Documentário: Incógnito

por Leonardo Vinhas

“Eu me achei, mas já não era mais eu”. Quem diz isso é Marcos Andrada, e isso é tudo que ele quer saber sobre si próprio. Marcos fracassou, como músico e como desenhista. Como filho, talvez. Fracasso que ele assume, e que ele diz não tê-lo prejudicado, mas que deixou cicatrizes que aparecem durante muitos dos 26 minutos do documentário “Incógnito”, dirigido por André Z. Pagnossim e Otávio Bertolo, que você pode assistir na integra no final da página.

Da inexpressão da banda Vultos, um quase-sucesso de um apagado underground paulista dos anos 1980, lembrado por ninguém a não ser pelos frequentadores mais antigos e empedernidos da Baratos Afins, ao encontro com um “eu que não é ele” através da comunhão com o ayahuasca, do isolamento auto-imposto na infância a um período colaborativo e extremamente produtivo com um músico 15 anos mais jovem. “Incógnito” cobre tudo, sempre nas palavras de seu protagonista. Embora use de fotos, imagens de arquivo (como um show para não mais de dez pessoas na Feira da Pompeia) e animações de seus carregados desenhos e pinturas, é a narrativa acidentada de Marcos, na qual mistura inglês e português, que desvenda a história que os diretores desejam contar.

A atipicidade do padrão narrativo é explicada por Bertolo. “Seria impossível adotar uma estrutura convencional, pois os depoimentos não tinham muita linearidade. Essa estrutura ajuda a mostrar o que é a vida dele e a maneira como ele pensa. Como não havia nenhum compromisso comercial com o filme, procuramos explorar essa possibilidade ao máximo”. Assim, o formato “talking heads”, recorrente em documentários, dá lugar a uma construção acidentada, mas coerente.

Tal construção traz uma jornada de isolamento, de criações, de inadequação. E, sobretudo, de autoconhecimento. Andrada sabe que sua vida é a música, que compor é o que ele quer, sabe, precisa e aceita fazer. Qualquer outra coisa que não seja isso não aparece em sua vida – ele certamente não a mostrará, se muito a deixará entrever. Mesmo que essa música esteja em um sem-número de fitas cassetes guardadas em sua casa, tão decadente e confortável como suas roupas. Mesmo que essa música venha na forma de um grande disco (“Bem Aéreo”, de 2014, sob o nome Sereialarm, que reunia Marcos ao mesmo Otávio Bertolo que co-dirige o documentário), que foi ignorado por quase toda a imprensa musical brasileira, inclusive a independente.

Pagnossim e Bertolo haviam sido colegas de faculdade e ficaram anos sem manter contato próximo. Ao se reencontrar, Bertolo mencionou o trabalho que vinha fazendo com Andrada no Sereialarm, e daí surgiu a ideia do documentário. E desde o início, ficou decidido que Marcos seria o único a aparecer na tela. “O risco que existia em abrir o filme para depoimentos de outras pessoas seria o de elas apenas ficarem elogiando o Marcos e sua obra, o que poderia fazer a coisa cair num trabalho ‘chapa-branca’. Isso era a última coisa que gostaríamos. Por isso escolhemos ter apenas o Marcos no filme. Se o que ele fala é verdade ou exagero, fica a cargo do espectador decidir”, diz Pagnossim.

Ele ainda explica que o risco da auto-glorificação do protagonista também passa longe. “Muitos artistas carregam uma sombra de personagem que, infelizmente, transcendem a própria obra. O Zé Mojica Marins, o Paulo Cesar Pereio, tantos outros. A gente poderia ter seguido uma linha com o Marcos falando as histórias hilárias e ‘proibidonas’ dos bastidores de música nos anos 80, por exemplo, quase um ‘whistleblower do rock nacional’, mas preferimos mostrar seus desenhos e sua música. É isso o que importa”. Bertolo complementa: “Eu tenho um problema sério com diretores, escritores e músicos que se esforçam bastante pra virar um personagem maior que a própria obra. A MPB e o rock possuem inúmeros exemplares desta fauna, só que a história e a música do Marcos são tão pouco conhecidas, que não existe esse risco e se acontecer, missão cumprida. Eu preferiria muito mais que a música transcendesse isso tudo, pois é assim que entendo a minha relação com essa história. O Marcos é um cara de extremos. Em alguns momentos eu prefiro ficar só com as músicas e deixar o personagem ‘ausente’”. Ou melhor, incógnito.

“Incógnito” é a história de um fracasso, mas o que fracassou? A comercialização da música ou seu autor como artista? Ou fracassaram as expectativas da família de Marcos? Pode ser que os verdadeiros fracassados sejam aqueles que não ouviram suas composições… Ao fim do filme, muita coisa permanece incógnita. Menos Marcos Andrada. Depois desse filme, você sempre vai se lembrar dele.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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