Boteco: da Alemanha, seis cervejas da Erdinger

por Marcelo Costa

Surgida em 1886 em Erding, uma cidade bávara de pouco menos que 35 mil habitantes a cerca de 40 minutos de Munique, mas com o nome Erdinger apenas a partir de 1949, a Erdinger Weissbräu se auto intitula “a maior cervejaria de cervejas de trigo do mundo”. Ela está presente em mais de 70 países, e chegou ao Brasil apenas em 2001. Hoje, seus oito rótulos podem ser encontrados com facilidade em várias redes de supermercados, sendo seis deles da linha tradicional (os listados neste post) e dois da linha sazonal: Erdinger Oktoberfest, que se diferencia por ser uma German Hefeweizen especial para a comemoração de outubro, e não uma tradicional Marzen ; e a Erdinger Schneeweisse, produzida para as festas de final de ano. Abaixo, impressões das seis da linha tradicional.

Abrindo a série Erdinger com a Weissbier Alkoholfrei da casa, uma cerveja com apenas com apenas 0.4% de graduação alcoólica indicada como isotônico para atletas (é considerada não alcóolica toda cerveja com menos de 0.5% de graduação) tendo até um grupo com cerca de 3 mil membros ativos, vários deles atletas de triathlon. De coloração dourada com turbidez suave e creme branco de ótima formação e permanência, a Erdinger Weissbier Alkoholfrei apresenta um aroma maltadíssimo, com bastante sugestão de cereais e derivados (trigo, pão, biscoito, feno) e leve toque herbal (ervas e grama). No paladar, reforço da sugestão de cereais (valorizando o termo “pão liquido”) com dulçor equilibrado e amargor pontual com leve toque picante resultando em um conjunto bastante agradável. O final junta cereais, picância, doçura e leve acidez. No retrogosto, leve amargor e leve doçura. Gostei.

Quando foi lançada no Brasil em 2008, a Erdinger Champ buscava passar a ideia de ser uma cerveja para ser bebida direto da garrafa na balada (com direito a abridor adaptado no fundo da garrafa), proposta interessante já que é muito mais comum encontrar Lagers. A receita, porém, amacia o estilo German Hefeweizen para as massas, deixando pouco dos atributos originais. A coloração é amarelo turvo com creme branco de boa formação e permanência. No nariz, aroma tímido. Esqueça a sugestão intensa de banana e cravo (símbolos do estilo). A banana aparece muito suavemente num conjunto que traz delicada presença de cítrico. Se o aroma decepciona, o paladar perde mais pontos por oferecer muito pouco ao bebedor: há praticamente nada de banana, nada de cravo, pouca sugestão e lupulagem fraca. O final é adocicado enquanto o retrogosto traz leve sugestão de banana. Decepção.

Começando a sério o passeio pelas cervejas da Erdinger (brincadeira: a Alkoholfrei é ótima no que se propõe) com a Weissbier tradicional, a cerveja mais conhecida da casa bávara. De coloração dourada com leve turbidez e creme branco de ótima formação e longa duração, a Erdinger Weissbier apresenta um aroma clássico com notas frutadas (derivadas da levedura) que remetem diretamente a banana, leve condimentação (semente de cravo) e trigo (pão e biscoito). Há ainda pecepção suave de tutti-frutti e leve cítrico. Na boca, um conjunto bastante agradável que replica nos detalhes o que o aroma antecipa: frutado à frente (banana) com amargor caprichado e condimentação destacável na retaguarda buscando equilíbrio. Há leve acento cítrico além de um suave e agradável azedinho. O final traz domínio frutado enquanto o retrogosto inclui trigo, feno, campo, leve adstringência e banana. Bem boa.

A Erdinger Dunkel é uma Dunkelweizen cuja receita une malte de trigo, malte de cevada e malte torrado. De coloração marrom escura com creme bege de ótima formação e média alta permanência, a Erdinger Dunkel apresenta um aroma (como se espera) maltado (mas) puxado mais para toffee e baunilha do que para café (que pouco aparece no conjunto). Há ainda leve sugestão aromática de frutas escuras (ameixa) e também leve condimentação. Na boca, uma boa replicação do que o aroma antecipa: doçura de toffee e baunilha logo no primeiro toque com amargor discreto subsequente permitindo o reinado do malte numa cerveja de percurso bem doce (chocolate, caramelo, baunilha) cujas notas derivadas da torra do malte surgem no finalzinho, e depois retornam no retrogosto envolvidas em caramelo. Esperava mais combate do amargor e da torra, mas, ainda assim, é uma boa cerveja.

Uma das estrelas da casa (para os cervejeiros), a Erdinger Pikantus é uma Weizenbock para colocar sorriso no rosto do bebedor. De coloração âmbar levemente amarronzada e creme bege de ótima formação e permanência, a Erdinger Pikantus apresenta um aroma maltado com predomínio de doçura de açúcar queimado e condimentação (pimenta do reino). Ainda é possível sentir sugestão de frutas escuras (figo e ameixa) e leve amadeirado. Na boca, malte torrado (com mais presença de torra que na Dunkel) e reforço de doçura de açúcar queimado. Há ainda caramelo e baunilha além de frutas escuras (figo e ameixa) e banana caramelada. O amargor é pontual e funciona bem como inibidor da doçura, que domina o conjunto, mas não chega a enjoar. Há leve condimentação, que marca no primeiro toque, mas desaparece rapidamente. O final é doce e torrado. No retrogosto, caramelo, baunilha e açúcar queimado. Obrigatória.

Fechando o sexteto da Erdinger com a Urweisse, uma das cervejas mais novas do catálogo da casa (chegou ao mercado em janeiro de 2008), com pegada mais condimentada. De coloração âmbar alaranjada com creme branco de ótima formação e média alta permanência, a Erdinger Urweisse apresenta um aroma com notas tradicionais de Weiss: banana em primeiro plano, condimentação mais presente (semente de cravo e leve pimenta do reino) e sugestão de tutti-frutti e pão. Na boca, doçura rápida de malte (caramelo) e condimentação (cravo e pimenta do reino) caprichada, que consegue mostrar suas características sem esconder as notas frutadas (banana e leve abacaxi) e a clássica percepção de pão do estilo num conjunto leve, agradável e bem conciso. O final é condimentado, frutado (banana) e levemente adocicado. No retrogosto, secura, leve acidez e… banana. Já é minha segunda Erdinger predileta.

Balanço
Abrindo uma sequencia de cervejas da turma de Erding com a Alkoholfrei da casa, uma delícia que mantém o padrão das receitas tão boas quanto da Schneider Weisse TAP 3 e da Paulaner Alkoholfrei. Numa comparação direta, a Erdinger Alkohofrei me pareceu levemente melhor por uma suave presença de amargor e condimentação, mas gosto bastante das três. Já a Erdinger Champ é uma cerveja especial para balada, ou seja, prum local em que você não vai se importar com o que está bebendo. Dito isto, a única vantagem da Erdinger Champ é oferecer um contraponto de (pouco) sabor para Stella Artois e Heineken, porque há pouco em seu conjunto que honre o estilo German Hefeweizen. Passando agora para as cervejas sérias (lembrando que a Alkohofrei é uma baita representante das sem álcool) com o cartão de visitas da casa: Erdinger Weissbier, uma ótima cerveja de trigo como tem que ser. Das linhas tradicionais, a Weihenstephaner reina absoluta aqui em casa. Depois dela, a Paulaner assume o segundo posto e Franciskaner, Schneider e Erdinger chegam juntas no grupo de boas Weiss tradicionais. Já a Erdinger Dunkel também me decepcionou: doçura demais! Cade o amargor do lúpulo, da torra do malte? Bem, de uma decepção para um orgulho: se tem uma cerveja da Erdinger que você pode ir atrás é a Pikantus, uma Dunkler Weizenbock de responsa, que traz doçura, mas o amargor e o torrado do malte (e os 7.3% de álcool) equilibram o conjunto. Essa é das que sempre estão na geladeira aqui em casa. Fechando o sexteto com a minha primeira Erdinger Urweisse, uma versão mais condimentada e, ao mesmo tempo, suave da Weissbier da casa. Gostei bastante! Bem leve e bem saborosa.

Erdinger Alkoholfrei
– Produto: Cerveja Sem Álcool
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 0,4%
– Nota: 2,36/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 7,45 – 500 ml

Erdinger Champ
– Produto: German Hefeweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,7%
– Nota: 2,35/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 5 – 330 ml

Erdinger Weissbier
– Produto: German Hefeweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5,3%
– Nota: 3,41/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 7,45 – 500 ml

Erdinger Dunkel
– Produto: Dunkelweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5,3%
– Nota: 2,85/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 7,45 – 500 ml

Erdinger Pikantus
– Produto: Weizenbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 7,3%
– Nota: 3,51/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 7,45 – 500 ml

Erdinger Urweisse
– Produto: German Hefeweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4,9%
– Nota: 3,46/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 7,45 – 500 ml

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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