Leonardo Panço fala de “Superfícies”

por Marcelo Costa

Leonardo Panço não para. Após deixar a Jason em 2010, ele ficou meses sem pegar na guitarra (“Sempre que tentava não tinha prazer”), mas quando voltou a tocar, riffs foram surgindo e, com eles, canções. E livros. Depois de estrear solo em 2014 com o ótimo “Tempos” (disponível para audição online e download gratuito aqui), Panço retorna com “Superfícies”, um projeto multimídia que une literatura, fotografia e música.

As fotos nasceram de uma viajar para o exterior em 2012, quando Panço começou a fotografar “fotos de parede, chão, toalha, mesa, teto, superfícies em geral”. Os pequenos contos surgiram também nessa viagem. E as canções instrumentais (15 músicos participaram das gravações) que acompanham o livro, funcionando como uma trilha sonora, são de várias fases: “Tem músicas que existem há 15 anos, acho”, ele conta.

“Superfícies” foca em um personagem que, em grande parte do tempo, exprime sua inadequação no mundo. Ele gosta de usar camisas de bandas, mas não gosta de chamar a atenção por isso. Ele tira o casaco quando todos colocam. Pensa num futuro que não aconteceu e, em certo momento, conta: “Sempre ouça as histórias, mas elas acontecem com outros”. Aqui, porém, é a sua versão. “Lembrei, ou inventei, não tenho certeza”.

Nesta conversa, Leonardo Panço conta como surgiu a ideia para o livro/disco “Superfícies” (que pode ser adquirido diretamente com ele via Facebook ou no e-mail leonardopanco@gmail.com), fala sobre os recentes lançamentos em fita K7 (“Ficam lindas”) de seu selo, o Tamborete, e também os planos futuros, que incluem uma possível tour de escritores músicos, com Jair Naves. Papo bom. Fala, Panço!

Você está lançando agora o livro “Superfícies”, que é um projeto multimídia. Como você o define? Qual era a ideia quando você começou a escrevê-lo?
Eu acabo chamando de livro, mas é um disco e livro ao mesmo tempo, né. Tudo partiu do começo de 2012 quando estava de férias no estrangeiro, pela primeira vez na Europa de bobeira e com algum dinheiro. As outras quatro vezes foram tocando ou escrevendo com 5 reais por dia pra viver. Mesmo. Aí uma amiga pediu fotos da viagem e eu não queria tirar. Põe no Google, o Big Ben tá lindão, mais do que o que eu tiraria. Aí veio a ideia de tirar fotos de parede, chão, toalha, mesa, teto, superfícies em geral. Fui fotografando por prazer, meu olho já se guiava automático. Já estava viajando há umas três semanas e não tinha escrito nada, os bloquinhos tudo vazios. E um dia, andando de trem, surgiram frases, umas viagens. Tinha algumas horas sem nada pra fazer, sem beber, sem sair, só ali parado vendo a paisagem, a chuva. Aí os textos começaram nesse dia. Veio o nome por causa das fotos também, quando eu vi que tinha uma unidade. “Superfícies”. Continuei fotografando e escrevendo no Brasil, gravei o primeiro disco, e antes mesmo de ele sair, comecei o novo. Tem músicas que existem há 15 anos, acho. Mas estavam em gravações horríveis, fora de rotação, eu não sabia mais tocar muitas coisas. Por mais de 10 anos procurei a pessoa que pudesse me ajudar a decifrar e só no ano passado consegui achar. Renato Ribeiro, ex-Gigante Animal, que toca com o Jair Naves. Com ele veio (Thiago) Babalu, também do Gigante (e da banda do Jair Naves). E aí fui (fazendo) por 1 ano e meio, depois de SP com eles, aqui no RJ com o Renato Rocha, do Detonautas, amigo desde os anos 80. Várias e várias segundas-feiras (único dia vazio na agenda dele) no quartinho da casa dele pirando nos pianos, mandolins, cordas, teclado New Order, glockenspiel…

A literatura está cada vez mais presente em sua obra: quantos livros já são?
Esse é o quarto. Em 2005 lancei o “Jason, 2001 uma Odisseia na Europa”, sobre a nossa tour louca por 13 países, 80 dias numa van e 62 shows. Muitas histórias, uma quase morte por afogamento, cervejas, retenções em fronteiras, squats, várias moedas, mil coisas. Em 2008 saiu o “Caras Dessa Idade Já Não Leem Manuais”. Queria muito não falar de rock, assim como agora no “Superfícies”, e durante 90 dias que passei na Alemanha, muitos desses dias sozinho e sem dinheiro (uma longa história), escrevi quase que 100% do livro lá. Aliás esses dois foram escritos assim, durante as viagens. Em 2011 saiu o “Esporro”, que estava em andamento desde 97, um longo parto. Nele estão histórias do underground do RJ, das loucuras das bandas aqui em 93/94.

O que te inspira na literatura? O que te faz ter vontade de escrever um livro?
Gosto muito de contar histórias, acho que parte daí. Nos últimos tempos tenho escrito muito com metáforas, mais viajante. Ainda preciso escrever de um modo que não achem que é tudo sobre minha vida. Ainda vai acontecer.

Isso é sempre uma questão complicada para escritores e letristas, mas vale a pergunta: não é tudo sobre a sua vida?
Acaba que grande parte é inspirada na própria vida do cara que escreve, mas também em coisas que ele vê, ouve, interpreta. E pode ouvir três, quatro coisas e juntar em uma só. Coisas que aconteceram em dois diferentes podem virar uma única grande história…

Você tem uma trajetória bastante ligada a um rock’n roll mais sujo, barulhento, e embora isso já tenha começado a mudar na sua estreia solo, “Tempos”, o “Superfícies” surpreende porque traz umas texturas ainda mais diferentes. A música “Zukauskas’, por exemplo, tem viola caipira! Qual foi a ideia para essa “trilha sonora”? Quem te ajudou nesse processo?
Acho que surpreende pra quem não me conhece porque ouço muita coisa e gosto de muita coisa. O que aconteceu foi que já era pra ter feito um disco diferente há muito tempo, mas não tinha tempo nem as pessoas certas. Estava muito preso a uma parte do Jason de produção executiva, marcar tour, show, entrevista, fazer os CDs pela Tamborete, pouco artístico, né. Quando saí da banda, minha cabeça ficou sem todas essas coisas e passei a pensar mais em tocar, escrever, sem a neurose de antes de querer que o mundo ouça e leia. Perguntaram: “ué, mas já outro disco?” Sim, e por que não, né? Pra que esperar. Mas eu amo teclados New Order, Information Society, Depeche Mode, muita coisa diferente. “Zukauskas” é o último nome do Renato Ribeiro, o guitarrista. Dei esse nome exatamente porque acho que de todas as músicas do disco, foi essa a que mais ficou diferente por causa de um músico que não eu. Ele pegou a viola caipira e gravou em SP, eu estava no RJ, e me mandou. E ficou lindo demais, né. Foi ideia dele. Novamente tem muita gente no disco, corro o risco de esquecer alguém, mas vejamos: Bateria tem Babalu, guitarras eu e os Renatos. Fernando do Rats no banjo e trompete, Kayo Iglesias fez glockenspiel e synth, eu toquei escaleta em algumas faixas, mandolim, glockenspiel também. No baixo é que tem uma galera: Flock, Velhote, Melvin, Findans, David. Quem ficou de fora?

Tem uma galera nas guitarras: Martin numa faixa, o Gabriel Muzak em outra, Jesse de Oliveira e Leonardo Cuccatti… o que me leva a outra pergunta: quando conversamos sobre o “Tempos”, você havia dito que seguia “sem vontade de tocar ao vivo sim”, que montar uma banda era complicado. O palco já não tem seduz mais?
Segue tudo igual. Não tenho tempo e paciência pra parte de sair de casa no fim de semana, pegar quatro bus para um ensaio, não tenho como pagar os músicos, os ensaios, etc. Acho que se for pra gastar, melhor fazer um disco novo. Não digo que não farei nunca, mas acho que precisa de uma estrutura que não tenho. Quero muito fazer esses programas de Youtube, umas sessions que você faz duas, três faixas, isso eu faria. Tipo o Converse Rubber Tracks. E outra coisa que eu faria seria tocar sozinho ou com outra pessoa para ler partes do livro, tipo uma tour que fiz em 2008, do segundo livro. Aliás, propus isso pro Jair Naves, quando ele lançar o livro dele, da gente sair junto. Vamos ver. Mas com banda, cinco, seis músicos, precisa de um dinheiro que não existe.

Além do livro, você está lançando dois discos em fita k7: “Odeia Eu”, do Jason; e o “Tempos”, seu disco solo. Como surgiu a ideia de apostar no formato?
Quando vi que estavam lançando (K7) de novo, fui ver como e onde fazer e achei a Nathalia, da Fita Preta, lá em Buenos Aires, e descobri que no Brasil não faz mais, né. (Mas) Ficam lindas. Foi uma maneira que achei de ter novos lançamentos pela Tamborete investindo pouco, já que a tiragem é pequena. Adoraria fazer LPs, mas ainda não achei uma banda pra apostar junto. Ia fazer um do Jason há uns anos, mas por n questões não saiu. E acabei usando o dinheiro pros meus próprios discos e livros.

Há quantas anda a Tamborete? Quais os próximos passos?
A Tamborete já vai devagar há alguns anos, não tenho mais o pique de antes. Mas ano passado saiu meu disco, agora o “Superfícies”, os dois k7s, as camisas da Ive Seixas, refiz algumas camisas para o catálogo também. Em breve sai o DVD dos Abreus de forma digital e, pelo menos, mais dois novos lançamentos em K7, um deles já acertado, que é o disco do Derrota, de Americana-SP. Tem tantos lançamentos que dá pra fazer em K7, né. Por ora é seguir promovendo não só o “Superfícies”, mas os outros livros e o primeiro disco, ainda é tudo muito recente. As pessoas ainda não ouviram.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– “Tempos” reflete um pouco o monte de coisas diferentes que eu ouço”, Panço (2015) (aqui)
– “Gostaria não de ser uma mega corporação, mas de crescer um pouco”, Panço (2005) (aqui)
– Marco Antonio Bart: “Existe o rrrrrrrrrroque carioca e existe o ROCK carioca” (aqui)

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2 thoughts on “Leonardo Panço fala de “Superfícies”

  1. Vi uma entrevista ontem (28/04/2017) do Panço na Rede Minas – Programa Alto-Falante.
    Não fazia a menor idéia de quem era…Ouvi agora as músicas do CD Superfícies…O cara é muito bom! é o nosso Vangelis de trilha sonora! Como é que um cara desses não faz sucesso uai???
    Parabéns Panço, vou divulgar seu trabalho aqui em Minas!!!!

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