Três perguntas: Khrystal

por Daniel Tavares

Khrystal chamou a atenção do Brasil na segunda edição do reality show The Voice, em 2012, quando interpretou visceralmente “A Carne” (música de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Capelletti gravada por Elza Soares), mas, muito tempo antes, ela já tinha conquistado um grande número de fãs em seu estado natal (o Rio Grande do Norte) e em estados vizinhos.

Abordando sempre a música de raiz nordestina, mas inserindo elementos modernos, Khrystal Saraiva tem dois discos no currículo: o debute “Coisa de Preto” (2007), em que exaltava o Coco e outros estilos tipicamente nordestinos, e “Dois Tempos” (2012), lançado quando já era conhecida nacionalmente e disponível para download gratuito no site da cantora.

Conversamos com a potiguar sobre seus planos, seus projetos, o vindouro terceiro CD e sobre o que ela acha da música que é feita no Nordeste hoje (“É tudo muito urgente e eu particularmente acho isso um saco”) e, claro, sobre o The Voice (“É ingênuo pensar que um programa de TV faz a carreira de um artista”). Você confere a conversa logo abaixo.

Hoje quase não há artistas que abordam o Coco e outros ritmos nordestinos como você faz. Você vê algum futuro para o forró, para o baião, para o Coco ou estes ritmos devem continuar seguindo na contramão, tornando-se cada vez mais “eruditos”, reservados apenas para os mais antenados?
Acho que cada dia mais esse campo nordestino do folclore e dos ritmos ligados a nossa tradição vem servindo de filão para músico mal intencionado. Eles se dizem “filhos de Gonzaga” quando na verdade estão usando dessa riqueza para circular com uma música feia e vulgar. É apenas caô. E o povo cai nessa. Isso atrapalha quem leva o negócio a sério. É tudo muito urgente e eu particularmente acho isso um saco. Um bom trabalho precisa da generosidade de um público pra ir se construindo e isso demanda tempo, algo que ninguém mais tem pra dar. Não dá pra falar de Gonzaga sem falar de João do Vale, de Jackson do Pandeiro, de Severino Ramos, de Sivuca, de Dominguinhos, de Jacinto Silva. Com o mundo ligeiro, esses nomes se perdem na poeira da estrada e quem falou mais fácil, leva. O Brasil nunca precisou tanto de intérpretes de verdade.

Como você avalia a projeção que o programa The Voice deu para a sua carreira e quais os seus planos para o futuro, principalmente em relação ao terceiro CD, mas também outros projetos, como o seu trabalho com a big band de Eugênio Graça?
O The Voice me apresentou para um número maior de pessoas. Isso é muito bom. Mas é ingênuo pensar que um programa de TV faz a carreira de um artista. A carreira de um artista é feita no dia a dia, cada tijolo na sua vez e é assim a minha vida. Tô terminando meu terceiro CD e espero viajar bastante com ele. Minha carreira hoje se divide em três frentes: meu trabalho solo; meu segundo projeto paralelo que se chama “Qu4tro” que é uma banda de compositores e estamos realizando atualmente uma turnê no circuito do Nordeste onde novas canções e parcerias são apresentadas ao lado de releituras pouco óbvias que vão de Hermeto Pascoal a Genival Lacerda; e o “Pipoca Doce” que é um projeto com duas amigas queridas que desenvolvemos para as crianças. Disso tudo vem as decorrências, os discos, os shows, a vida. O trabalho com a Big Band vem sendo muito bacana, a sonoridade é outra… pra uma cantora tão acostumada com o som de banda, como eu. Eles montaram o espetáculo “Do Nordeste ao Jazz” com arranjos lindíssimos e me convidaram como solista. Adorei. Acho incrível o trabalho do Maestro Eugênio e fico feliz sempre que ele me chama pra perto.

E quanto ao projeto Qu4tro, que reúne Khrystal (voz, guitarra, percussão), José Fontes (voz, guitarra, baixo), Ronaldo Freire (flauta, pífano, voz) e Sami Tarik (percussão, voz)? Num Brasil tão carente de se entregar para músicas de verdadeira qualidade, seria um grande desperdício não registrar uma das apresentações de vocês. Existem planos para entrar em estúdio brevemente?
Na verdade, já estamos gravando umas coisas. Vídeos dessa feitura vão entrar muito em breve na internet. Nosso desejo maior é gravar um DVD, acredito nesse projeto, porque adoro vídeo, acredito na proposta do Qu4tro, porque é sério e de qualidade e sei que nosso caminho é bem bonito.

Daniel Tavares é jornalista e já escreveu sobre Amadou Diallo e Bruce Springsteen (aqui) e entrevistou Nando Reis (aqui) e Jonnata Doll e os Garotos Solventes (aqui)

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