Entrevista: Érika Machado

por Bruno Lisboa

Com carreira iniciada há quase 10 anos, Érika Machado é uma artista da canção. Em seu álbum de estreia, “No Cimento” (2006), ela já dava sinais de que a mescla de elementos da música pop com recursos eletrônicos poderia render grandes canções, e, três anos mais tarde, consolidaria o formato com o excelente “Bem Me Quer Mal Me Quer” (2009), sacramentando também outra característica marcante de sua música: o formato agridoce das letras.

Agora, seis anos depois (após uma temporada na Europa), Érika Machado retorna com seu terceiro trabalho, “Superultramegafluuu” (2015), sua primeira imersão direta no universo infantil: “Dessa vez queria fazer um disco mais animado onde eu pudesse ficar livre para brincar com as palavras e também pudesse exagerar nessa estética colorida e de bonecos que eu curto muito”, ela contra em entrevista por e-mail ao Scream & Yell. O disco está disponível para venda no site www.erikamachado.com.br

Assim como os dois trabalhos anteriores, “Superultramegafluuu” conta com produção de John Ulhoa (Pato Fu) e participação do guitarrista Daniel Saavedra, que a acompanhará na turnê do álbum. No papo abaixo, Érika explica seu processo criativo, fala da predileção por letras felizes, conta de uma oficina que realizou em Belo Horizonte em 2014 e receita calma: “Vamos fazendo uma coisa de cada vez. Primeiro quero colocar o meu bloco na rua e tentar chegar ao maior número de pessoas possível e depois logo se vê!”. Com você, Érika Machado.

Como o personagem Fluuu surgiu?
Eu já estava em estúdio gravando e com as 11 músicas que pretendia gravar pré-produzidas, mas ainda não tinha um nome para o disco, tinha pensado em “Toda Palavra” ou “Pra Variar”, mas não estava satisfeita com esses nomes, eu queria colocar como título do disco o nome de alguma música, mas nenhuma delas tinha um nome que eu achasse sensacional para isso. Um dia voltando do estúdio fui falando no carro um monte de nomes que poderiam ser legais, até que me veio na cabeça Superultramegafluuu, e na mesma hora já me decidi por ele, mas eu tinha que fazer uma música com esse nome. Estava pensando no astral do disco, e decidi que essa seria a minha palavra mágica, cheguei em casa e fiz a música; gravei todas as vozes com os lalalás, e os úls montados no melodyne, aí foi fácil, só diversão e mids por cima! Mais tarde, quando estávamos fazendo as ilustrações e diagramando o encarte do disco (eu e a Filipa Bastos), começamos a chamar o boneco azul de Fluuu, gostamos dele, colocamos o monstro na bolacha e repetimos algumas vezes pelo encarte. O disco foi pra fábrica e as ideias foram aparecendo, até que a gente resolveu fazer uma pequena história em quadrinhos, contando de uma criança que tinha crescido e nesse processo acabou se esquecendo de uma coisa muito preciosa e importante, a criança que havia em seu coração… Nós ainda estamos construindo muitas histórias para o Fluuu e para seus amigos. No nosso Instagram (https://instagram.com/superultramegafluuu/) estamos postando – sempre nas segundas, quartas e sextas – alguns quadradinhos apresentando toda a turma. Decidimos que todos eles terão poderes mágicos (é que acreditamos que todas as pessoas tenham um poder também).

Temas ligados à infância já tinham surgido antes no seu trabalho, mas “Superultramegafluuu” é sua primeira imersão direta no universo infantil. Como se deu a criação do disco?
Eu tenho uma linguagem muito acessível, acho que minhas músicas permitem várias camadas de leitura, talvez por isto tenha chamando este público para perto do meu trabalho. Dessa vez queria fazer um disco mais animado onde eu pudesse ficar livre para brincar com as palavras e também pudesse exagerar nessa estética colorida e de bonecos que eu curto muito. Sabia também que apesar dessa liberdade maior na criação, teria que ter muita atenção (como por exemplo o cuidado com as letras, por exemplo: músicas como “Control Z” e “Tiozão de Bar” não poderiam figurar neste álbum). Essa coisa de ter muita liberdade por um lado e muita atenção por outro foi um desafio que me interessou muito. Além disso tudo, eu queria encher ainda mais as músicas de barulhinhos divertidos, e considerei que essa geração que hoje é criança e está sendo formada imersa nessa sonoridade sintética poderia entender muito bem o que eu estava afim de fazer. O público infantil é bastante interessante, estão sempre dispostos a conhecer o novo, chegam nos shows abertos e sem pré-conceitos e nos mostram direitinho o que é sinceridade, não fazem carão só porque é legal gostar disso ou daquilo, chegam pra ver e a resposta é imediata, sempre se manifestam, se estiverem gostando ficam até o final com um baita sorriso no rosto, se não gostam, pedem pra ir embora ou logo arranjam coisa melhor para fazer. Considero a criança um ser muito inteligente, apesar da pouca experiência, e neste trabalho não queria excluir os adultos e sim incluir os pequeninos, acho que é um disco para toda família. A criança não ouve música sozinha e nem vai ao show sozinha. E tenho que confessar, nunca me diverti tanto fazendo um disco como me diverti com o “Superultramegafluuu!”.

Pela terceira vez você tem John Ulhoa cuidando da produção. Como é tê-lo como “padrinho”?
A coisa mais legal do mundo é quando uma parceria dá certo, o John é um grande MESTRE e acabamos nos tornando grandes amigos, ele é um artista e um sujeito sensacional! Eu tenho muito apego quando as coisas dão certo, além do John tem também o Daniel Saavedra que é parceiro desde o primeiro disco e que também acabou virando um grande amigo, acho muito massa ir montando uma equipe que dá certo. Eu sou super fã do Pato Fu desde o início da banda e por isso fui atrás do John para ele produzir o “No Cimento” (o meu primeiro disco). Essa parceria deu tão certo que é impossível não pensar nele como o meu produtor da vida. Além disso, o John me ensinou a mexer no Logic, a tocar guitarra, a cantar melhor, a compor melhor, me ensinou até a andar de skate (eu ainda sou gralha, mas já consigo dar um rolé). A cada vez que faço um disco com o John, aprendo um colosso de coisas, e tenho ainda muito para aprender. Quando fui gravar no 128 Japs (o estúdio dele em Belo Horizonte) pela primeira vez, tinha umas músicas na cabeça e mostrei pra ele me acompanhando no violão, e ele me ajudou a terminar algumas delas, e viramos também parceiros de composição. Nessa época eu mal sabia escolher o tom ideal pra cantar e vendo ele trabalhar (e também pelas coisas que ele me explicou) fui evoluindo, e agora no “Superultramegafluuu” cheguei com as músicas pré-produzidas, muitas coisas programadas, e até ouso dizer que o meu mestre ficou orgulhoso de mim.

Seis anos separam” Bem Me Quer Mal Me Quer” de “Superultramegafluuu”. O que aconteceu neste período?
Acho que nem foi tanto tempo assim, lancei o “Bem Me Quer” em novembro de 2009, e em outubro de 2010 acabei indo para Portugal para fazer um Mestrado em Crítica de Artes e Arquitetura. Foi um período muito legal, fiquei três anos pela Europa, além de Portugal também morei em Dublin, na Irlanda. Os dois primeiros anos fiquei estudando e acabei esticando em 2013 por um grande amor, me casei em 2013 e voltei para o Brasil em novembro do mesmo ano. Lá em Portugal, além de estudar e passear muito (tive oportunidade de tocar em diversos lugares e em diversos países), me aventurei também na Rádio Ruc, onde pude aprender um montão sobre rádio, pude participar de diversos programas como apresentadora e tive até um programa só meu chamado “Pipoca e Chiclete”, que só tocava música independente brasileira. Em 2014, já de volta no Brasil, desenvolvi um projeto muito legal pela periferia da cidade, mostrando a minha forma de trabalhar como artista auto-produtora e artista plástica. Foi uma experiência muito enriquecedora, e ao mesmo tempo estava compondo e pré-produzindo o “Superultramegafluuu”. Resumidamente foi isso.

Acredito que as artes plásticas colaboram para a construção do seu trabalho musical. De que maneira ambas dialogam para você?
Acho que tudo isso é linguagem, e o meu trabalho, apesar de partir da palavra, é bastante visual. Não consigo separar muito bem uma coisa da outra, e também sempre faço a parte visual desse trabalho que é vendido como música (encartes, cenário, flyers, etc.), o que acaba misturando ainda mais as coisas. Acho bem legal pensar na parte poética e visual que um trabalho musical envolve, é bem interessante pensar no conjunto das coisas, alguns trabalhos podem me surpreender só por algum aspecto, mas quando é completo e feito com cuidado, acho muito mais inteiro e potente.

Como artista independente e auto-produtora de que forma você avalia o mercado fonográfico hoje?
Vou fazendo as minhas coisas, tenho aqui as minhas avaliações sobre o mercado fonográfico, sei das dificuldades e facilidades do mundo contemporâneo, mas, na prática, vou trabalhando e fazendo o melhor que posso, buscando parceiros e oportunidades para ocupar lugares legais com as minhas ideias. Venho inventando a minha forma de trabalhar e tenho me empenhado em tirar proveito das ferramentas disponíveis, vou indo no ritmo que consigo fazer bem feito. Tem valido a pena!

Você comentou sobre o projeto realizado em 2014, mas eu não o conhecia. Em que consistia?
Beeem resumidamente: esse projeto aconteceu nos 15 Centros Culturais da prefeitura de Belo Horizonte, graças a Lei Municipal de Incentivo a Cultura e a UNI BH. Era um projeto de caráter social e gratuito que tinha como proposta três oficinas gratuitas com quatro horas de duração divididas em três etapas, finalizando com um show aberto a comunidade. O módulo 1 foi sobre “Produção”: preparei um esquema e tentei expor todas as etapas importantes para a produção do meu show, apresentei o material que eu usava para oferecer o show, meu ryder e meu mapa de palco de som e luz, mostrei como funcionava o Ecad, vimos modelos de autorizações (de imagem, de espaço público etc.), contratos, planejamento de um show, Leis de Incentivo (mostrei como eu elaborava os meus projetos de Lei de Incentivo e disponibilizei cada um desses projetos também). O módulo 2 foi “Divulgação”: nessa oficina a proposta era criar um flyer para a divulgação do show (sempre com materiais que a gente tivesse disponível: pano, papel, tesoura, revista, lápis de cor ou o que mais a gente achasse pela frente a gente usava e registrava com uma máquina fotográfica). Montar uma estratégia de divulgação, pensar juntos a melhor forma de divulgar em cada uma das comunidades, com cada uma das comunidades, escrever juntos um release bem básico e falar sobre a importância de uma boa divulgação, o papel importante da assessoria de imprensa, redes sociais, Crowdfunding. O terceiro módulo foi focado em “Cenografia”, e essa foi praticamente uma oficina prática, com alguns elementos que eu levava e outros que a gente encontrava em cada um dos Centros Culturais. A gente montava o cenário mais legal que a gente conseguia, colocava a iluminação mais bonita que dava em cada espaço (sempre sem fugir do conceito do meu trabalho, porque afinal mais tarde aconteceria ali um show meu de voz e violão). Assim, no mesmo dia da oficina de cenografia ou um dia depois, acontecia um show gratuito e aberto para a comunidade. Eu queria criar uma oportunidade de troca, e mostrava como eu trabalhava enquanto me apontavam possíveis falhas e soluções. A inserção da comunidade no processo de elaboração de cada um desses shows foi muito demais, cada oficina foi de um jeito e cada reunião ia pra um lugar diferente, a ideia foi que a gente pudesse trocar experiências sobre um tema, aí tentei mostrar ao máximo a minha experiência de acordo com o interesse de cada grupo. Rolaram trocas incríveis, não só aprendi com eles como pude contar com muita ajuda para a execução dos shows, e ainda, vários dos participantes puderam assimilar conceitos básicos para sua auto-produção e poderão transformá-los em ferramentas de trabalho para projetos pessoais. Tem fotos nesse blog aqui -> https://erikamac.wordpress.com. Esse projeto foi muito gratificante, fora todas as trocas possíveis, apresentei o meu trabalho em lugares que ainda não tinha ido e fiz bons amigos.

Em tempos de rádios on line e podcasts você aceitaria realizar um programa nestes moldes por aqui?
Olha! Claro!

Em entrevista recente você afirmou que se pudesse voltar atrás não faria mais canções tristes. Por quê?
Porque sempre faço música a partir do meu ponto de vista, costumo dizer que tem gente que escreve diários, eu faço canções. O “Bem Me Quer” foi feito em um momento de perdas, havia acabado de perder o meu avô, que foi uma figura muito importante na minha vida e andava menos alegre que habitualmente. Eu prefiro os momentos felizes e é por este motivo que só queria fazer canção feliz.

De fato suas letras são marcadas pela pessoalidade. Como foi a sua infância e de que maneira ela contribuiu do universo de “Superultramegafluuu”?
A minha infância foi bem legal, as melhores lembranças são da casa dos meus avós, eu tinha muitos primos, todos com mais ou menos a mesma idade, e o tempo todo a gente inventava brincadeiras. Claro que a minha infância também influencia no que eu gosto e sou, mas não consigo pensar assim especificamente no que ela tenha contribuído para o universo “Superultramegafluuu”. Tenho algumas lembranças musicais da infância, acho que ouvi pouca música infantil, além do Balão Mágico não me lembro de nada feito pra crianças que tenha me encantado na infância. Eu nasci no mesmo ano que os Saltimbancos, mas fui prestar atenção bem mais tarde, isso também aconteceu com a Arca de Noé. Tenho uma lembrança muito forte de ouvir em casa Rite Lee, João Gilberto e Elis que dentre as coisas ótimas que minha mãe ouvia, são as que tenho mais vivas na memória. Eu também me lembro de ouvir no rádio Lulu Santos, Guilherme Arantes e Marina Lima.

Em Superultramegafluuu novamente você aposta numa gama considerável de sonoridades na construção do disco, o que provavelmente demanda uma banda de apoio. Quem irá te acompanhar nesta turnê?
Esse disco foi o primeiro que eu pensei no formato da banda antes de gravar o disco. Queria uma banda pequena e power, três pessoas pra circular macio. Então somos eu (voz, violões, guitarra, controlador e apito), Daniel Saavedra (Guitarra, violão, controlador e vocais) e Richard Neves (Teclados, baixos eletrônicos e vocais) mais baterias programadas e barulhinhos na base.

Atualmente projetos como o Pequeno Cidadão e o Partimpim tem rendido discos elogiados e conquistado tanto crianças quanto adultos. Você já tenciona dar continuidade ao universo construído em “Superultramegafluuu”?
Eu adoro os dois projetos, as crianças e os pais merecem ter a opção de consumir música boa. Estamos no início desse trabalho e os shows de lançamento ainda não aconteceram, mas já dá para perceber que será um projeto que vai me dar um monte de alegrias. Para mim esse é o projeto perfeito, posso abusar nas cores, nos barulhinhos, fazer coisas animadas e divertidas, gastar muito na estética dos bonecos que eu adoro e ainda brincar livremente com as palavras… Vamos fazendo uma coisa de cada vez, primeiro quero colocar o meu bloco na rua e tentar chegar ao maior número de pessoas possível e depois logo se vê! Mas desejo com muita força uma vida longa a este projeto que tem tornado os meus dias ainda mais felizes.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão

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– Uma noite mineira em São Paulo: Fernanda Takai e Graveola (aqui)
– Discografia Comentada: Pato Fu -> a loucura, o sonho e a maturidade (aqui)

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