Entrevista: Phenomenal Handclap Band

por Leonardo Vinhas

Soul, funk, pop setentista, Tim Maia, paisagens portuguesas, new wave, Jon Spencer, Tropicália… Conseguir a combinação desses elementos como referências para o som de uma banda parece mais bravata que um resultado plausível. Mas é o que obtém a Phenomenal Handclap Band, uma agremiação de muitos músicos orquestrada pela dupla Daniel Collás e Sean Maruand.

Collás e Marquand trabalhavam na cena underground nova-iorquina como DJs, produtores e músicos (de estúdio ou de turnês). Em 2008 decidiram, como disse Collás ao vlog Baeble Music, “investir em nossa própria música em vez de fazer as canções alheias soarem bem”. Chamaram amigos e conhecidos para as faixas, concentrando uma longa ficha técnica que praticamente servia como um mapa da cena de onde vieram. O disco homônimo, lançado em 2009, aliou o conhecimento enciclopédico da dupla com o talento e o trabalho de gente como Bing Ji Ling (Tommy Guerrero), Luke O’Malley (Antibalas, Mary J. Blige), Jon Spencer, Lady Tigra e outros. “15 to 20”, “Baby” e “You’ll Disappear” viraram pequenos hits e deram a banda hype, certa fama e muitas datas no seu país natal e na Europa.

Porém, nada disso vem sem um preço, como revela Daniel Collás nessa entrevista exclusiva ao Scream & Yell. A banda montada para excursionar (já que seria impossível levar todos os convidados ao palco) sentiu a pressão da agenda cheia e dos cachês insuficientes, e as expectativas e cobranças não passaram batido. Quando o segundo álbum de inéditas, “Form and Control”, saiu em 2012, egos, medos e exaustão se combinavam e a dupla não ficou tão feliz com o resultado – embora seja um disco notável, ainda que sensivelmente diferente do clima sensual e dançante do antecessor. Temas como a faixa-título, “The Unknown Faces at Father James Park” e “Winter Falls” são grandes canções, porém mais sombrias, densas.

Querendo retomar o clima uptempo, a leveza e a fruição da estreia, Daniel e Sean se deram tempo, e o terceiro disco, cujo título ainda não foi revelado, sai enfim neste ano. Pouco antes de começar mais uma sessão de mixagem das faixas, Daniel Collás, via Skype, contou ao S&Y o que podemos esperar do novo lançamento, repassou a trajetória da banda e as lições aprendidas com ela.

Acho que podemos começar do presente. O que a banda está fazendo agora, exatamente? A página do Facebook de vocês dizia apenas que “notícias muito boas para nós chegarão em breve”.
Sim, estamos terminando o novo disco. Basicamente ainda estamos mixando. Acho que tem mais a ver com o primeiro álbum, tem a ver com a sonoridade dele, e… o que mais posso dizer? O último (“Form and Control”) foi meio que uma saída do som original da banda, eu não gostei muito dele. Estávamos em turnê, era uma correria, parecia uma coisa competitiva… Estávamos preocupados com quem estávamos tocando, para quem estávamos abrindo, esse tipo de coisa.

Foi aquele clássico caso de o primeiro disco ter feito mais sucesso que vocês esperavam e o hype tê-los afetado mais do que imaginavam?
Bem, a gente tinha altas expectativas para o primeiro álbum. Nos esforçamos muitos e sabíamos que ele era um bom disco, acreditávamos que as pessoas fossem gostar. Mas quando você está em uma banda, e é uma equipe, cada um tem sua expectativa quando se atinge certo nível de sucesso, e isso não tem ligação na realidade, é apenas o que cada um espera. E esperam coisas diferentes. Aí você começa a também escutar cobranças do selo, do empresário, até de integrantes, então acho que foi isso que sofremos no segundo disco. Nesse terceiro voltamos aos discos que nos gostamos de ouvir, escutamos muita música que nos encanta e deixamos que essas sonoridades e essas influências chegassem até nós tranquilamente.

São quase quarto anos desde “Form and Control”. Ainda está todo mundo na banda, ou a formação mudou?
Mudou bastante, na verdade. Foi um longo processo para fazer “Form and Control”. Começamos com oito integrantes, depois éramos sete porque era muito caro viajar com tanta gente, já estava ficando difícil ganhar a vida tocando só nessa banda para muitos deles, e alguns queriam fazer outras coisas. Depois, éramos apenas seis tocando. Agora é novamente um projeto de estúdio. Voltamos a ser um sexteto, e há pessoas que estavam em turnê conosco, mas somos um projeto de estúdio, em que ficam como base três instrumentistas e três cantores. Se vai ser assim ao vivo, ainda não sabemos. Mas não sei se quero voltar a fazer parte de uma banda, não sei se essa dinâmica me interessa agora.

A sonoridade da Phenomenal Handclap Band tem uma perceptível influência do passado, mas mesmo o uso de equipamentos vintage não parece ser para emular uma época na qual vocês não viveram. Como vocês equilibram esses ouvidos no passado com o fato de não soarem retrô?
Antes de mais nada, obrigado por falar isso, porque é legal ouvir. É assim que eu ouço música: não quero emular nada, mas a maioria do que ouço é coisa antiga. Pessoas que gostam de dance music moderna tendem a ver nosso disco como algo retrô, mas o que queremos é que o som soe clássico, que seja algo que possa me orgulhar anos depois.

Os arranjos vocais são um diferencial da banda. Muitos de vocês cantam, e há os convidados. É quase como se tratassem as vozes como instrumentos. Se é esse o caso, como é o processo? Vocês compõem pensando numa voz específica, ou deixam a canção acontecer e depois determinam quem vai cantar?
É uma mistura de ambas as coisas, de compor pensando em quem vai cantar e depois procurar alguém que cante de forma adequada ao que foi escrito. Ter vozes femininas e masculinas é parte da estética da banda, e os arranjos têm muitos coros. Isso vem de bandas como Sly & The Family Stone e 5th Dimension, que têm diferentes cantores para cada tema, e que é algo que queremos ter em nossa música.

Tem algum(a) vocalista com quem gostaria de ter trabalhado e ainda não o fez?
Acho que sim. Mas estou animado com quem está nesse novo disco, então não (risos). Todo mundo que eu queria está ali.

A banda ganhou seu burburinho na internet quando surgiu. O hype pode ajudar ou atrapalhar, e pelo que falamos, parece que no caso de vocês foi um misto dos dois. A pergunta então é: como fica agora? Como vocês lidarão com isso nesse terceiro lançamento?
Já temos experiência com o segundo disco, e já chega um certo ponto que você sabe quando as coisas vão dar errado antes de elas acontecerem. Você sabe o que funciona e o que não, e se prepara para o que vier. É fácil se deixar levar pelo hype, eu já passei por isso e acho que agora não será mais problema. Acho que a resposta adequada para sua pergunta é que esse disco começou do ponto certo. No segundo deveríamos ter dado uma pausa para pensar as coisas Agora já sabemos o que queremos e o que não queremos fazer. Não estamos mais preocupados em seguir indicações de empresário no sentido de que é bom fazer o disco no momento x, ou a turnê y que não vai nos render dinheiro, mas é “boa para exposição”. Estamos mais seguros.

Você parece estar bem à frente das decisões da banda. Chega a assumir responsabilidades financeiras ou administrativas no dia a dia, ou não o faz para que isso não se misture com a música?
Eu tento me manter distante dessa rotina administrativa, mas é importante saber o que está acontecendo, e olho um pouco de tudo, sim.

Vocês parecem ter uma relação muito próxima com a música brasileira. A pista mais óbvia disso está na versão de “Tudo que Você Podia Ser”, do Clube da Esquina, para o disco “Red, Hot + Rio 2”. Eu me pergunto de onde vem isso. O vocal, aliás, é em português perfeito.
Foi uma paraguaia que gravou as vozes, e já me disseram que o português dela é impecável. Eu também falo português, mas não tão bem. Minha mãe é portuguesa.

Mas enfim, vocês ouvem muita música brasileira, não?
Com certeza é parte da nossa influência. Adoramos trabalhar com Marcos Valle (que tocou na versão do Clube da Esquina), adoro Tim Maia, Gilberto Gil… Tivemos os mesmos empresários que Os Mutantes e tocamos com eles em Glastonbury. Quando era novo, eu ouvia muito as coisas do Brasil, e ainda ouço. Mas é tudo do período mais antigo, dos anos 70 para trás. Já me mostraram coisas feitas atualmente, mas não me interessaram muito. Não sei porque, mas é assim que é.

Já que estamos falando de relações internacionais:? Vocês parecem ser mais populares na Europa que em seu país natal.
Provavelmente é verdade. Acredito que fazemos mais shows na Europa que nos Estados Unidos. Acho que isso é porque os europeus são mais interessados e abertos para música que nos EUA. E os EUA são um país imenso, é difícil saber o que as pessoas gostam no país todo, e, pelas distâncias, as informações se perdem. E não é tão atrativo viajar pelos EUA porque não há a interação com culturas diferentes como temos na Europa, com muitos países e cada qual com o seu modo de vida, e com regiões dentro deles que também são peculiares. E tem outra questão: nos festivais europeus, é legal que o pessoal lá viaja com toda a família, pais e filhos vão ao festival juntos. Já aqui isso nunca aconteceria [nos EUA], o público basicamente é de universitários.

Bem, temos alguns festivais na América do Sul de ambos os perfis que você fala.
Eu imagino. Inclusive já nos sondaram para tocar na América do Sul algumas vezes. Eu adoraria ir, mas sempre que estava para fechar, alguma coisa acontecia e o acordo não ia para a frente. Espero que isso não aconteça de novo e que o próximo convite realmente nos permita ir até aí.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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