Livro: Clara Averbuck e Eva Uviedo

por Renata Arruda

“Essa é uma obra de ficção? Qualquer semelhança com personagens vivos ou mortos é problema de vocês”, é o aviso impresso no colofão de “Toureando o Diabo”, sétimo livro de Clara Averbuck e segundo em parceria com a ilustradora Eva Uviedo. No romance, Clara resgata a protagonista de seus dois primeiros romances, Camila, que agora, entrando na faixa dos trinta, resolve remexer em seus cadernos do passado e repassar sua vida, desde aquela época em que “queria ser a mais inteligente, a mais linda, a mais engraçada, a mais talentosa, a que mais se destacava, a que mais… agradava os caras” até o presente, em que entende que o seu fortalecimento e, nas suas palavras, “redenção” só é possível através da união com as outras mulheres. Mas ainda que haja várias boas passagens feministas, o livro não panfleta sobre isso: há ainda uma mistura de relatos sobre as relações conturbadas com diversos homens ao longo de sua vida e reflexões sobre o ofício de escrever.

Ainda que a autora faça questão de deixar bem clara a distinção entre a sua vida pessoal e a do seu alter ego (“Não é o meu eu. É um recurso literário largamente usado e sempre foi nessa literatura que eu mirei. Sempre disse que a Camila era o meu excesso e nunca neguei que usava a vida como matéria prima da minha obra, mas isso não significa que seja um cronograma do que eu vivi”, diz ela), muitas vezes a voz da personagem se confunde com a da própria Clara e é inevitável lembrar-se de seus artigos escritos no site Lugar de Mulher, que divide a autoria com Mari Messias e Ana Paula Barbi, em digressões como esta:

“Medo do ridículo do livro também. Não vou parir personagem heroína que faz tudo certinho, não vou criar personagem vilã que faz tudo errado e amam odiar. Não quero criar mulher abusada pra mostrar o que pode acontecer, não quero criar vítima nem algoz; não vou dar vida à vilã que todo mundo odeia, mas quer comer ou ser. Personagem mina humana, eu quero. Porque eu quero que as minas se identifiquem com ela. É pra elas que eu escrevo. Antes não era.”

Escrito em um fluxo de consciência que remete a uma versão mais rock and roll de Elvira Vigna, o livro não tem uma história propriamente dita, sendo antes uma narrativa costurada por bilhetes, poemas, letras de música e pensamentos escritos à mão, rabiscos soltos e desenhos diversos, que passam ao leitor a sensação de estar de posse de um diário íntimo da narradora-personagem. As ilustrações ficaram a cargo da artista Eva Uviedo, parceira de longa data de Clara, que traduz em imagens muitos dos sentimentos expostos pela personagem. O resultado é belíssimo.

Com o objetivo de ter maior independência, as autoras resolveram recorrer ao financiamento coletivo para viabilizar a brochura, e conseguiram reunir mais de 600 apoiadores, cujos investimentos ultrapassaram a marca inicial de 35 mil reais (agora o livro pode ser adquirido aqui). Na entrevista a seguir, Clara Averbuck e Eva Uviedo contam sobre como foi esta primeira experiência e falam ainda sobre o processo de criação da obra.

O livro foi financiado através do Catarse e eu me lembro que na época algumas pessoas criticaram tanto a iniciativa quanto o valor do projeto. Ao mesmo tempo, você se dizia surpresa que mais autores não recorriam ao crowdfunding para lançar seus livros. Minha pergunta é: com os altos custos da produção de um livro, será que para a maioria dos autores menos famosos não se torna inviável levantar um valor tão alto e por isso é mais garantido procurar a segurança das editoras?
Clara: Bom, meu projeto não era de um autor iniciante; é o meu sétimo livro, afinal, e eu tenho um público bastante fiel. E existe uma diferença entre fazer um livro e lançar um projeto de crowdfunding, com recompensas, taxas de envio, serviços de terceiros. SÓ um livro pode ser impresso com 5 mil reais, até menos, dependendo da tiragem. Lógico que um autor iniciante não pode pedir 35 mil em um projeto. Mas dá pra fazer por bem menos e bem menos livros. Mas nós quisemos fazer um projeto grande mesmo, e saiu um livro maravilhoso, impresso numa gráfica foda, todo ilustrado e que valeu cada segundo de incomodação. E sim, existe a incomodação e não é todo mundo que tem disposição pra passar por ela. O autor pode se sentir mais seguro e mais confortável entregando o texto pra editora, e realmente, é muito mais fácil. Agora, imagina se um autor best seller resolve fazer um financiamento coletivo? Eu ia achar maravilhoso. Ia ser uma revolução.

Agora que o livro está em fase de lançamento, como vocês avaliam todo o processo desde a criação até a autopublicação e divulgação independente? Saiu como o esperado? Pensam em repetir?
Clara: São novos modelos de economia para novos tempos e eu acho que essa ideia ainda vai muito longe. Eu, com certeza, vou repetir a experiência e não vou esquecer de colocar uma parte do dinheiro pra mim, porque um dos motivos do livro ter atrasado foi que eu não pude me dedicar inteiramente a ele; a gente tem que trabalhar e pagar as contas, afinal, e essa ideia de que o artista tem que ser abnegado e não querer viver da arte que produz não me agrada. Eu quero, sim, viver de vender meus livros, não de outros frilas que paguem minhas contas enquanto minha profissão tem que ser tratada como um hobby praticado nas horas vagas, e isso era impossível com o mercado editorial funcionando da maneira que funciona e pagando 10% do preço de capa pra quem escreveu o livro.

Eva: Sou control freak assumida e adoro ter o controle do processo inteiro. Sofro quando algo sai da linha do que eu acredito ser o certo. A Clara e eu botamos a mão desde a planilha de custos até a playlist pra tocar no evento, passando por toda a criação, edição, tudo, sempre de comum acordo. Dá trabalho, claro, mas a tranquilidade de ter poder de decisão sobre seu próprio projeto vale cada noite virada.

Clara, você poderia falar um pouco sobre a concepção do projeto e como foi o seu processo de criação dele? A decisão de trazer a Camila de volta já estava planejada ou foi algo que você decidiu ao longo do processo?
Clara: Não estava planejada, mas à medida que fui escrevendo o livro senti uma necessidade muito grande de reviver a Camila, que acabou no “Vida de Gato” (2004) com um pé na bunda e um coração partido e falando que era uma “mulherzinha com bolas” no “Máquina de Pinball” (2002). O processo de amadurecimento dela tem muito a ver com o meu, é claro, e eu gostei demais de ter trazido ela de volta, até porque deu pra puxar umas referências dos meus livros anteriores que quem já leu vai pescar.

Além do óbvio amadurecimento, o que você diria que mudou em Camila de “Máquina de Pinball” para cá? O que você imagina que aconteceu com ela durante esse período? Pode-se dizer que a Camila é completamente inspirada em você ou há histórias de outras mulheres nela também?
Clara: Alterego significa “outro eu”. Ou seja, não é o meu eu. É um recurso literário largamente usado e sempre foi nessa literatura que eu mirei. Sempre disse que a Camila era o meu excesso e nunca neguei que usava a vida como matéria prima da minha obra, mas isso não significa que seja um cronograma do que eu vivi. Tem muita ficção, ou seja, histórias inventadas, e tem também inspiração em outras mulheres. Aliás, elas foram a grande inspiração desse livro e eu quero muito que elas se identifiquem com essa Camila. A Camila antiga queria ser diferente das outras, especial, floquinho de neve único; a Camila de agora eu construí pra ser todas.

Você frequentemente se diz arrependida de certa passagem a respeito de estupro em seu primeiro livro. No “Toureando…” já encontramos tanto autora quanto personagem com uma outra visão sobre os homens, as mulheres e a vida. Você pode comentar um pouco sobre como se deu o seu envolvimento com o feminismo e como foi fazer essa autoavaliação da sua obra?
Clara: A gente não acorda um dia e virou feminista. Foi todo um processo de reconhecimento e desconstrução. Comecei a me interessar por feminismo por causa da minha autora brasileira favorita, a Carmen da Silva, que era mais conhecida por ter uma coluna na revista Claudia chamada “a arte de ser mulher”. Ela foi a responsável por introduzir o feminismo na imprensa brasileira bem pelas beiradas, já que estava falando com donas de casa dos anos 60 sobre protagonizarem suas próprias vidas em vez de serem coadjuvantes da dos maridos, sobre orgasmo, enfim, sobre questões das mulheres que ninguém nunca tinha tocado. Foi uma grande ruptura na época, já que, antes dela, quem fazia as vezes de “conselheiros” das angústias femininas eram homens assinando com pseudônimos femininos. Eu virei fã da Carmen por causa de seu romance “Sangue Sem Dono” (1964), que é maravilhoso, e fui atrás das outras obras dela. A partir dali comecei a pensar muito no assunto, pensar que “elas”, as feministas, estavam certas em várias questões. Ainda não me considerava feminista, tinha uma imagem muito estigmatizada da coisa toda, mas, à medida que fui me aprofundando, “elas” viraram “nós”. E a partir do momento em que percebi a importância de me colocar, de me posicionar, foi natural que minha escrita fosse mudando um pouco. Eu tenho uma escrita agressiva e direta mesmo, é o meu estilo, mas, no começo, eu tinha uma ânsia de não “ser mulherzinha”, sabe? Agora não tenho mais essa negação pelo feminino que eu tinha no começo. Eu considerava o feminino inferior, mais fraco, ruim; queria escrever como um cara. Minhas referências literárias eram homens, era algo natural pra mim. Não ter mais medo de ser mulher foi uma grande mudança não só na minha literatura, mas em como eu me posiciono na vida. E é por isso que a gente vive falando que representatividade importa. Hoje eu vejo meninas muito jovens querendo escrever e acho isso demais. Dito isso: a passagem do “Máquina de Pinball” com a qual implico é quando Camila diz que agradeceria se fosse estuprada porque os ingleses não gostam de sexo e ela não estava conseguindo transar por lá. Cagada de uma jovem escritora querendo chocar. Mandei mal, apenas.

O texto parece depender muito das imagens; gostaria de saber como foi o processo de criação. Vocês fizeram juntas, ou acontecia do desenho vir depois do texto ou vice-versa?
Clara: Eu escrevia, mandava pra Eva, ela desenhava, a gente discutia. O processo de escolher os textos dos caderninhos também foi bem legal. O trabalho de edição de texto foi nosso e isso foi incrível. Eu e a Eva construímos essa Camila juntas. Cortamos muito, muito texto, e alguns foram substituídos pelas ilustras, que realmente dão a liga do livro. O texto sozinho não existe.

Eva: A mesma coisa com os desenhos. Alguns eu diagramava junto com o texto e pensava: não, esse precisa escrever à mão, tem que ter a letra da Clara nessa imagem, vai dar a força que falta. E a gente é geminiana, muda de ideia loucamente, trocamos tudo de lugar mil vezes. Tem muita ilustração que eu fiz inspirada pela personagem, mas não sabia onde ia encaixar ainda, daí ficava zanzando de uma página pra outra até achar seu lugar. Quando todo mundo achou seu lugar, texto e imagens, demos o livro por terminado.

Eva, você pode falar sobre a escolha das ilustrações da série Sobre Amor & Outros Peixes e contar um pouco sobre sua inspiração para criá-la?
Eva: Não sei bem como surgiu essa série. Comecei desenhando peixes alados em todo lugar por volta de 2005, daí em diante a viagem aquática foi indo em várias direções. Eu curto muito a diversidade dos seres marinhos; saber de um animal como um tubarão, que é muito suave e ao mesmo tempo extremamente violento. Ou a arraia, que é completamente mansa, mas muito perigosa se você pisar nela. O polvo, envolvente; o peixe, fugaz. Fui identificando nas características deles muitos comportamentos que poderia atribuir a humanos, e por aí foi. A primeira vez que a gente juntou os dois universos, o da Clara e o meu, foi no livro “Nossa Senhora da Pequena Morte” (2008). Já estavam ali as mulheres com cabelo de tentáculo e tudo o mais. Acho que combina bem com a característica mutante da personagem, e nesse livro ela está, mais do que nunca, fugindo de um molde, ela está em eterna reconstrução. E por outro lado, acho que a história da Camila vai trazer uma compreensão das pessoas para as ilustrações. Por exemplo, tem uma hora em que ela narra um amor que apenas escapa, e no desenho quem está fugindo é um peixe. Daí vai construindo um universo simbólico que até agora era só meu, mas espero que vá indo para o mundo pra ser entendido de uma forma mais abstrata. A real é que desenho não é muito pra explicar, ele precisa apenas funcionar. Mas o significado está lá.

– Renata Arruda (@renata_arruda) é jornalista e assina o blog Prosa Espontânea.

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4 thoughts on “Livro: Clara Averbuck e Eva Uviedo

  1. Juro que tentei gostar da Clara mas ela outrora me passava uma imagem bem clara de fútil e agora, no Lugar de Mulher, me parece tão hipócrita nessa faceta super feminista. As outras duas meninas do LdM, Mari e Polly, são fenomenais mas tudo que a Clara escreve vem com um ranço de mentira tentando ser verdade.

  2. Podem me xingar de maníaco, pervertido e machista, mas tenho a opinião de que essa Clara Averbuck deve ter mais talento na cama do que para escrever esse jorro de pedantismo raso misturado com autoajuda subversiva para garotas de 14 anos que ela insiste em chamar de literatura. Ela não sabe escrever, mas parece ter outras habilidades bem mais interessantes.

  3. O livro não me interessou muito não, nem vou ler, mas achei interessante os traços das ilustrações. Tem um quê de xilogravura de cordel mas com tridimensionalidade. Bem legal.

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