Entrevista: Siso


por Renan Guerra

O nome Siso vem realmente do dente que tanta dor nos causa assim como “Terceiro Molar”, nome do primeiro EP de David Dines. Vocalista e guitarrista dos Cabezas Flutuantes, o multiartista embarca de vez em uma carreira solo com marca definitiva, isso tudo depois de uma extensa carreira, que inclui por exemplo o EP/mixtape “Sdds Futuro” (2013) e a produção da versão de Nobat para “Não Sei Dançar”, de Marina Lima. Com uma simbólica maturidade trazida pelo nome Siso, o artista encara esse novo trabalho não como uma nova persona assumida, mas sim apenas uma assinatura distinta, que marca um novo passo em sua carreira.

“Terceiro Molar”, o EP, traz letras poéticas envoltas numa égide que debate identidade, gêneros e o nosso espaço na sociedade, porém numa embalagem pop bastante acessível. Cada faixa possui camadas distintas de produção e letra, que criam momentos de direta identificação, como abrem a janela para posteriores descobertas. É como se cada detalhe e palavra escondessem outros caminhos, formando um trabalho intricado de música pop.

Siso assina três das faixas do EP, contando ainda com uma releitura da faixa “Clubber do Milharal”, do duo mineiro Paralaxe, e de “Apocalipse”, de José Mauro, obscuro artista da década de 1970, lançado no disco “Obinóxius” e escrita ao lado de Ana Maria Bahiana, importante jornalista cultural, hoje em dia radicada nos Estados Unidos. No todo, a estreia de Siso / o amadurecimento de David proporciona um trabalho coeso e intenso, que se comunica de forma direta com o cenário de mudanças identitárias da música pop-popular brasileira.

Para saber um pouco mais sobre esse momento de David Dines, conversamos com ele via e-mail. Confira o bate papo:

Para começar, em que momento David passou a ser Siso? Ainda há uma linha que separe essas duas personas?
Na verdade, Siso é só o nome que eu, David, passei a assinar minhas coisas artísticas de uns tempos pra cá. Não chega a ser uma persona. Queria me desvincular de algumas coisas de antes e achei que esse novo material tinha algo de diferente. Tudo parecia estar mais claro, mais bem resolvido do que antes. Achei justo marcar esse momento.

Você tem uma trajetória repleta de fluxos distintos. Como isso tudo confluiu para a chegada de “Terceiro Molar”? Isso está conectado a ideia do nome Siso representar essa chegada à maturidade?
É como se eu tivesse coletado um monte de experiências e aprendizados que só agora a pouco começaram a fazer sentido juntos. O nome Siso tem a ver com isso: uma maturidade (questionável) que é inevitável e vem da dor, do sangrar, mas que é algo que a pessoa faz o que quiser com aquilo. Tem essa coisa de o terceiro molar ser um traço da evolução humana, mas ter se tornado algo meio que descartável na dentição da espécie hoje. Achei que essa ideia de “descartabilidade” também conversava com o fato de ser um trabalho de música pop, que é um estilo que se presume descartável, mas que tem sua atemporalidade e é campo de batalha pra várias disputas sociais e identitárias.

No disco há temas bastante pertinentes à atualidade, como as questões de gênero. Isso foi uma escolha premeditada ou os assuntos foram entrando no disco de forma natural?
Foi tudo bem natural. Identidade sempre foi um tema presente nos meus trabalhos, e eu acredito que a forma como a pessoa se coloca em sociedade precisa partir da reflexão sobre os próprios atos e de algum autoconhecimento. Nesse processo, a pessoa precisa de uma boa dose de honestidade e de coragem pra confrontar o que surgir no meio disso. O foda é que a gente cresce oprimindo a si e aos outros por se pautar pelas expectativas alheias, até algum dia se dar conta do quanto isso é insustentável. A questão de gênero entra nisso. E é a partir dessa consciência das injustiças e opressões que é possível construir relações mais saudáveis.

Nesse sentido, como você compreende a importância da sua persona artística no cenário político e social do País? Você busca ser uma voz de caminhos dissonantes?
A gente vive um momento bem esquisito, que é muito marcado pela falta de diálogo. As pessoas já chegam atacando umas às outras por questões estruturais, sem se colocar no lugar do outro ou mesmo avaliar o bom senso dos próprios atos. Eu gostaria de ser uma voz de Egrégora e de afeto no meio disso. Mas, claro, não dá pra deixar de refutar aquilo que é errado e irracional.

As músicas do “Terceiro Molar” mostram uma busca constante por sonoridades distintas, mas que culminam sempre numa sonoridade pop e acessível. Essa era sua intenção? Tornar o novo e o experimental algo compreensivo para distintos públicos? Ou foi algo mais natural?
Sempre fui muito fã de música pop. É o lugar de onde articulo tudo que crio, até por ligação afetiva, já que minhas primeiras memórias musicais incluem muita coisa pop dos anos 1990. Mas ouço todo tipo de coisa – nos favoritos dos meus perfis nos streamings tem desde Diamanda Galás a Astro, passando por Sir Victor Uwaifo e Kendrick Lamar. Tenho grande interesse em artistas que borram fronteiras entre gêneros, que deslocam o ouvido da zona de conforto. Mas, pra mim, realização mesmo está é num bom gancho pop, simples e conciso.

A faixa “Apocalipse” é uma escolha distinta dentro do disco. Como você chegou nessa faixa do José Mauro com a Ana Maria Bahiana? Você acredita que os discos do Mauro precisam ser redescobertos pelas novas gerações?
Foi por acaso. Sempre gostei de coisas que são meio que naquela pegada dele, como os “Afro-Sambas”, do Baden Powell com Vinicius. Acho que, pesquisando discos brasileiros obscuros, trombei no “Obnoxius”. É um material riquíssimo. A imagética desenvolvida por ele e pela Ana Maria Bahiana naqueles trabalhos é muito maravilhosa, sem falar nos arranjos do maestro Gaya. Merecia muito uma ouvida atenciosa por mais pessoas.

Você transita bastante entre as cenas musicais de São Paulo e Belo Horizonte. Como você percebe o cenário atual da música independente? Quais artistas você anda escutando bastante dessa geração?
Desde 2014, mais ou menos, BH vive um momento riquíssimo de produção artística. Coisas incríveis têm saído de lá. E tanto em BH quanto em SP, vejo muita vontade do pessoal de fazer coisas fora das estruturas, fora do grid, mas também buscando se organizar com uma visão profissional do rolê, o que contribui muito pro fortalecimento das estruturas independentes. Dos conterrâneos mineiros, gosto muito de Aldan, Paralaxe, Pelos, Os Amantes Invisíveis, Estrada, Umrio, The Us, Valsa Binária, Mordomo, Lucas Avelar e Nobat. Do pessoal em SP, admiro os trabalhos do NÃ, Aloizio, NU, Letícia Novaes, anvil FX, Tássia Reis, Lineker, Alambradas e Rico Dalasam. E de outros cantos do país ouço Xóõ, Renata Rosa, Ava Rocha, Alice Caymmi, Mãeana, Carne Doce e Qinho.

Já que falamos em indicações, e quais artistas são “seu norte” na sua carreira artística?
Meu compasso muda muito de acordo com o momento – geminiano, sabe como é. Mas entre os artistas que têm a ver de modo mais global com o que faço dá pra citar Depeche Mode, Os Mutantes, Anohni, David Bowie, St. Vincent, Blondie, Talking Heads, Joni Mitchell e Karine Alexandrino.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Bate a Fita

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