Entrevista: Denner / Shermann

por Daniel Tavares

Como banda, Denner / Shermann é bastante recente. Mas o currículo de seus integrantes, principalmente dos dois guitarristas que lhe emprestam os sobrenomes, a credencia para ser vista como um dos grandes nomes do heavy metal mundial: Michael Denner e Hank Shermann (na verdade, Rene Krolmark) foram guitarristas da formação mais clássica da banda dinamarquesa Mercyful Fate (de onde também saiu King Diamond), banda lendária que esteve em atividade entre 1981 e 1999 (com uma pausa entre 1985 e 1991).

Porém, a parceria de Michael Denner e Hank Shermann transcende seus trabalhos com o Mercyful Fate. Os dois estiveram juntos em álbuns como “Melissa” (1983) e “Don’t Break The Oath” (1984), considerados como alguns dos pilares do black metal, além de diversos outros trabalhos em outras bandas, como Zoser Mez e Force of Evil. Em 2015, recrutaram um time de outros talentos (Sean Peck, Snowy Shaw e Marc Grabowski) e criaram o Denner / Shermann, lançando o EP “Satan’s Tomb” e, em 2016, o álbum “Masters of Evil”.

Por ocasião do lançamento deste “Masters of Evil” no Brasil, marcando também o debute do selo paulistano Abigail Records, o guitarrista Hank Shermann bateu um papo exclusivo com o Scream & Yell sobre diversos assuntos. Da nova banda e seu primeiro full-length álbum passando pela história do grande Mercyful Fate, seu legado e uma possível reunião (“Posso te garantir que espero por isso e nós todos temos esta esperança, tanto pelos fãs quanto pelo evento histórico que seria”) até a longa parceria com Michael Denner, e, ainda, Ghost e possíveis shows no Brasil.

Vamos começar indo direto ao ponto. Como você tem sentido a recepção ao álbum “Masters of Evil”?
Tem sido realmente surpreendente pra mim, tão boa quanto como foi com o primeiro EP que nós lançamos. Todo mundo ficou, é claro, um pouco curioso para saber como seria a recepção ao próximo álbum, uma vez que ele seria um álbum completo e teríamos mais canções e os estilos se distribuem em muitos níveis diferentes, não existem duas canções que se parecessem umas com as outras. Claro que nós estávamos muito empolgados para ouvir as reações, mas, até agora, tem sido incrível. Nós já tivemos algumas resenhas realmente muito boas e, claro, a banda inteira está entusiasmada e nós acabamos de fazer um show aqui, então, tudo está muito bom.

Ouvi o álbum e fiz minhas pesquisas sobre vocês, mas gostaria que você apresentasse a banda Denner / Shermann para os brasileiros…
Sim, a Denner / Shermann consiste de Michael Denner na guitarra e eu próprio na outra guitarra. Nós originalmente começamos no Mercyful Fate, em 1981, e agora ainda estamos juntos e acabamos de lançar este álbum, “Masters of Evil”. A ideia apareceu quando fizemos juntos o show de 30 anos do Mercyful Fate (em dezembro de 2011). Tivemos a ideia: “Por que não formamos uma banda?” E então, para as canções do álbum, nós escolhemos o vocalista Sean Peck, que também canta na Cage e na Death Dealer. E nós sempre quisemos ter o Snowy Shaw de volta na bateria. Ele era o baterista do Mercyful Fate naquela época e quis fazer parte disso conosco. Para o baixo, eu trouxe Marc Grabowski, que também toca em uma banda chamada Demonica, em que eu também comecei a tocar em 2010. Então é como se nós todos nos conhecêssemos muito bem, exceto por Sean Peck, ele é o cara novo e nós sabemos que ele sabe dar uns gritos altos e algumas coisas bacanas. Ele é o cara perfeito para fazer com que essa banda se juntasse e criasse o que nós criamos até agora. E o estilo de música é o heavy metal clássico tradicional. Estou fazendo toda a música e ela tem algo como se fosse uma assinatura, uma marca registrada do que já fiz. Claro que há algo de Mercyful Fate, mas há também algo que lembra o início do Judas Priest e um pouco de Punk. Então, nós temos todos esses cinco caras talentosos e todos contribuíram com o que temos a oferecer e lançamos este álbum e, basicamente, esta é a versão curta da história da banda.

Ouvi alguma coisa que soava também como Ozzy Osbourne na voz do Sean…
Sim, existe uma parte em uma canção em que o Sean está se divertindo consigo mesmo ao soar como o Ozzy e, talvez, como o Rob Halford. Sabe, nada demais, só ele se divertindo, uma vez que a canção soa muito anos 80/final dos 70. Ele provavelmente aproveitou a inspiração. Nós conversamos um pouco sobre isso, mas estávamos todos com um sorriso no rosto e ele gostou de prestar esta homenagem ao Ozzy por alguns segundos. Então, nós deixamos lá e todo mundo pensou que estava bom.

E sobre o nome da banda, seus sobrenomes, Denner e Shermann, não é tão comum dar a uma banda o sobrenome de alguém. Você pode nos explicar essa decisão?
Foi só uma decisão entre mim e o Michael quando ele chegou e disse: “Por que não chamamos de Denner / Shermann? Porque os fãs, nossos fãs leais, que são basicamente os fãs do Mercyful Fate que nos seguiram por 35 anos ou mais, certamente saberiam o que temos a dar, melhor do que encontrar um novo nome como HellFire ou qualquer coisa assim”. Nós pensamos que seria algo de mais classe, nesse momento das nossas carreiras, usar os nossos próprios nomes. Isto já foi visto antes em muitas formações desde os anos 70, mas, sabe, o mais importante em usar o nosso próprio nome é ter algo que remetesse ao que já foi criado. De outra forma, nós estaríamos como se começando, teríamos um nome ao qual as pessoas teriam que se acostumar. Com nosso próprio nome, as pessoas que nos conhecem sabem o que vão ter. Acho que estamos muito felizes com este nome e parece que as pessoas não se importam, não tem nada contra isso. É só uma questão de nós estarmos ficando mais velhos e querendo ir direto ao ponto e dizer, ok, você sabe, este é o Denner, este é o Shermann e esta é a nossa música.

Você tem trabalhado com o Denner por mais de 30 anos. Você o considera mais que um irmão, não?
Ele é realmente um bom amigo. A primeira coisa que fizemos foi lá em 1979, lá pelo final do ano… Ele entrou na banda Brats, em Copenhage, era mais uma banda punk. Então nós tocamos juntos e depois formamos o Mercyful Fate e fizemos juntos aqueles álbuns, o “Melissa” e o “Don’t Break The Oath”. Depois fomos pra uma banda chamada Zoser Mez e nos encontramos novamente na banda Source of Evil e agora estamos juntos novamente na Denner / Shermann. É uma longa relação, amizade, eu diria. Nossos estilos se complementam realmente bem e é por isso que isso funciona realmente bem. Não é como se tocássemos o mesmo estilo. O Michael tem um jeito único e saboroso de tocar guitarra e eu fico representando, talvez, as melodias mais agressivas, as partes mais agressivas. Então, neste sentido, nós realmente complementamos um ao outro muito bem.

Vocês já fizeram um show no Metal Magic Festival. Como foi esse show e como estão os planos para turnês? Existe algum plano para vir à América do Sul?
Sim, nós acabamos de voltar desse show na Dinamarca. É um festival de proporções médias, um festival voltado ao heavy metal. Nós tocamos 12 canções sendo cinco (das oito) do novo álbum. Tocamos “Angel’s Blood”, “Son of Satan”, “The Wolf Feeds at Night”, “Pentagram and The Cross” e “Escape From Hell”. Do EP “Satan’s Tomb” entrou no set “Satan’s Tomb”, “New Gods” e “War Witch”. Para completar decidimos fazer quatro canções do Mercyful Fate: “Evil”, “Curse of The Pharaohs”, “Black Funeral” e “Dessecration of Souls”. Este foi o nosso primeiro concerto real, com um backdrop bacana, num palco grande, com muitas pessoas na plateia. Acho que foi muito bem. E agora nós vamos tocar em Hamburgo daqui a duas semanas [Nota: a entrevista foi realizada em 13 de julho]. Tem um grande festival lá e este será o nosso segundo show. Nosso terceiro show, na verdade, mas, sabe, como shows de festival será o segundo. Quanto mais shows nós tivermos, melhor ficaremos, mas, com toda a experiência do pessoal com outras bandas e a longa carreira, nós meio que já sabemos o que fazer. E quanto a outros planos, nós estamos tentando organizar uma turnê europeia e deve acontecer em setembro. Em outubro nós devemos entrar em uma turnê nos Estados Unidos e nós estamos tentando organizar uma turnê sul-americana em novembro, incluindo o Brasil, mas ainda não há nada confirmado. Estamos aguardando pelos agenciadores nas diferentes regiões nos darem respostas para sabermos se conseguiremos fazer.

O Mercyful Fate tem uma legião de fãs no mundo inteiro. Existe alguma chance de vocês se reunirem novamente para uma turnê ou gravar um novo álbum no futuro?
Ah, sim, esta é uma boa questão. Sabe, eu gostaria. Entretanto, neste ponto não estamos falando especificamente sobre isso porque o Michael e eu estamos muito ocupados com o Denner / Shermann e Kim está realmente ocupado fazendo o próximo álbum da King Diamong. Então, tem que ser mais lá na frente na estrada, 2018, 2019… se for. Estou completamente aberto a ideia, mas depende mais de agenda e de tempo. Posso te garantir que espero por isso e nós todos temos esta esperança, tanto pelos fãs quanto pelo evento histórico que seria. Espero que nós sejamos capazes de fazer isto acontecer.

“Don’t Break The Oath” e “Melissa” são considerados dois dos maiores álbuns de metal extremo de todos os tempos. Junto com o Venom, vocês influenciaram uma cena inteira de black metal que surgiu depois. Como você vê o legado do Mercyful Fate?
Isto é engraçado. Sabe, não exatamente uma pergunta engraçada, mas é uma pergunta difícil porque quando você é o originador da música e de uma banda inteira, você não se vê como algo particularmente especial. É claro que nós temos consciência de que existem muitas pessoas, outras bandas também, que foram influenciadas seja pelas letras do King Diamond, ou pela sua cara pintada ou por algumas partes da música. Isso é muito bom e um elogio agradável para a banda, que recebemos humildemente, mas é também bom saber que você, como músico ou banda, pode ajudar ou talvez inspirar outros músicos, outras bandas e que as pessoas querem começar a aprender a tocar guitarra, inspirá-los a ter o seu próprio estilo ou talvez replicar algo do Mercyful e fazer deste o seu próprio estilo. Claro que sabemos (da influência que exercemos). Muitas bandas como Metallica, Slayer e numerosas outras sempre dizem que tem um carinho pelos álbuns mais antigos do Mercyful Fate. Eu apenas posso dizer que me sinto orgulhoso por ter feito parte da banda nesse tempo agradável. 1982, 1983, 84, 85… aqueles anos foram realmente bons para o heavy metal. Tudo era novo, havia muitas coisas vindo que você nunca tinha ouvido antes. Hoje em dia leva um bom tempo para surpreender as pessoas. Você basicamente já ouviu de tudo. Então aquele sabor do início dos anos 80 era realmente bom e eu me sinto orgulhoso e feliz de ter feito esses álbuns do Mercyful Fate.

Uma das bandas que apareceram recentemente chamando a atenção do público foi o Ghost, que tem quase a mesma temática lírica, mas com um sotaque um tanto mais pop. O que você acha deles?
Nesse pensamento de que não há muitas bandas que possam te surpreender porque, basicamente, já ouvimos de tudo, o Ghost foi uma que, definitivamente, me surpreendeu quando começou. Acho que eles tem uma imageria muito legal. Eu realmente gosto daquele papa, daquele estilo de vestir de papa do mal… É muito legal, muito bem executado e a composição da música deles é realmente boa. Mas não vejo muita coisa do Mercyful neles. Acho que algum dos caras, o vocalista talvez, devem ter dito que foram inspirados pelo Mercyful, mas não (sinto isso). Talvez um riff aqui, outro ali. Talvez (a sonoridade deles) seja old school o suficiente para parecer Mercyful Fate… mas não tudo. Vejo mais coisas do Blue Oyster Cult (no som deles). Eles tem muitas partes intrincadas, um pouco mais de suavidade que, de repente, fica mais pesada, ainda que muito melódica. É o tipo de coisa que o Blue Oyster Cult fazia nos anos 70 e no início dos anos 80. Gosto do Ghost. Acho eles legais porque são únicos no que fazem.

E sobre a predileção pelo oculto, pelo satanismo. Você consegue explicar porque vocês trabalham esse tema como um dos prediletos?
Não posso falar em nome do King Diamond. Naquele tempo (do Mercyful), Kim escrevia todas as letras, e aquelas foram as letras que ele decidiu escrever. Da mesma forma aconteceu agora com o Sean. Não é como se a banda se juntasse e perguntasse: “Ok, caras, sobre o que vocês querem escrever?”. O Sean tem um monte de ideias loucas e ele fez todas as letras para esse álbum e para o EP da Denner / Shermann. Ele escreve sobre histórias de fantasia, com o oculto, e é tudo parte do entretenimento e não necessariamente se relaciona com o que a banda é ou acredita. Todas as canções são uma experiência. E, assim como o Kim, ele é muito mais focado na escrita das letras. Mas o Sean é um pouco mais abrangente e põe um pouco mais de outras coisas nas letras. Nós temos algumas canções que incluem o nome “Satã”, mas apenas por causa disso não necessariamente quer dizer que o estejamos invocando. É mais um tipo de coisa de bom versus mal. O Sean tem muito desse negócio de herói. Ele é um grande fã de quadrinhos. Existe muito essa coisa de bem contra o mal, do pentagrama versus a cruz, e ele usa muito esse tipo de coisa. Então não somos especificamente uma banda satânica. Só fazemos heavy metal tradicional e clássico, do nosso jeito, claro. E o Sean tenta fazer algumas letras que vão bem com a música e, de alguma forma, ele faz. Então é basicamente decisão do Sean o que fazer com as letras, o que é o mesmo que acontecia quando era com Kim escrevendo para o Mercyful.

Você sabe se o King Diamont ouviu esse “Masters of Evil”, da Denner / Shermann? Ele te disse alguma coisa?
Não estou por dentro disso. Não é algo que eu realmente saiba ou esteja pensando. Se ele gostar, será bacana. Ele deve provavelmente estar curioso. Sei que ele ouviu provavelmente, acho, “Satan’s Tomb”. Nós conversamos um pouco sobre isso, mas, sabe, eu imaginaria que sim, porque, como eu fiz toda a música, tem um som muito reconhecível, o meu som e o som do Michael, o som do Mercyful Fate. É algo mais negócio para negócio do que, você sabe, de amigo pra amigo. Ele não comentou muito sobre isso e pessoalmente não sei o que ele pensa sobre. Mas acho que ele ficaria orgulhoso que seus antigos amigos de banda estejam de volta aos negócios e de volta à cena e fazendo um heavy metal old school realmente legal, mas talvez ele pense diferente. Eu realmente não sei.

A Mercyful Fate fez alguns shows no Brasil nos anos 90. Tem algum músico brasileiro de que você goste? Algum deles te influenciou?
Verdade, estivemos no Brasil com a Mercyful e fizemos cinco ou seis shows, acho. Um deles foi no Monsters of Rock, em 1996, e depois tocamos sozinhos em umas seis cidades do Brasil. Estas foram algumas das experiências mais divertidas e diferentes que vivemos desde que começamos a fazer turnês na Europa e nos Estados Unidos. Na primeira vez voamos de São Paulo para o Rio de Janeiro e, então, Recife, Curitiba e todas as outras cidades. Foi tudo muito legal! Os fãs eram realmente loucos, apaixonados, nos seguindo por todos os lugares. Tenho realmente uma quantidade grande de boas memórias. Nós tocamos com uma banda brasileira em uma turnê nos Estados Unidos, acredito que se chamava Overdose. Isso foi há muitos anos, uns 15 anos provavelmente. E nós encontramos um dos caras da Overdose em outra cidade quando tocamos no Brasil. Fomos na casa dele, conhecemos a sua família, seus pais, eles cuidaram da gente. Foi bem legal. Também gosto do Kiko [Loureiro – Megadeth / Angra], do seu estilo de tocar, mas provavelmente estou pronunciando o nome dele errado. Espero realmente que a Denner / Shermann toque no Brasil. É uma grande experiência, um país muito bacana do qual temos muitas lembranças boas. Queremos ver vocês ai e, claro, tocar algumas canções clássicas do Mercyful Fate também.


– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista e mora em Fortaleza

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