs.

A experiência de assumir dupla função nas gravações do disco foi difícil?
Como sempre fui baterista, pra gravar as bateras foi super tranquilo, pois já tocava as músicas há algum tempo e já conhecia bem os arranjos. Fico muito à vontade gravando as baterias. Sempre cantei, mas assumir o vocal da banda foi uma responsabilidade maior e que me deu mais trabalho. O produtor do disco, Marcelo Fruet, é muito exigente, e costumo dizer que gravar voz com ele é no chicote. Eu gravava um, dois, três takes e pensava: “Tá gravado”. Mas eu mal sabia que estava só começando a sessão. No final das contas, apesar de ser bem trabalhoso, ficamos muito satisfeitos com o resultado. Assumir o vocal foi como uma libertação. A bateria é o meu instrumento, mas ir pra frente do palco e poder interpretar as músicas que escrevo deu mais verdade ao Suco e acabou influenciando a performance de todos.

Quais artistas influenciaram esta guinada?
Acho que por sermos uma banda com muito tempo de vida, acabamos nos influenciando tocando juntos e isso fez com que houvesse essa guinada no som. Não acho que outros artistas foram fundamentais para a nossa mudança, mas se é pra dar nome aos bois… Queens of the Stone Age e o disco “Psicoacústica”, do Ira!, foram muito ouvidos pela banda nos últimos tempos.

Sendo uma banda “estranha no ninho” no cenário da Porto Alegre atual, quem são os seus pares por aí?
Acho que estamos deixando de ser outsiders e também temos que fazer nossa mea culpa. Não nos esforçávamos muito pra ir aos lugares “certos” e conhecer as pessoas “certas”. Nos achávamos auto suficientes e isso com certeza nos atrapalhou tempos atrás. Temos parcerias muito boas com algumas bandas que necessariamente não tem o mesmo estilo que o Suco, como, por exemplo, a Trem Imperial, que é uma banda que mistura rock inglês clássico com reggae, ou a Dóris Encrenqueira que é uma banda de hard rock clássico muito boa formada por uma gurizada que poderia ser nossos filhos, pela idade que tem. Essa história de sermos chamados de banda stoner começou quando outras bandas do estilo começaram a ir aos nossos shows e nos diziam que o som do Suco lembrava esse estilo, mas nem eles tinham certeza absoluta que éramos da cena stoner, só sabiam dizer que se identificavam muito com o som do Suco.

Aparentemente os anos de mainstream do rock nacional se foram. Com isso o gênero volta a “marginalidade”, com um número menor (e talvez melhor) de admiradores fiéis. Como você enxerga o cenário atual?
Temos um público ainda muito concentrado aqui no Sul, mas com o lançamento de “Se o Futuro Permitir” estamos tendo um retorno muito bom de novos fãs. O mainstream do rock no Brasil ficou com medalhões que são da época das grandes gravadoras. A internet democratizou o cenário, mas ao mesmo tempo dificulta o acesso pelo número astronômico de bandas que existem. Hoje em dia é muito fácil comprar um instrumento, gravar algumas músicas e as postar na internet, mas na maioria são farinhas do mesmo saco, ou seja, usam fórmulas prontas como se seguisse uma receita de bolo.
Imagino que existam bandas sensacionais que não aparecem por falta de estratégia de exposição. Me parece que hoje as bandas pensam menos em música e mais em estratégia e marketing. Claro que estratégia e marketing são fundamentais, mas a verdade do seu som não tem planejamento. Não existe marketing que perpetue uma banda sem autenticidade. Podem gostar ou não do Suco: foda-se. Agora, que nós fazemos isso com verdade, sim nós fazemos.

Quais são os próximos passos do grupo?
Após o lançamento do disco a ideia é cair na estrada e divulgar muito a banda e o disco.
Já temos repertório composto para um próximo disco, mas ainda não tivemos tempo pra planejar quando começaremos a gravar. Temos outro projeto com a banda Trem Imperial que se chama “Suco Imperial”. Já fizemos dois shows desse projeto em que as duas bandas estão ao mesmo tempo no palco revezando o set list e intervindo uma no som da outra, além de cada banda ter feito uma versão de uma música da outra. Pretendemos lançar um compacto em vinil com as duas versões no ano que vem. Mas o principal projeto é seguir com o Suco enquanto estivermos vivos. É um projeto de vida de grandes amigos que adoram estar juntos fazendo rock.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão

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