Três filmes: O sexo no cinema brasileiro

por Renan Guerra

As produções dos anos 70 e 80 levam eternamente a pecha de terem transformado o cinema nacional apenas em “putaria”, mesmo que, apesar da repulsa da população dita “de família” e do nariz empinado da crítica da época, essas produções são as que sempre levaram um público grande e fiel aos cinemas. Seria seguramente algo que os marxistas poderiam denominar como “as classes trabalhadoras vão ao cinema”. E no centro de São Paulo era realmente isso: pedreiros, caminhoneiros, feirantes e homens do trabalho braçal eram os que frequentavam os cinemas da Boca do Lixo e que faziam o capital girar.

Mesmo chamadas de ‘pornochanchadas’, a grande maioria desses filmes que levavam multidões aos cinemas não tinham nem encenações lá muito intensas (para os padrões atuais). O fato é que com a virada para os anos 80, os filmes internacionais começaram a aportar no Brasil, depois de anos de censura, trazendo algo completamente novo: o sexo explícito. “Garganta Profunda”, de 1972, havia modificado a forma de se fazer cinema ‘adulto’.

Na busca por um público cada vez mais ávido por ousadia, os três filmes aqui selecionados trazem a sexualidade à flor da pele, no maior estilo orgíaco do cinema brasileiro, mas claramente com intuitos mais complexos. Construindo percepções distintas e complementares sobre a sociedade, a liberação sexual e a “festa sem fim” dos anos 80, os longas remetem a conceitos clássicos da sexualidade, no sentido grego, bem como no bíblico, de Sodoma & Gomorra e Babilônico. Vale assistir seja por curiosidade sexual ou antropológica (risos):

“Giselle”, de Victor di Mello (1980)
Tendo como referência o filme francês “Emmanuelle” (1974), que foi lançado em 1979 no Brasil e fez muito sucesso, o filme carioca traz como título sua garota Giselle, uma adolescente rica e promíscua, que tem casos com sua madrasta, sua melhor amiga e o capataz da fazenda de seu pai. Vendido como o primeiro filme de sexo explícito do nosso cinema, o filme segue a linha soft porn, porém sempre rebuscando um olhar mordaz em relação a desestruturação familiar. Protagonizado pela novata Alba Valéria, o longa conta com atores como Carlo Mossy, Monique Lafond, Zózimo Bulbul, Nildo Parente e Maria Lúcia Dahl, protagonizando cenas antológicas, que passeiam por relações homossexuais, inter raciais, sadomasoquismo e o que mais você imaginar, inclusive uma sagaz percepção da pedofilia. Se lançado hoje, “Giselle” ainda renderia muita polêmica, especialmente pelo seu ar de ironia e despojamento, pois apesar de algumas atuações caricatas, a visão sem julgamentos do roteiro é que propõe um corte abrupto na sociedade. Na época, o filme levou mais de 14 milhões de espectadores às salas de cinema, tornando-se depois um clássico cult em VHS que merece ser revisitado atualmente.

“Rio Babilônia”, de Neville de Almeida (1982)
Sucesso de público e com respaldo artístico da crítica da época, o filme de Neville de Almeida levou milhões aos cinemas e se tornou um clássico proibido nas madrugadas da TV aberta. A nudez de Christiane Torloni, os bacanais regados a champanhe e cocaína e a famosa cena do menáge à trois na piscina, tudo levou “Rio Babilônia” a se tornar um clássico dos anos 80, porém mais que isso, o filme é um retrato muito perspicaz da relação entre morro e asfalto no Rio de Janeiro e traz um olhar certeiro sobre a fetichização das drogas pela elite. O filme acompanha a chegada de um importante industrial (a.k.a. traficante) ao Rio (Jardel Filho), tanto pela perspectiva de seu cicerone (Joel Barcelos), quanto da jornalista (Torloni) que tenta reunir provas para a prisão do magnata. De cinismo mordaz, “Rio Babilônia” é ousado e ainda causa frisson até hoje, seja por sua sensualidade despudorada ou por seu olhar sobre violência (que flerta com aquela perspectiva típica de Rubem Fonseca). Apesar da sempre falada cena da piscina, a sequência final é de deixar-nos boquiabertos. Vale frisar ainda a trilha sonora tipicamente anos 80 e o refrão pegajoso de “Babilônia Rock”, faixa que seria depois regravada por Fernanda Abreu.

“Oh! Rebuceteio”, de Cláudio Cunha (1984)
O clássico das madrugadas do Canal Brasil é o único filme que aqui consta com sexo explícito. Uma ousadia da mente de Cláudio Cunha, o filme tem seu nome inspirado em “Oh Calcutta!”, espetáculo off-Broadway que deixou muita gente de cabelo em pé nos anos 60/70. Seguindo o parâmetro teatral, “Oh! Rebuceteio” se passa durante a produção de uma peça, acompanhando a escalação do elenco e seus ensaios, onde o diretor (interpretado pelo próprio Cunha) busca métodos não ortodoxos para encontrar a verdade na atuação de seus atores. O principal método é a liberação sexual, chamada por ele de “metapráxis”. Com ares de obra do Tinto Brass, o filme cria um mosaico de personas típicas do cinema nacional, como a mãe carola, o homossexual recalcado e os atores que não temem usar do “nosso jeitinho”. Com jeitão de galhofa, Cláudio Cunha criou um clássico que mistura humor, sexualidade e um bocado de heresia. Além disso, fez uma das melhores cenas metalinguísticas do nosso cinema: o diretor Nenê Garcia mirando a câmera e dizendo de forma firme “Masturbem-se! Masturbem-se gostoso!”.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Bate a Fita

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– Cinema Brasileiro: Redescobrindo a Boca do Lixo (aqui)

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