Três filmes: Irmãos Coen 84, 87 e 91

por Marcelo Costa

“Gosto de Sangue” (Blood Simple, 1984)
Em seu filme de estreia, os Irmãos Coen apostam no gênero suspense e partem de uma premissa batida, mas não menos impressionante / interessante. Um homem, Marty (Dan Hedaya), dono de um bar em uma cidadezinha do Texas, manda um detetive investigar a esposa, Abby (Frances McDormand), que, ele acredita, está o traindo. Loren (M. Emmet Walsh), o detetive, consegue fotos incriminatórias de uma primeira noitada de Abby com Ray (John Getz), empregado no bar de Marty. Com todas essas peças na mesa, os Coen criam uma pequena fábula de erros que começa na decisão de Marty em matar os pombinhos, e segue num levanta e tropeça típico do cinema dos irmãos, e que encontraria uma fórmula perfeita no clássico “Fargo” (1996), mas que aqui ainda soa um tiquinho óbvio, embora os diálogos matadores recomendem uma olhadela com carinho. Para o lançamento especial em DVD, os Coen provocaram: a Edição do Diretor (Director’s Cut”), ao invés de ser mais extensa do que a exibida na época (praxe no mercado de egos), é alguns segundos mais curta, o que só aumenta o brilho de uma estreia vigorosa (preste atenção ao sotaques dos personagens, objeto de fascinação no cinema dos Coen), o melhor dos filmes da primeira fase dos irmãos.

****½

“Arizona Nunca Mais” (Raising Arizona, 1987)
Em seu segundo filme, os Irmãos Coen tentaram dar uma aura mais alegre para o produto final. A narrativa permanece no Sul dos Estados Unidos, desta vez no Arizona, local em que um assaltante trapalhão, H.I. McDonnough (Nicolas Cage), é preso tantas vezes que acaba seduzindo a policial responsável por registrar sua foto para a ficha criminal. Ela se chama Ed (Holly Hunter), e decide se casar com H.I. e mudar-se para um trailer. O casal tenta muito ter filhos, até descobrir que Ed não é fértil. Paralelamente, a mídia divulga a cobertura do nascimento dos cinco bebês de um famoso comerciante local (tipo Silvio Santos). É quando surge a ideia de Ed e H.I. sequestrarem um dos cinco bebes. “Eles tem muitos e nós não temos nenhum. Eles não vão sentir falta”, justifica o casal. Cartas na mesa para mais uma trama de erros que traz um Nicolas Cage bastante dedicado, mas pouco confortável no papel (houveram muitos desentendimentos entre o ator e os Coen durante a produção). No balanço final, uma boa comédia de sotaques (mais uma vez irresistíveis), que se não entra para o rol dos grandes filmes dos Coen, funciona como um bom passatempo de sessão da tarde.

***

“Barton Fink” (Barton Fink, 1991)
Em seu quarto filme, os Coen continuam no Sul, mas desta vez sobem para a ensolarada Califórnia, terra que abriga um jovem roteirista, Barton Fink (John Turturro), que, após fazer fama na Broadway, é contratado pela Capitol para escrever roteiros de cinema e se muda para Los Angeles, que irá minar sua criatividade. Talvez um dos filmes mais difíceis e cheios de significados dos Coen, “Barton Fink” fracassou nos cinemas, mas ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em 1991, e teve três indicações ao Oscar (primeira vez que os Coen participam da maior cerimônia da indústria), uma delas para Michael Lerner, como ator coadjuvante pelo sensacional papel de Jack Lipnick, diretor da Capitol. É tudo basicamente ilusório (e o subtítulo nacional entrega de bandeja a trama: “Delírios de Hollywood”), sem ligação aparente, embora repleto de significados – até no final, absolutamente enigmático. Os Coen encavalam citações de Shakespeare, Faulkner, Keats e a Bíblia, entre outros, além de filosofia e ironia, e mais confundem o espectador do que explicam. Aqui reside a força do filme: muitas pessoas (críticos principalmente) veneram o que não entendem (eles e seu público). “Barton Fink” é um pesadelo cômico (eis a vida de um roteirista). Não passa disso – e nem é tão bom assim.

**½

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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