Três perguntas: Aldan

por Bruno Lisboa

Após dois discos de sonoridade próxima ao pop rock – o EP “Você Já Roubou Hoje?” (2010) e o álbum “Uma Nova Humilhação” (2012) – e com quase uma década de atividade, a banda belo-horizontina Aldan atinge a maturidade musical com o recém-lançado e mais experimental “Pode Ser Que Daqui Um Tempo Eu Tenha Trinta” (2015).

Os três discos da banda podem ser baixados no Bancamp (http://aldan.bandcamp.com) de maneira gratuita ou adquiridos fisicamente pelo Tubo Cultural (https://www.facebook.com/vemprotubo) e nas apresentações ao vivo do quarteto.

Formado por Fernando Bones (baixo e voz), Marcus Vinícius Evaristo (guitarra e voz), Bruno Carlos (bateria e voz) e Davi Brêtas (guitarra), o Aldan envereda agora por uma nova trilha musical em “Pode Ser Que Daqui Um Tempo Eu Tenha Trinta”, que consegue dialogar adequadamente com a temática conceitual e existencialista das letras.

“Nossos anseios artísticos estavam bem alinhados, aí o conceito e o nome do disco acabaram aparecendo nesse período”, explica Marcus Vinicius em conversa por e-mail. Ele ainda fala sobre a influência que a cidade exerce no trabalho (“Acho que BH interfere nas composições porque a cidade produz muita imagem pra cabeça colecionar”) e planos para o futuro. Confira.

No novo disco vocês optaram por uma sonoridade mais visceral e experimental comparado aos anteriores. Como foi a gravação e como se deu esta transição sonora?
Uma vez, o Thales, d’A Fase Rosa, disse: “Vocês carregam uma estranheza nas letras, têm referências legais e boa performance no palco, mas as bases são de uma banda de pop rock”. Era o resumo do que a gente achava também. Só que demorou um pouco pra descobrir como isso se dava. E tinha tudo a ver com a forma que construíamos a música e com o desperdício das nossas habilidades. Eu chegava aos ensaios com as composições, aí arranjávamos ali, partindo de um Sol maior, batida 4/4 e com o cara do estúdio falando que o período ia acabar em 15 minutos. Um terreno fértil para recorrer aos convencionalismos do rock, sabe? É claro que arranjos bons e experimentais podem surgir de uma jam nesses moldes, mas a maturidade nos ajudou a enxergar que com a gente não funciona assim. Nos ajudou, também, a entender o que cada integrante faz de melhor. O Bones, por exemplo, era só o baixista da banda. Agora ele compôs e cantou quatro músicas, tocou uma caralhada de coisas e ainda produziu o disco. Sobre a gravação, eu e o Bones escolhemos um conjunto de composições e fizemos uma “pré-pré-produção”. Quebramos a cabeça nos arranjos e testamos milhões de possibilidade na casa dele. Paralelamente, nós quatro trocamos mais de 200 e-mails sobre referências de bandas, clipes, fotos, timbres, mixagens, etc. Depois a banda toda foi para o sítio dos meus pais fechar os arranjos, num processo chamado “Los Hermanos de pobre”. Nossos anseios artísticos estavam bem alinhados, aí o conceito e o nome do disco acabaram aparecendo nesse período. A parte do estúdio foi rápida: chegamos com tudo pronto e anotado. 14 meses de pré-produção para dois meses de gravação. Essa proporção ilustra bem o processo.

Alusões à Belo Horizonte volta e meia surgem nas composições. De que maneira a cidade interfere no modo composição das letras?
Viemos todos de classe média baixa, da escola pública. Então a adolescência não teve Savassi, não teve Diesel (Udora). Mas se perguntar das bandas de pagode de BH da época, nos lembraremos de todas, hahaha. Legal essa coisa das pessoas terem experiências de cidade completamente diversos. Não estou falando de classismo, e sim de nostalgias, de inconscientes coletivos diferentes na mesma cidade e geração… Mas parando de divagar e respondendo sua pergunta, é uma relação bipolar com BH, né? Os refrões de “27º” e “Praça 7” parecem jingles da prefeitura, já “Rogério Ceni” fala que a cidade torce pro goleirinho do São Paulo. O que é um ultra xingamento. Acho que BH interfere nas composições porque a cidade produz muita imagem pra cabeça colecionar. Além da nostalgia.

Três anos separam “Pode ser…” de “Uma Nova Humilhação”. O que aconteceu neste período e quais são os planos futuros da banda?
O clipe de “Praça 7” abriu algumas portas e acabamos estendendo o ciclo do “Uma Nova Humilhação”. Mas em 2014 tivemos que parar para desaprender o que a gente fazia. King Krule, XXYYXX, Cassiano, Chinese Cookie Poets, The Internet e mais um tanto de gente bagunçaram nossa cabeça impactando nosso senso estético. Foi como assistir a um show do Jair Naves: você não se lembra mais quem era antes do show. O lado pessoal também mudou muito porque a galera casou e dois integrantes tiveram filhos (eu sou o único da banda que ainda mora com os pais). A vida adulta, apesar das responsabilidades, te faz chutar o balde de algumas expectativas, o que é muito bom para a criação. Aí precisamos de um ano de pré-produção pra absorver isso tudo. Bom, o nosso objetivo é fazer coisas cada vez mais legais. Queremos fazer uns sete clipes desse disco e divulgá-lo bastante, mas não vamos demorar muito para lançar o próximo trabalho, que vai ser de protopunk. Além disso, o Davi (guitarrista) está desembolando umas mini-turnês para esse semestre. Nunca fomos para o nordeste, mas dessa vez vai rolar. Lá é prioridade.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão

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