Entrevista: Paulinho Moska

por Marcos Paulino

Pouco mais de um ano se passou entre o momento em que Moska e Fito Páez se conheceram e o lançamento do CD “Loucura Total”, recém-apresentado. A empatia instantânea virou a parceria que deu origem às 12 faixas do disco, produzido por Liminha. Aliás, discos, no plural, já que há uma versão em português e outra em espanhol, ordem do CEO da Sony Music latina, que, segundo Moska, gostou muito do projeto.

Estranho que Moska e Fito tenham demorado tanto pra se encontrar. Em 2011, Moska contava: “A partir do meu encontro musical com Jorge Drexler passei a me apresentar com frequência em alguns países da América do Sul, principalmente Uruguai, Argentina e Chile. Cada vez conheço mais artistas hermanos e ao mesmo tempo percebo o grande engano de nossa parte em ignorar praticamente toda essa produção de música sul-americana”.

Habitué do Brasil desde o final dos anos 80, onde já gravou com vários artistas, Fito Páez acredita que cabe ao Brasil buscar mais conversa (musical) com os vizinhos. Em entrevista ao Scream & Yell em 2013, Fito opinou: “O Brasil, fazendo essa conversa, fará com que todo o continente mude. Porque é um pais muito importante culturalmente” (nós do S&Y estamos tentando). Mas salientava: “O importante é a relação construída com as pessoas”.

De qualquer modo, Moska e Fito agora querem ir em busca do tempo perdido e já planejam participações de um no show do outro e vice-versa. Nesta entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell, Moska fala do disco “Loucura Total” (“Fiquei muita feliz por esse projeto ter dado certo”), sobre como vê o trabalho de compor (“Quem trabalha sozinho, acaba se fechando”), teatro e cinema, avisando: “Não me defino como músico, mas como artista ou compositor”.

Entre você conhecer o Fito e resolverem lançar um disco juntos se passou apenas um ano. Foi amizade à primeira vista?
[Risos] Amizade se constrói. O que a gente teve à primeira vista foi a descoberta da química. Sentamos pra compor e no primeiro dia fizemos cinco músicas. Dessas, três estão no disco. Fiquei muita feliz por esse projeto ter dado certo, porque une um brasileiro e um argentino, duas línguas, duas culturas. O Brasil costuma virar as costas pra América do Sul, mas os outros países tem uma relação com a gente de interesse, celebração, admiração. Descobri isso há 14 anos, quando conheci o [compositor uruguaio] Jorge Drexler e aprendi a falar espanhol conversando, cantando, conhecendo artistas. Estive muitas vezes na Argentina, no Uruguai, no Chile, na Colômbia, na Venezuela, gravei vários compositores desses países. O Fito fez a mesma coisa em relação ao Brasil, gravou com vários artistas daqui. Nos encontramos no meio desse caminho e tudo foi muito natural, pois um conhecia a linguagem do outro.

Você acredita que essa rivalidade que se construiu entre Brasil e Argentina acaba atrapalhando o relacionamento cultural entre os dois países, especialmente na música?
Não tenho a menor dúvida de que o brasileiro é educado com esse preconceito. As novelas mexicanas são piores que as nossas, a Colômbia tem o narcotráfico, o Paraguai faz produto falso, a Argentina é nosso pior inimigo na Copa do Mundo e por aí vai. E a exuberância que tem nossa música e nossos muitos gênios fazem com que a gente acredite numa autossuficiência. Isso atrapalha a relação com um povo que é muito mais parecido com a gente do que norte-americanos ou japoneses ou europeus. O disco de certa forma discute essa relação, de forma alegre e divertida.

Curioso que, com seu interesse pela música da América do Sul e o do Fito pela brasileira, vocês tenham demorado tanto pra se encontrar. Esse encontro foi programado ou casual?
Surgiu da cabeça de um diretor artístico, o Bruno Batista, da Sony brasileira, que conhecia muito os dois. Ele me ligou dizendo que eu e o Fito éramos os dois únicos artistas do mundo pop dispostos a fazer o encontro das duas línguas. Mas a gente precisava ver se dava certo trabalharmos juntos na prática. Foram três encontros pra compor em Buenos Aires e um em Trancoso. O Bruno foi brilhante, porque um diretor artístico serve justamente pra pensar em projetos. Começamos como um projeto alternativo, mas o presidente da Sony latina se encantou com a ideia e acabamos por lançar o disco em dois idiomas.

Como foi a logística pra gravar o disco em duas línguas?
Primeiro, precisamos pensar em como seria o disco. O Fito veio pro Rio e gravamos cada um cantando um trecho da mesma música, algumas partes em português, outras em espanhol. Quando veio a ideia de lançarmos dois discos, voltamos pro estúdio. Fui pra Buenos Aires e fizemos as versões do português pro espanhol e vice-versa. Gravamos tudo e as duas versões foram mixadas em Miami.

Como vocês estão programando pra fazer os shows juntos, já que cada um tem sua própria agenda?
Por enquanto, um vai fazer participação no show do outro. Em novembro, vou pra Guadalajara, no México, pra cantar umas cinco ou seis músicas do disco num show dele. A ideia é trazer ele pra algum show meu aqui. Vamos experimentando, sentindo a reação da galera e dando tempo pro disco se espalhar. Se sair uma turnê grande do disco, deve ser em 2016.

Você com frequência participa de projetos de outros artistas. Por que acha que é tão requisitado?
Tenho um programa de TV, o “Zumbido”, que completou 10 anos. Foram 262 artistas entrevistados e cantei com cada um deles. Só uma pessoa com muita vontade de se misturar pode encarar isso, porque você pode imaginar que encontrei todo tipo de gente, dos mais loucos aos mais geniais, passando pelas figuras mais estranhas, diferentes e maravilhosas que você pode calcular. Quando comecei a tocar violão, com 13 anos, tudo que queria era cantar naquela rodinha, conhecer as pessoas. Música começou pra mim como consequência do encontro. O que me interessa é tocar violão bem pra sentar do lado de qualquer cara com quem eu queira me comunicar, levar um som junto e, a partir desse encontro, fortalecer a música dos dois. O outro me interessa, me melhora. Quem trabalha sozinho, acaba se fechando dentro do universo que construiu e já não consegue olhar pra fora. E acaba gravando cinco discos iguaizinhos. Eu não, preciso do outro como matéria prima.

Você tem também um lado ator, com participações em programas de TV e no cinema. Pretende fazer novos trabalhos nessa área?
Não vejo como um lado, pra mim está tudo junto. Não me defino como músico, mas como artista ou compositor. Mas não compositor só de canções. No dicionário, está que compor é juntar as coisas conforme seu critério, seu olhar. A fotografia me interessa, o cinema me interessa. Me formei em teatro e por causa dele eu li, aí a literatura passou a me interessar. Depois a ciência, a física, a química, a biologia. Tudo está ligado. Uma foto muito boa às vezes me dá uma frase, com ela escrevo um poema e com ele faço uma música. Quando a música está pronta, pode entrar num projeto com um cara de outro país e faço uma versão pra ela. Vejo as coisas que faço como corpos vivos. Não consigo pensar que tudo está encerrado quando gravo um disco, porque tudo continua muito vivo, as coisas vão se comunicando. Quando canto num show, estou sendo um ator. Conheço fotógrafos, poetas, atores e cantores muito melhores que eu. Tento construir um novo melhor a partir da junção de outras coisas, sem a necessidade de ser o melhor em cada uma delas.

Marcos Paulino é editor do caderno Plug (plugmusic.zip.net), da Gazeta de Limeira.

Leia também:
– Entrevista: Fito Paez (2013): “Se você vende mais ou menos não é importante” (aqui)
– “No Sé Si Es Baires o Madrid”, de Fito Paez: um disco para ouvir e ouvir e ouvir (aqui)
– “Grandes Canciones”, Fito Paez: preste atenção nas grandes baladas (aqui)
– João Barone: “Charly García e Fito Páez influenciaram Herbert mais que qualquer artista (aqui)

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