Scream & Yell recomenda: Yangos

por Leonardo Vinhas

Chacarera, chamamé, milongas – gêneros hoje “folclóricos” em seu país de origem, a Argentina, e, na melhor das hipóteses, “exóticos” aos ouvidos crescidos em outras terras. Porém, tudo que entra para o dito folclore é porque já foi popular – no sentido de pop mesmo. E é assim, pop, que pode soar, mesmo que instrumental, a música do quarteto Yangos, de Caxias do Sul, dedicado a tocar esses gêneros com uma energia bruta de causar inveja e apalermamento em muita banda de rock.

César Casara (piano), Cristiano Klein (percussão), Tomás Savaris (violão) e Rafael Scopel (acordeão) montaram a banda em 2005 – os últimos três eram mais afeitos aos gêneros musicais que influenciaram a música gaúcha, enquanto Casara vinha do meio roqueiro. A combinação funcionou de modo quase instintivo – já que nenhum deles era exatamente um catedrático quanto aos formatos e “dogmas” dos estilos. Seja com composições próprias ou com releituras de clássicos de Argentina e Uruguai, foram criando sua assinatura e incorporando estéticas mais sofisticadas, como valsa e tango, ao seu estilo.

Falar sobre a Yangos não faz jus ao que a banda é nos palcos – a bem da verdade, nem mesmo seus vídeos lhes fazem muita justiça. Ao vivo, a Yangos exibe algo que, sem exagero, pode ser definido como “arrebatamento”: Klein e Casara movimentam-se de forma a intensa, como se estivessem acompanhados por gente endiabrada como Flea (Red Hot Chili Peppers) ou John Bonham (Led Zeppelin) e quisessem entrar na mesma vibe física. Savaris e Scopel podem não exibir a mesma mise-en-scène, mas junto com os outros dois companheiros, levam as canções para caminhos onde a dança é inevitável até para quem não tem a menor ideia do que seja um passo de chamamé. Na dúvida, até um headbanging pode funcionar…

ACom quatro trabalhos lançados – “Tangos y Milongas“, de 2009; “Às Pampas” de 2013; o DVD “Pampa: Pátria de Todos“, de 2016, com o argentino Dante Ramon Ledesma; e, lançado apenas na Argentina, “Chamamé”, também de 2016 –, a Yangos quer ampliar seu alcance, objetivo que o convite para tocar na SIM São Paulo, em novembro, pode ajudar a conseguir – Fabiana Batistela, organizadora do evento, assistiu a uma apresentação da banda no Festival Brasileiro de Música de Rua e imediatamente convidou-os, dizendo que “esse é um som que tem tudo para explodir na Europa”.

Se tal explosão vai acontecer, descobriremos na hora certa. Mas fica a recomendação de não esperar: não deixe de vê-los ao vivo se tiver a chance. E aproveite para ler a entrevista antes, logo a seguir.

O trabalho da Yangos é, sim, de pesquisa, mas não é engessado. Há os formatos identificáveis dos gêneros que vocês tocam, mas há um espaço para a novidade. Como vocês lidam com essa dualidade entre personalidade e tradição?
Quando a gente começou o grupo, nossa intenção era justamente não ficar tolhido a um gênero de folclore, a esse folclore gaúcho de CTG. O Cristiano, o Rafael e o Tomás são desse meio, e eu sempre fui roqueiro, sabe? A gente se conheceu quando eles foram gravar uma trilha sonora para um rodeio – nem me lembro o nome – e me convidaram para gravar junto. Eu nem sabia o que tocar com eles. Mas desde o começo ficou claro que não queríamos cair para um estilo só, para o folclore, para a milonga ou para o chamamé. Porém, há cinco anos atrás, a gente conheceu o Lucio Yanel, um argentino de Corrientes que vive aqui em Caxias (nota: e que é um dos maiores violonistas de folclore da América do Sul, que teve Yamandú Costa como aluno e tocou com Jayme Caetano Braun e outros grandes da música gaúcha), e ele levantou essa questão de que não sabíamos o que estávamos tocando. Então fomos até Corrientes e lugares próximos para conhecer a região onde os ritmos que a gente toca se formaram, porque o folclore tem o seu formato fixo. Nunca quisemos trabalhar com isso, é verdade, mas também era porque não sabíamos que existiam esses formatos. Começamos a estudar a fundo esses ritmos para tentar entender o que fazíamos de diferente no nosso som. Então foi tentar racionalizar o que a gente já fazia de maneira visceral. Tentamos manter o máximo respeito possível pelos ritmos, em especial a chacarera e o chamamé. Hoje a gente sabe que se a gente tocar um chamamé com um bumbo leguero, vamos ferir parte da tradição. Por outro lado, o Lucio nos explicou que, como somos brasileiros, não precisamos nos prender tanto a isso. Podemos trazer brasilidade para esses ritmos, de certa forma.

Existem gêneros que os próprios músicos podem considerar imutáveis. É o caso do blues, visto por muitos músicos que o tocam como algo “sacrossanto”, intocável. Se esse é o caso da estética na qual vocês se inspiram, vocês parecem ter certa predisposição à “heresia”…
Acredito que todo tipo de música que fica engessado acaba parado no tempo. No final das contas, muito da Yangos vem da responsabilidade de conseguir renovar um pouco desses gêneros folclóricos, colocando um pouco de cada um do grupo no estilo, mas também experimentando. Por exemplo: eu adoro música clássica, mas me sinto engessado em tocar com partitura, pois não dá para trabalhar só com aquelas dinâmicas e andamentos. Se for assim, chega uma hora em que o público perde a conectividade com aquela música. O músico tem que renovar, é obrigado a tentar repaginar o estilo. Rótulos são bons para te nortear, e é em cima disso que você vai criar o teu jeito. Não pode se fechar na tradição.

Já que você falou de conectividade, como é a reação do público?
Não quero ser… (hesita) A gente tem uma excelente reação com o público. É bem surpreendente, até para nós. Como a Yangos tem um formato bem versátil, podemos tocar para todo tipo de público, até o de rodeios, que é super fechado. Tocamos na Semana Farroupilha de Porto Alegre e não levamos nenhuma facada (risos). Todo mundo é armado, sabe? Todo mundo participa carneando bicho para churrasco… Mas assim como a gente pode tocar para esse público, pode também tocar em um festival de jazz. Acredito que muito disso sejam os anos de palco, de vivência que temos. O público reage bem, principalmente fora do país. É muito bom tocar na Argentina, talvez porque eles gostem do respeito com o qual nós, que somos brasileiros, tratamos uma música que nasceu por lá. Também fora do Rio Grande do Sul é bom, porque acontece um fator surpresa, uma certa curiosidade. E por sermos uma banda instrumental, ou seja, não temos um idioma, não há a barreira de as pessoas não te compreenderem. Tocamos um estilo lúdico: pode ser folclórico, mas é livre, é sem barreiras. Eu particularmente adoro quando estou tocando e vejo que alguém está se balançando de olho fechado. É quando vejo que consegui levar aquela pessoa para um universo dela, um universo particular. E isso é muito o que buscamos, todos nós da Yangos, quando fazemos nossa música.

A presença da banda no palco é muito física, subverte totalmente o gênero. E acaba sendo um dos diferenciais mais chamativos da banda. Isso é ensaiado? E pelo visto é algo recente, pois no DVD com o cantor Dante Ramón Ledesma e nos poucos vídeos que estão no Youtube, a banda era bem mais “comportada”.
Penso que muito desta presença tenha vindo a partir de nossa ida à XXV Fiesta Nacional del Chamamé em Corrientes, na Argentina. Isso ocorreu pela primeira vez em janeiro de 2015. Até esta ocasião, no entendimento da Yangos, buscávamos ser mais comedidos no palco, acredito que por nossa origem como grupo estar ligada aos palcos de teatro. Foi o Lucio Yanel quem nos levou até o chamamé em sua essência e nos permitiu enxergar que sim, era permitido ser ”solto” no palco, desde que não se perdesse em qualidade musical. Acho divertido quando o público de hoje nos vê como uma banda instrumental de jazz regional com pegada rock, porque na verdade nossa pegada é mesmo do chamamé correntino, sul-americano, do jeito que conhecemos ao vivo na fonte deste tão vibrante ritmo, lá no berço de onde nasceu… pelo menos é o que tentamos (risos). No DVD que gravamos com o Dante Ramon Ledesma em 2012, ainda estávamos um tanto amarrados na ideia de que pra fazer música ”séria” era necessário ter uma postura de palco mais compenetrada. Isso, te confesso, era um desafio para mim em particular. Hoje, mais de 10 anos depois do início da Yangos, estamos mais relaxados neste sentido.

Você falou de tocar fora do país. Já foram à Europa?
Ainda não. Já rodamos duas ou três vezes numa rádio italiana, sei que nossa música já chegou lá por outros meios. O curioso é que lá somos vistos como um grupo de jazz. Como eles não conhecem os ritmos que tocamos, eles têm dificuldade até de entender a pulsação, então é como eles nos classificam.

Vocês têm um disco lançado apenas na Argentina. Conte um pouco sobre como surgiu esse disco, e se há alguma chance de ele ser editado por aqui.
Ele foi lançado em janeiro de 2016, e é um disco que nos conectou com algumas sensações que hoje enxergo como fundamentais para qualquer grupo. Ele é resultado de nosso convívio com o maestro Lucio Yanel, que nos emprestou seu talento e seu carinho, levando-nos até a origem de ritmos argentinos, paraguaios, chilenos, peruanos, uruguaios e sul-brasileiros. As primeiras lições que ele nos deu foram justamente estas que te descrevi anteriormente, com relação ao chamamé como ”estado de espírito”, como é possível fazer música instrumental popular de bom nível e como é importante divertir-se para divertir quem te assiste. Desta imersão tão intensa, surgiram novas composições do grupo, basicamente de chamamé e rasguido doble. Como não haveria deixar de ser, algumas destas músicas entraram no nosso repertório de shows, com excelente aceitação. Estamos viabilizando para no mais tardar julho um projeto de financiamento coletivo para uma edição deste CD aqui no Brasil também. Seria bárbaro, porque ao trabalho que foi lançado na Argentina, agregamos mais três músicas novas e estou muito empolgado com o fato de termos mantido as características do quarteto neste trabalho, que respeitosamente procurou capturar as raízes de nossa música sul-americana.

A Yangos é uma atividade exclusiva para todos os integrantes?
Para mim, Rafael e Cristiano, sim. O Tomás toca cavaquinho em uma banda de choro. Todos nós temos outras atividades profissionais, mas a Yangos é a prioridade na carreira musical de nós quatro.

E como está a agenda de shows de vocês? Porque está claro que vocês tem ambições estradeiras.
Acredito que essa seja nossa maior dificuldade atualmente. Mas acredito que no momento em que a gente tiver mais conhecimento desse movimento de circulação, quando entender como o mercado se movimenta, isso pode mudar. Estamos há dez anos com a banda, quase onze, e ainda tem gente na nossa cidade que não nos conhece. Essa é nossa outra grande fraqueza hoje.

Eu consigo imaginar a Yangos tanto como uma banda para exportação como para os festivais brasileiros. Porque é um show que chama a atenção pelo visual, mas principalmente é um show que faz dançar.
Tu não sabe o quanto você me deixa feliz ao falar isso, pois por muitos anos uma das barreiras que tivemos foi essa de que o “instrumental é música para gente inteligente”. A gente tenta há muito tempo deixar popular, sabe? E é um tipo de som que te dá possibilidade de fazer se sacudindo sem perder a ênfase no instrumental.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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