Fellini ao vivo em São Paulo

Texto por Manoel Magalhães
Fotos por André Yamagami

Como parte do projeto Álbum, o Sesc Belenzinho recebeu no último sábado (02 de abril) uma apresentação especial com o reencontro da finada banda paulistana Fellini executando na íntegra “Amor Louco” (1990), seu quarto registro e último suspiro com a formação original. O disco hoje é uma referência cult esgotada em LP, fora dos maiores serviços de streaming, e, por consequência, fora da pauta da revisão da música brasileira feita por uma geração que ressuscita o vinil.

A reunião de um grupo de canções em um disco pode ter o seu alcance e o seu sentido limitados a um período definido (no caso do Fellini os anos 80 e o que vulgarmente chamamos de auge do rock brasileiro) ou ganhar a colaboração dos que o abraçam com mais entusiasmo crítico e dali espremem sentidos que amadurecem por décadas. A independência quase inocente do Fellini colocou o álbum instantaneamente na segunda possibilidade. A banda nunca alcançou o sucesso comercial, mas conseguiu servir de referência para Chico Science e Fred Zero Quatro, principais nomes do Manguebeat, e seu repertório volta e meia ressurge, como na recente gravação da cantora Céu para “Chico Buarque Song”.

Empreender qualquer iniciativa artística é deixar rastros para o futuro, códigos que podem ou não receber interpretações com o acréscimo do fator tempo. Cadão Volpato, vocalista e autor de todas as letras, reuniu em “Amor Louco” doze peças (contando com a faixa bônus “É o Destino”) de um lirismo raro, que misturam surrealismo, São Paulo e um romantismo desconcertante, e envelhecem ganhando força suficiente para firmar uma obra ainda a ser discutida com a devida profundidade do amadurecimento. O trabalho de Volpato inclui também livros como “Pessoas que Passam pelos Sonhos” e “Meu Filho, Meu Besouro”.

O show começou com “Cittá Piú Bella”, uma ode à capital paulista, com destaque aos versos “morte ao prefeito por enforcamento” em referência a Paulo Maluf e “o vento descobre ouro nos calçamentos” sintetizando o arrebatamento que mistura desordem urbana e beleza no mesmo estro poético. Logo depois, uma trinca que enfileirou “LSD”, de imagens sublimes como “os jasmins brilhavam como círios” ou “chamei você no telefone mudo dentro de um cartaz da Aeroflot”, “Chico Buarque Song” com sua referência acidental ao clássico “Olhos nos Olhos” — “shine inside you eyes my foolish eyes” — e “Amor Louco”, música epítome do cruzamento beleza-metrópole-musa: “Cidade proibida. Fácil vem, fácil vai. Só eu e você e o amor louco”.

Um dos pontos altos do disco é a união entre levadas eletrônicas e a dupla de violões de aço, que foram substituídos no show pelo baterista Lauro Lellis (que já integrou a banda de Tom Zé) e uma guitarra limpa de cada lado do palco. Acertaram conseguindo de alguma forma manter o contraste dos arranjos e as divisões de fraseados entre os guitarristas Jair Marcos e Thomas Pappon, cada um falando a sua própria língua no meio da poesia de Cadão.

O show foi bem pontuado pelo espalhar dos pseudo-sambas “Cidade Irmã” (“amo você como louco”), “Você é Música” (“eu vejo as ruas em você”) e “Samba das Luzes”, citada pelo vocalista como uma canção que dialoga diretamente com o atual momento de enfrentamento político: “Deixa o país inteiro apagar. Deixa o país inteiro, nega”. Com participação ativa da plateia nos coros, os velhos fãs e uma leva de jovens procuravam o Fellini com a mesma sede de participar de uma história com jeito de seita ainda secreta. O grupo executou também “Love ‘Til The Morning”, faixa mais dançante de “Amor Louco” e tocada raríssimas vezes ao vivo, com destaque para o baixo de Ricardo Salvagni e à piada de Cadão com o ritmo da bateria: “essa é a nossa música regravada pela Donna Summer”.

Terminada a lista do disco, uma chuva de pedidos pareceu surpreender a banda, que mesmo tocando a parte mais conhecida do seu repertório: “Rock Europeu” e “Teu Inglês” e também coisas mais obscuras como “Tudo Sobre Você” e “Massacres da Coletivização”, não conseguiu atender a todos que gritavam nomes de músicas dos cinco discos oficiais.

O saldo é o de uma grande celebração à obra do Fellini e a possibilidade de realimentar o entusiasmo sobre o legado de um álbum que construiu uma narrativa possível para a São Paulo dos últimos 30 anos, assim como fizeram Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini em outros períodos. O texto de Cadão Volpato por vezes ultrapassa o limite da letra de canção popular, deixando a poesia sobressaltada em um pequeno livro sobre a paixão que embaralha a cidade e o amor romântico no mesmo peito. Um sentido menos óbvio para a vida em sociedade. No final, fazendo contas frias de popularidade pode não parecer muito, mas eu, você e o “Amor Louco” podemos nos bastar.

– Manoel Magalhães (@chelseanights) é músico e jornalista. Vive no Rio de Janeiro.

 

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