Três filmes: François, Rodriguez, Grohl

por Marcelo Costa

“My Way”, 2012
Claude Antoine Marie François nasceu no Egito em 1939. O pai, francês, era casado com uma italiana, e trabalhava no Canal de Suez. Com a crise no canal em 1956, a família foi obrigada a se mudar para o principado de Mônaco, e Claude François, contra a vontade do pai, começa a sua carreira de músico, que irá transforma-lo em um dos maiores nomes da música francesa. Sim, é verdade. “My Way – O Mito Além da Música”, ótima cinebiografia assinada por Florent Emilio Siri, está ai para contar (com um delicioso toque francês) a história de um artista obcecado pela fama, ciumento com suas mulheres (entre elas a lolita France Gall, jovem cantora que tinha menos de 18 anos quando começou a sair com o músico, e estourou em 1965 com uma canção de Serge Gainsbourg, “Poupée de Cire, Poupée de Son”) e sonhador compulsivo. E compositor de “Comme d’Habitude”, que Frank Sinatra gravou como “My Way”, e se transformou em um dos maiores sucessos da história. Porém, esqueça esse “detalhe” e concentre-se em uma história tipicamente francesa, com exageros românticos (a maneira como Claude “conquista” sua terceira esposa é peculiar), musicais (homens chamavam Claude de “bichinha” por suas performances extravagantes enquanto ele dormia com algumas das mulheres mais lindas da França – e da Inglaterra) e econômicos. Eis um filme para entender a França (e com uma das mortes mais ridículas de todo o showbusiness).

Ps. Jérémie Renier, o ator escolhido, é idêntico ao cantor. E ótimo.

“Searching for Sugar Man”, 2012
Vencedor do Oscar na categoria Melhor Documentário, o filme de Malik Bendjelloul conta a história de dois fãs sul-africanos obcecados por um artista norte-americano que era maior do que Elvis na África do Sul, ainda que completamente desconhecido nos Estados Unidos. Sixto Rodriguez lançou dois álbuns no começo dos anos 70 – “Cold Fact” (1970) e “Coming from Reality” (1971) – que, cinicamente segundo o diretor de sua gravadora, venderam seis cópias. Um exemplar cruzou o Atlântico e caiu em na África do Sul vitimada pelo Apartheid, e passou de mão em mão, foi copiado em cassetes, lançado de forma pirata por três selos locais e vendeu milhares de cópias colocando Rodriguez como um dos porta-vozes da liberdade e do anti-establishment sul-africano. Porém, quem era Rodriguez? As informações eram desencontradas e terminavam, quase todas, em um suicídio sobre o palco na frente de dezenas de fãs. “Ele tirou um revólver e estourou os miolos”, diz um; “Ele colocou fogo no próprio corpo”, diz outro. Bendjelloul fragmenta a história com excelência enquanto vai jogando no colo do público pistas sobre o compositor: Ele trabalha em construções? Ele vive em Detroit ou Amsterdã? Ele ainda toca? Mais do que um documentário sobre uma busca de dois fãs, “Searching for Sugar Man” é um filme que revela não só um grande artista, mas a capacidade do mundo, dessa bolotinha azul repleta de sofrimento, cansaço e dor, ainda nos surpreender com uma história real com toques de mágica e sonho. Daqueles filmes obrigatórios.

“Sound City”, 2013
No começo dos anos 90, três moleques pés-rapados enfiaram seus instrumentos em uma van que poderia quebrar a qualquer momento e partiram em direção a um sonho: Sound City. O estúdio que estampava dezenas de discos de ouro na parede (Fleetwood Mac, Neil Young, Rick Springfield, Tom Petty) foi casa do Nirvana por 16 dias, que gravou ali “Nevermind”. O sucesso do álbum deu sobrevida ao estúdio – que havia sido deixado de lado devido à revolução tecnológica dos anos 80 com sintetizadores e baterias eletrônicas à frente – pós “Nevermind”, o estúdio recebeu gente como Metallica, Artic Monkeys, Frank Black, Queens of The Stone Age, Slipknot, Weezer e Rage Against The Machine, entre outros. A chegada do Pro-Tools, no entanto, foi fatal para o Sound City, que não acompanhou as evoluções tecnológicas e ficou a margem do mercado, fechando as portas em 2011. Dirigido por Dave Grohl, o documentário conta, em sua primeira parte, a história emocional do estúdio através de seus personagens, músicos e funcionários. É quase como se colocar uma câmera no cerne de uma família, que começa a rememorar fatos e histórias. Com o estúdio fechando as portas, Dave Grohl comprou a mesa Nieve responsável pela sonoridade de dezenas de discos clássicos, e a colocou em seu próprio estúdio, o 606. Começa então um segundo filme em que Dave chama músicos para gravarem no novo estúdio, e o que poderia descambar para uma narrativa publicitária revela boas discussões sobre o uso da tecnologia na música (com Trent Reznor arrasando em opiniões certeiras) e sobre o componente humano na música, aqui representado por Paul McCartney, o rockstar número 1 vivo, que grava “Cut Me Some Slack” com Pat Smear, Dave e Krist Novoselic. Um belo olhar sobre a alma da música.

Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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