Entrevista: Nobat fala sobre “O Novato”

por Lafaiete Júnior

Nobat nasceu em Belo Horizonte e ainda na infância foi morar na cidade de Três Marias, interior de Minas Gerais. No meio da adolescência voltou para a capital do estado. “A cabeça deu uma bagunçada, as realidades eram muito antagônicas. No interior eu desconhecia de muito longe os meios de socialização que os jovens de uma cidade grande tinham”, relembra.

Em 2012, aos 21 anos, Nobat lançou seu primeiro trabalho, “Disco Arranhado”, um álbum de rock que gritava por atenção em meio aos seus pares. Passados três anos o músico entrega sua segunda obra: “O Novato” (disponível para download no Soundcloud) é um salto musical e estético que chama atenção por si só, sem elevar o tom. Atrelado a isso está uma busca do músico para reencontrar sua voz artística, algo que vem desde antes de começar de fato a produção do álbum. E essa voz é perceptível nas 10 faixas do disco, que foi produzido por Daniel Nunes, da banda Constantina, e tem participações de Helio Flanders, Tata Aeroplano e Julia Branco.

Nessa entrevista ao Scream & Yell, Nobat demonstra ser um jovem aparentemente bem centrado e com os dois pés fincados ao chão. Seja falando sobre seus primeiros passos na música, o aprendizado na produção d’ “O Novato”, a glamourização das bandas independentes, a música e a cultura de Belo Horizonte hoje, a geração Y, o possível impacto na música brasileira de selos patrocinados por grandes empresas e muito mais. Confira!

“O Novato” me parece ser um novo começo na sua carreira, tamanho é o salto em relação ao teu primeiro trabalho (“Disco Arranhado”, de 2012). Talvez até por isso a escolha do próprio nome. Você chegou a pensar nisso para construir esse álbum, como se fosse uma espécie de desafio pra você mesmo?
Com certeza! É engraçada essa coisa do nome do disco porque é bem sintoma de tudo essa história. “O Novato” foi uma música que fiz em cima de um poema do Marcelo Diniz, um poeta e amigo de Belo Horizonte. Fizemos essa música no colégio, acho que estávamos no segundo ano do ensino médio. Naquela época eu compunha coisas assim, retratos das minhas experiências e do meu referencial musical também. Quando cheguei ao final da adolescência, achei que eu era pedante demais e me desinteressei por isso tudo, quis porque quis fazer rock, coisas mais simples e diretas e nunca fui muito bom nisso, sempre fui meio prolixo, meio hermético… e eram essas coisas que eu gostava. Construir [o álbum] “O Novato” me fez voltar às origens que, naquele momento, eram novas pra mim e absolutamente desconhecidas por todos que me conheciam e sabiam do meu trabalho. Era também um momento de uma reformatação de imaginário, um processo de auto-descoberta e de mudança imensa dos meus desejos e angústias. O disco revela um novato que de fato sou em tudo isso.

Ainda nessa coisa de olhar para os dois discos: seu primeiro trabalho soa mais rebelde, rock. Talvez mais adolescente mesmo, no sentido de gritar para ser percebido pelo mundo. Ainda assim com letras meio que desesperançosas. E agora “O Novato” me parece ter uma introspecção e melancolia para todos os lados, o que me parece ser uma característica do mundo contemporâneo. Você acredita que esse lance do ambiente à sua volta te leva para esses caminhos musicais?
Lancei o “Disco Arranhado” com 21 anos de idade, hoje tenho 25. Acho que além das questões todas da pergunta anterior, há sim o universo à minha volta. A geração Y na qual me incluo é um lote de humanoides que não deu muito certo pros padrões que o sistema vigente exige. Digo isso por vários motivos, mas sobretudo pelas frustrações que percebo nos meus amigos, primos, colegas que entraram no tal universo do mercado de trabalho. O mito do vencedor fracassou em nós, não nos estimula nada, é extremamente tedioso pra gente. Sabe aquela figura do executivo bem sucedido com suas roupas executivas, aquele celular e maletinha? Aquilo não é uma aspiração pra gente, pelo que posso captar. Também fomos filhos de uma classe média que introjetou em nós uma noção de que éramos especiais, a escola também fez isso e a disputa era a base das relações pessoais. Quando adolescente, todo mundo queria ser mais bonito, mais esperto, mais inteligente, melhor naquele esporte que o outro. Disputamos o tempo inteiro. De tudo que nos foi dado, só sobrou uma gigantesca parcela de ego e isso tem se mostrado uma característica ruim a meu ver, daí a melancolia indissociável. Há também a influência de artistas anteriores que grifaram e introduziram na música pop mundial essa questão, claro, e isso me influencia como influencia a todos que compõem.

E quais são esses artistas pra você?
Temos uma leva gigantesca de artistas que fizeram isso. Poderia citar Lou Reed, David Bowie, Billy Corgan, Thom Yorke. Há pouco tempo li um artigo da revista Piauí também super interessante falando um pouco sobre esses dilemas da geração Y com o mundo contemporâneo e associando as letras do Los Hermanos à todas as questões que enfrentam essas pessoas. Sempre achei que o Los Hermanos tinha conseguido um feito incrível que era o de ter alcançado coisas do inconsciente coletivo dessa geração, mas nunca havia relacionado isso às letras e esse artigo me elucidou uma série de questões que me fazem colocar o Los Hermanos, sobretudo o Marcelo Camelo, nesse lugar também.

E você pensava em algo específico sobre esse lance do Los Hermanos ter alcançado o inconsciente coletivo dessa geração? Já que não relacionava isso às letras… Como você achava ou acha que a banda chegou onde chegou?
Eu simplesmente identificava uma potência muito ampla, extremamente abrangente na obra dos Hermanos, mas não entendia muito bem porquê. No colégio, na época de ensino médio, eu e uns pouquíssimos colegas/amigos éramos muito fãs de Los Hermanos e vez ou outra tocávamos as músicas nos corredores do colégio, na sala entre uma aula e outra, nos recreios… fomos meio que “espalhando” pra uma galera. Terminou que o hino da minha sala naquele ano foi “Sentimental”, cantávamos aquilo a plenos pulmões e todo mundo vivia aquela experiência de corpo e alma mesmo, não porque éramos grandes amigos e uma turma extremamente unida, mas porque essa música nos unia num canto comum. A galera que não dava a mínima pra música, aqueles que adoravam, os alternativos, os playboys e patricinhas, os nerds, todo mundo entoava aquilo em alto tom porque aquele universo havia sido apresentado a eles, bastou ouvirem pra se pregarem naquilo. Eu sabia que havia algo naquelas músicas que falava pra todo mundo, mas não sabia o que era exatamente. Suspeitava da melancolia nas melodias que é, sem dúvida, um componente forte nesse sentido, mas a letra eu nunca tinha parado pra associar. Não sei o que necessariamente fez a banda chegar onde chegou em termos de carreira, sucesso e público, nem se trata disso a questão pra mim – as causas desse fato tem inúmeras variáveis que desconheço completamente, até porque Los Hermanos foi uma banda que viveu uma grande estrutura, lançou discos pela Abril, enfim…

Voltando um pouco: como era a sua adolescência? O que você ouvia?
Tive uma adolescência que é um retrato de paradoxos intensos, por assim dizer. Nasci em Belo Horizonte, mas no final da infância me mudei pra uma cidade pacata do interior de Minas Gerais, Três Marias. Lá é um lugar cheio de referências da literatura, Manoelzão, personagem de Guimarães Rosa vivia em Andrequicé, um distrito a vinte minutos de onde eu morava, tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, entre outras coisas. Havia muitos escritores independentes autorais, sempre rolava o lançamento de um livro da ou sobre a cidade que era repleta de lendas também. Por essas e outras razões, me envolvi muito cedo com os livros. Em termos de música, minha principal escola sempre foi minha casa. Lá ouvia-se de tudo, mas a música popular brasileira, especialmente o Clube da Esquina, tinha um destaque maior. Meus pais são muito festivos, boêmios, quase beatniks e nas festas frequentes lá em casa ouvia-se e tocava-se de tudo – meu pai é um excelente violonista, mas não é profissional. No início da adolescência fui apresentado ao universo do rock e do hip hop, eram os anos 2000 e o rap tinha uma crescente absurda. Ouvi discos de muitos artistas de ambientes estéticos diversos e aprendi a tocar violão também nessa época. Me lembro de umas coisas como Vinícius de Moraes, Lô Borges, Beto Guedes, Gonzaguinha, Beatles, Legião Urbana, Caetano, Gil, Chico, Ednardo, Belchior, sei lá… Depois, no meio da adolescência, tive que voltar pra BH e esse foi um período muito difícil, mas também extremamente importante e definidor. A cabeça deu uma bagunçada, as realidades eram muito antagônicas. No interior eu desconhecia de muito longe os meios de socialização que os jovens de uma cidade grande tinham. A única questão que existia era o horário da pelada e quando íamos nos encontrar pra tocar algum instrumento, andar de bicicleta pela cidade, ir ao clube pra nadar e fazer coisas, até bolinha de gude rolava. Em BH havia a força da publicidade, roupas de marca, tecnologia, o enjaulamento em função do transito e da violência urbana. Enfim, um universo totalmente outro em que fui entrando com dor aos poucos, mas nunca sofri com socialização. Fiz amigos muito cedo e guardei pro meu quarto minhas frustrações.

Você já fazia música quando era adolescente? Quando isso começou na sua vida?
A primeira música que fiz mesmo foi com uns 12 anos, mais ou menos. Uma coisa meio CPM 22 horrorosa, mas tenho super carinho por ela e me lembro até hoje da letra patética e da melodia assombrosa. Aquele foi o início das coisas, foi quando virei a chavinha na minha cabeça que me tornava possível criar minhas próprias músicas ao invés de só reproduzir aquelas que eu gostava. Foi muito importante perceber que aquilo era um meio de expressão, me permitiu muita coisa aquele gesto.

Nesse período você chegou a ter banda ou alguma coisa do tipo? Ou era algo mais seu mesmo?
Era algo mais meu. As bandas que tive nesse período não eram nada a sério e nem mesmo autorais. Nunca fizemos nenhum show. Compunha músicas pra mim e mostrava aos meus amigos sem fazer a menor ideia de o que eu faria com aquilo, muito menos como ou quando.

Você disse que se envolveu desde cedo com os livros. O que você lia e curte ler hoje?
No início, na infância me lembro de ter lido alguns clássicos que meus pais e tios deram, tipo “Capitães da Areia”, “Moreninha”, “Dom Casmurro”, “Invahoé”, coisas assim, mas também era fissurado por uma coleção chamada Turma dos Tigres e lia Sidney Sheldon, Agatha Christie – minha mãe tinha quase tudo e eu delirava quando novinho naquelas tramas policiais, depois me desinteressei. No início da adolescência já cai no Guimarães por força da cidade, mas na época não entendi nada, só fui recuperar mais a frente. Drummond foi me aplicado nessa época também e foi minha primeira grande imersão na poesia, tive um professor de literatura foda que soube muito bem como aplicar. Há pouco tempo eu tive muito envolvido com o existencialismo e algumas de suas tangências. “O Mito de Sísifo”, do Albert Camus, “Vigiar e Punir”, do Foucault, o “Outsider”, do Colin Wilson, que é um ensaio incrível sobre a presença do “estranhóide” na arte textual, em vários gêneros (poesia, romances, cantigas) do século XV ao XX, mas depois dei uma aliviada porque eram livros “pesados” demais. Ganhei recentemente a antologia completa da Ana Cristina César, chamada “Poética”, e tô em orgasmos múltiplos, descobri outra guru na minha vida.

Pra você qual é a maior diferença entre o Nobat de 2012 e o Nobat de 2015? E existe alguma semelhança entre eles?
Nossa, essa pergunta é difícil demais! Acho que as diferenças são muitas e elas pautam comportamentos e performances que montam uma distinção clara. O Nobat de 2012 era mais pessimista, por incrível que pareça, e um tanto mais animado com tudo também. O “eu” de agora é mais tranquilo e otimista, mas curiosamente mais relaxado com tudo. Sou mais organizado hoje em dia também e como artista sei que encaro de maneira mais profissional o fazer, apesar de que também tenho uma visão menos empolgada com os cenários do que tinha antes.

E qual a sua visão dos cenários de antes e agora?
Ah, minha visão, pra ser bem honesto, muda todos os dias. Cada vez surge uma coisa que confirma umas visões e outras que me fazem renegar alguns pontos. Acho que o cenário hoje tem uma potência absurda e pode crescer muito com suas próprias pernas. Cada artista hoje tem condições de trilhar seu caminho sem depender de modelos pré-estabelecidos por nenhuma estrutura e muito menos por outros artistas que acham que já sabem o que tem que ser feito ou aquilo que não deve ser feito, né? Agora surgiram esses selos todos aí que têm patrocínios consideráveis de grandes marcas e estão aplicando isso em algumas carreiras independentes. Um exemplo disso é o StereoMono, selo do [produtor musical Carlos Eduardo] Miranda bancado por uma grande marca de cerveja e que pegou algumas bandas, como o Boogarins, por exemplo. Tenho uma visão muito turva do que isso pode significar e como vai impactar na cena brasileira. Não sei se fará bem pra toda uma cena ou se vai criar mais um clube de privilegiados como faziam as majors na época áurea da indústria fonográfica e distanciar ainda mais os outros artistas do público potencial deles, sabe? É difícil porque percebo pelos festivais onde vou ou que produzo que passou a existir um público, mesmo que restrito, que glamourizou o independente e criou relações diretas com bandas e artistas de todo o país justamente porque ficou um buraco entre a queda da indústria (o fim da intervenção de grandes estruturas no mercado alternativo e de rock) e essa reerguida do independente mesmo. É claro que é ótimo ver uma banda foda como Boogarins recebendo retorno e atenção pelo belo trabalho que sempre fizeram, os caras são correria e talentosos pra caramba. Não é deles que tô falando. Mas fico com medo do que vão ser os próximos momentos do cenário nacional depois dessas intervenções de grandes estruturas novamente.

É, não parece ser possível prever o que vai rolar… Li uma vez algum músico, que não lembro quem é, falando que o cenário ainda era unido do jeito que é porque ninguém ainda tinha “estourado” nos moldes da velha indústria. O que você acha disso?
Faz sentido. Acredito mesmo que o fato de estar todo mundo num mesmo universo ou pelo menos bem próximos um do outro cria uma consistência nas relações e uma teia mais “justa” e firme, digamos assim. Os envolvidos de todos os projetos e estruturas terminam sendo um pouco mais solidários porque sabem que tá todo mundo na mesma e a tarefa não é fácil pra ninguém, o interesse é no TODO também e não apenas num projeto. A galera passou a perceber a importância do TODO pras coisas rolarem de modo mais consistente. Quando o interesse acontece no TODO, a partir de uma estética ou de um grupo, as pessoas acabam produzindo mais e melhor a favor desse TODO, o que faz o TODO crescer e ampliar suas possibilidades. Podemos chamar esse TODO de cena ou qualquer coisa que dê essa ideia. Digo isso, mas acredito que seja muito importante pra esse momento agora que vários projetos estourem, tipo o próprio Boogarins, que além de uma banda super talentosa é também uma galera do rolê. Mas ia ser massa mesmo se fossem vários. Isso vai propor uma nova relação com a música em vários níveis e pode ressignificar padrões muito engessados que há tempos são a pauta principal dos veículos de comunicação em massa, do público em geral e pode reposicionar vários holofotes pra outros territórios da música.

Já que você falou disso… O que você acha desse lance da glamourização do independente?
Acho interessante. Sempre houve essa figura pelo que vejo e leio. A galera que ia comprar zines nas bancas, que gravava fitas k7 ou que se reunia nos anos 80 pra juntar moedas e comprar juntos o último e recém-lançado disco do Hojerizah, por exemplo – um amigo me disse que fazia isso com sua turma de adolescência. É massa porque pra pessoa que faz isso é uma maneira de se sentir diferente, descolada, conhecer aquilo que ninguém conhece e sair falando e mostrando pra todo mundo. Pro lado de cá é importante porque é isso que faz a coisa toda valer a pena e fazer sentido. Se não houver quem goste dessas coisas que não estão na TV, nas rádios e na grande mídia (mesmo a da internet) e dê alguma importância especial a elas, não há porque sairmos dos estúdios ou dos nossos quartos.

Qual a importância do Daniel Nunes, do Constantina, na produção do disco?
A importância do Daniel é toda. Sem ele não havia a menor chance de realizar esse disco. Ele teve a sensibilidade de entrar no universo do disco e abrir as portas dele pra outras possibilidades também. Ele me provocou questões importantes pra que eu ou mudasse ou aprendesse a defender melhor as intenções do disco, isso me deixou mais seguro quanto ao que tinha que ser feito e aquilo que deveria ser descartado. Outro ponto importante foi a colaboração ou transformação completa de alguns arranjos – “O Novato”, faixa-título, tem intervenções do Daniel que fizeram da música outro lugar; “Como Sempre” e “Outros Dias” têm outras paisagens bem mais maduras do que tinham antes e por aí vai. O processo das gravações também foi muito rico, artesanal, feito à mão e pensado humanamente, tudo proposto e arquitetado pelo Daniel. Foi uma parceria fundamental pra que pudéssemos publicar o disco dentro das suas riquezas.

O que você aprendeu durante a produção d’“O Novato”?
Aprendi muita coisa, nossa! Me tornei outro ser humano e outro músico ao sair do Pequeno Quarto, ateliê do Dani onde gravamos todas as coisas. Aprendi a esperar o tempo das coisas que devem ser feitas, ditas, concluídas em pensamento. Aprendi a respeitar muito o trabalho de outras pessoas e a me desinteressar completamente por um hábito costumeiro de sempre exercer um olhar ácido e crítico em relação a tudo e todos. Aprendi a importância do silêncio e o continente presente em cada possibilidade. Ver o Daniel usando pré-amplificadores, colchões, posicionando microfones feito um cientista maluco e encontrando aquele som que nós definimos por meio de conversas e trocas de referências me animou muito também a investir em conhecimento e em equipamentos pra que eu possa, num futuro próximo, registrar minhas próprias coisas.

Por que fazer uma música para (ou sobre) o Bruno César, da banda Hotel Catete? E por que convidar o Tatá Aeroplano para participar da faixa?
Na verdade, essa música foi feita em cima de uma história que ouvi do próprio Bruno César, que é um artista que eu admiro cada vez mais e uma pessoa por quem tenho um carinho imenso. Nem sei se deveria registrar isso aqui, mas não vou ter tempo de pedir permissão pra ele! (risos) Certa vez, Bruno me procurou pelo telefone ou pelo Facebook, não me lembro, pra me contar que estava super mal e triste, daí fomos nos encontrar no [Edifício] Maletta e ele me contou o que estava vivendo com aquela paixão costumeira no agir dele e até mesmo nas canções do Hotel Catete. Aquilo me estourou a cabeça e comecei no dia mesmo a escrever os primeiros versos da canção enquanto contornava as palavras com a melodia torta que eu descobri ali. A intenção era pegar uma coisa bem sambolero, samba-canção, aquele melodrama de Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Vicente Celestino, Nelson Gonçalves e transportar para a contemporaneidade – coisas que fazem muito bem o Hotel Catete e o próprio Tatá Aeroplano em sua carreira solo. Foi deles que eu bebi essa possibilidade. O Tatá tinha vindo participar da abertura do VAC [Verão Arte Contemporânea] 2015 no Museu da Pampulha no final do ano passado e depois do show que ele fez com a Frame Circus e a Zero Um, dois projetos dele com Paulo Beto, fomos pro Baixo Centro e depois pra minha casa. Apresentei a canção e o convidei pra participar no disco e ele topou. Depois ele esqueceu, mas topou de novo! (risos)

E como rolou a parceria com Helio Flanders em “Não Deu”?
Essa música fala sobre as várias relações que construí na minha vida com a cidade de São Paulo. Mantenho uma relação paradoxal com aquele lugar, um misto de deslumbre e desilusão, de encanto e rejeição, de desejo e angústia. Quando terminei de compor a canção, fiquei cantarolando a música e percebi que havia ali uma influência enorme do canto do Helio Flanders e fiquei brincando que gostaria muito que ele participasse – já tinha até pensado em quais partes logo quando fiz a letra e a melodia no violão. Um certo dia, fiz os arranjos da música num software de programação eletrônica e mandei pra ele como quem não espera nada, só pra fazer o que tinha que fazer. Eu ia gravar um vídeo pra revista Rolling Stone e queria que ele participasse ali. Pra minha surpresa, em poucas horas ele respondeu e topou fazer parte do vídeo e depois do disco. A música é sobre a relação com São Paulo e é interpretada por dois “estrangeiros”, meio que do mato – tudo bem que hoje Helio é quase um paulistano depois de tanto tempo morando na cidade, mas é de Cuiabá.

Ainda falando em parcerias… Se não me engano a faixa “LSD”, com a Julia Branco, foi a primeira do disco que você soltou, lá em 2013. E já indicava uma guinada em relação ao seu primeiro disco. Era uma maneira de preparar as pessoas que te acompanham para o que viria ou era pra você mesmo se encontrar?
Era um pouco de cada coisa. Queria me reencontrar e comunicar a quem estava por perto dessa busca por mim mesmo na experiência artística e também na social. Lancei a música porque me empolgou muito a conclusão dela no estúdio e houve também uma ansiedade em compartilhar aquilo. Eram os primeiros passos d’“O Novato”.

O disco não tem exatamente uma banda fixa te acompanhando por todas as faixas e é repleto de participações. Por que essa escolha?
Esse disco em termos estéticos musicais é também uma consequência do que tem acontecido e do que pude experimentar em Belo Horizonte indo a shows e ouvindo discos dos artistas e bandas daqui. A cidade tem explodido sua criatividade e tem uma das principais safras da música independente autoral contemporânea no Brasil. Era um anseio inicial meu convidar cada músico que influenciou cada arranjo pra que aquilo tivesse a pluralidade que desejava e a referência que merecia cada canção. Foi um privilégio poder realizar isso em parte e homenagear, digamos, os artistas e bandas que influenciaram a composição ou os arranjos das músicas.

No meio do niilismo do disco tem a faixa “Luísa”, que é possivelmente a única canção mais colorida e esperançosa de todo o álbum. Fale um pouco sobre o que a música e a musa representam pra você.
Luísa é minha namorada, com quem divido minha passagem pelo planeta lado a lado. Somos corpos irmãos e é com ela também que compartilho os trabalhos dentro do projeto: fazemos a produção, negociamos shows, divulgamos o trabalho pra jornalistas e produtores, produzimos material, foto, vídeos, enfim… É ao lado dela que vivencio as coisas e, a princípio, era uma música que não iria entrar no disco, mas algumas opiniões nas quais confio muito – incluindo a dela, claro – não permitiram que a canção ficasse de fora. Eu também passei a ler de forma diferente e gostei de ter uma música assim no álbum que é denso demais tem hora.

O disco todo é bem orgânico, mas acredito que a faixa “Como Sempre” seja a mais orgânica de todas, confere?
Acredito que as mais orgânicas sejam as duas músicas do final do disco, “Judith” e ela. Foi uma loucura a história dessa canção no processo. Eu havia desenhado um arranjo pra ela com clarone, harpa, sintetizador e bateria e foi a primeira música que mandei pro Daniel quando ele ainda estava na Europa estudando. Eu pensava também nela como uma música do meio do projeto, tipo a quinta faixa. Acho que me lembro de ouvir o Dani dizer que essa era a música favorita dele pela letra e melodia. Foi a primeira música em que ele propôs alguma coisa também, me mandou de lá mesmo um experimento com uma paisagem eletrônica como introdução. Eu, a princípio achei muito bonito, mas depois achei que era uma beleza um pouco doce demais pra atmosfera que eu percebia e desejava pra “Como Sempre”. Daí fomos tentando fazer as coisas e respeitei muito a inquietação do Dani naquilo, eu sabia que ele tinha algo com a faixa e estava muito curioso pra ver onde chegaria aquela movimentação. Ela terminou sendo a última música em que trabalhamos. Já havíamos gravado tudo e estávamos na semana final do disco quando percebemos que era hora de mexer de vez nela e foi quando rolou o grande estalo no Daniel. Ele percebeu que o disco estava começando com um prelúdio, aquela paisagem sonora na introdução de “O Novato” [faixa-título], daí ele propôs que colocássemos “Como Sempre” fechando o álbum, pra que ela fosse uma espécie de poslúdio e sugeriu um arranjo com a viola, as vozes e texturas que ele mesmo construiu. Achei foda porque o disco já estava com as instrumentações muito pesadas e a música seria só mais uma com aquele tanto de instrumento. Fora o fato de que o arranjo previsto anteriormente enterrava a letra da música que é de uma importância fundamental pra percepção de tudo ali.

Você citou a música “Judith”. Existe de fato alguém que é personagem ou inspiração pra essa?
Essa música é sobre a história de amor entre dois amigos meus. Um se chamava Thiago e outro Julian e a letra narra a paixão acontecendo pelos olhos do Thiago. Nunca tinha visto Thiago se apaixonar e quando aquilo aconteceu foi de uma beleza rara poder acompanhar as confusões na cabeça dele, como amigo. E isso fez com quem eu escrevesse a letra e canção.

O que você acha da música produzida em Belo Horizonte hoje? O que mais te encanta e até mesmo o que não te agrada?
Como eu disse anteriormente, a música produzida em BH é a principal referência pra feitura desse disco. Acredito que aqui estamos produzindo bem coisas muito corajosas e que merecem muito destaque. Sou fã demais de algumas coisas como Constantina, Dibigode, A Fase Rosa, Iconili, Zimun, Roger Deff, LG Lopes, Câmera, Valsa Binária, Hotel Catete, Carmen Fem… É tanta coisa que fica difícil lembrar de tudo. A cidade também tem vivido uma revolução impressionante nos formatos de produção de eventos e ocupação de espaços públicos. O carnaval daqui já é uma realidade que considero belíssima, além de outras propostas que lotam a agenda da semana cultural e artística aqui. O que não gosto é o fato da cidade ainda ser representativa da cena cover, mesmo respeitando muito quem faz esse trabalho (até porque quem faz se diverte e tá levantando aí sua grana), mas ver a cidade construindo uma imagem tão bonita e importante em sua cena autoral e perceber que as pessoas daqui ainda não compraram de vez isso, constatar que a galera ainda prefere gastar muito dinheiro pra ver se reproduzir bandas e artistas passados (ainda que eternos) é o diagnóstico mais indiscutível de que ainda temos muito o que fazer. É um paradoxo chatíssimo e sempre perigoso. O novo aqui ainda é um problema sério e isso só engorda as montanhas que os artistas têm que atravessar pra conseguir fazer seu trabalho sobreviver.

E o que a própria Belo Horizonte representa na sua vida? Qual a tua relação com a cidade?
Amo Belo Horizonte, acho uma cidade incrível, belíssima de verdade. Tem problemas sérios, um prefeito que não gosta de gente, uma lógica urbana cada vez mais perversa que prima por interesses empresariais e cumpre apenas os compromissos eleitorais firmados com os grandes financiadores de campanhas, que tenta apagar a história da cidade rabiscando verticalmente lugares que são berços importantes como Lagoinha, Santa Tereza e tudo mais. No entanto a juventude daqui, entre erros e acertos, tem se movimentado bastante e tem se empoderado da cidade de uma maneira inteligente. O baixo centro da cidade é uma prova disso todo final de semana. Os eventos gratuitos, em praças, em estacionamentos, em edifícios abandonados são uma ponta de esperança. O Espaço Comum Luiz Estrela é uma esperança. O Duelo de MCs é uma esperança. O carnaval de Belo Horizonte é uma realidade que inflama muito essa esperança.

Tirando a música, o que você acha que mais te influencia para fazer música?
Ultimamente o cinema e as artes plásticas. A literatura sempre foi também foi um componente muito vivo na feitura dos meus experimentos na arte em geral. Mas ultimamente o cinema tomou uma importância maior e as artes plásticas, por sua versatilidade e formatos mais amplos, também têm me provocado mais nesse momento da vida.

Você pode falar sobre os filmes e artistas/trabalhos de artes plásticas que têm te provocado? E o motivo pelo qual te provocam, se é que é possível verbalizar isso.
Nossa, é tanta coisa que a gente vai assimilando que vai ser difícil recuperar tudo assim, mas sei que o disco é bem cinematográfico naquilo que capto em Lars von Trier, por exemplo – que revela tudo com trilhas sonoras muito impiedosas -, “Melancolia” e “Anticristo”, por serem mais arrastados, lentos e rígidos me parecem mais conectados ao imaginário do disco e podiam ser panfletos do que disse. Francis Bacon foi um artista que visitei por muitas vezes enquanto realizava o disco e, com certeza, me trouxe signos que foram traduzidos ali. O trabalho dele é de uma subversão em relação à imagem e, sobretudo, ao corpo, que me pareceu muito associado ao que eu percebia na concepção de “O Novato”, que é aquele que se revela obliquamente, aos poucos, sempre nas quinas. Existe uma artista alemã contemporânea que também peguei por esse lance do Bacon, a Alexandra Levasseur. Ela compôs uma série de obras que, sem dúvida alguma, tem total relação com “O Novato”. Ela foi uma das principais referências minhas, inclusive, pra concepção do projeto gráfico antes de convidar o Bruno Nunes (Caixa Amarela), que é o outro artista visual que muito me propõe e que foi quem fez a capa. O Frederico Amoz, artista belo-horizontino a quem dedico o disco, é uma pessoa com quem conversei muito sobre a voz, sobre a música que emplastifica, dá formas e curvas ao silêncio. Tem um fotógrafo americano, acho, Tom Cabrera, que também me trouxe muitas informações e que usei muito como referência pelas texturas nas fotografias, principalmente, e novamente pelo aspecto disforme das suas imagens. Fora coisas de mestres como Oiticica, Tunga, Cildo Meireles, que me fazem muito a cabeça.

Quais discos você tem ouvido nos últimos tempos?
Os que não saem de jeito nenhum da playlist são o novo álbum da Elza Soares, “A Mulher do Fim do Mundo”, “Finally We Are No One”, da banda islandesa Múm, o “Urubu” do Tom Jobim, “Hail to the thief”, do Radiohead, “Na Loucura e na Lucidez”, do Tatá Aeroplano e sempre há algo do Caê. Por último agora tenho furado o “Onqotô”.

O que você espera para o seu futuro?
Por hora, pretendo circular no Brasil todo, quero levar esse show pra cada estado do país, passar por festivais interessantes. Por enquanto só temos datas confirmadas em Belo Horizonte, Curitiba e São Paulo. Tenho um sonho também de realizar o vinil d’ “O Novato”. Espero que possa continuar fazendo músicas e experimentos na arte, em qualquer outra linguagem. Já estou compondo músicas pra um novo disco que não sei como e quando vai ser, muito menos seu nome ou planos, vou aos poucos descobrindo seus desenhos. Também pretendo fazer uma instalação que já arquitetei e que pretendo lançar no início desse ano agora.

Você já fez instalação antes? Qual seu envolvimento com esse universo?
Na verdade, costumo frequentar muitas instalações, mas nunca fiz uma antes. É um desejo novo que surgiu como apreciador. A minha única experiência direta com a linguagem aconteceu quando assinei a direção musical da performance-instalação Roxo, do multiartista Tiago Tereza, que estreou na Virada Cultural da UFMG, abrindo o show do Hermeto Pascoal. No mais, meu contato com instalações se deu somente como receptor.

Na minha percepção “O Novato” é um disco mais niilista. E com isso penso no nosso mundo hoje, que está cada vez mais estranho, sem sentido, sei lá… Você acha que o mundo tem jeito?
Otimista que sou, gostaria de dizer o contrário, mas realista que tenho sido digo hoje que o mundo não tem jeito. Mas acho que nunca teve e as coisas rumaram sempre em direção ao caos. Estamos experimentando o início de um sacode pesado no mundo todo e a energia do planeta tá meio pesada. Acredito muito nas pessoas, todo mundo tem jeito, a questão são as estruturas imaleáveis que não cedem nem ao sinal do mais trágico contexto.

– Lafaiete Júnior (@lafaietejunior) é jornalista e assina o blog Veia Urbana

Leia também:
– Luan Nobat: “A Tropicália foi fundamental na minha adolescência” (aqui)

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