Três perguntas: Gustavo Duarte

por Leonardo Vinhas

Em 2013, Gustavo Duarte bateu um longo papo com o Scream&Yell. A conversa sugeria que ele estava em seu melhor momento, pois tudo assim o indicava: lançando o livro “Monsters! And Other Stories” nos Estados Unidos pela editora Dark Horse, gozando do sucesso de sua contribuição para o projeto Graphic MSP, “Chico Bento – Pavor Espaciar”, vendo seus livros editados no Brasil (inclusive Monstros!, lançado pela Quadrinhos na Cia., selo de HQs da Companhia das Letras) tornarem-se mais conhecidos…

Passado pouco mais de um ano, a situação é outra. E muito melhor: a exposição de seu trabalho no exterior rendeu convites para fazer trabalhos para as gigantes Marvel e DC – você sabe, aquelas cujos personagens estão servindo de matéria-prima para encher os bolsos dos estúdios de Hollywood. Aliás, o artista pegou justamente uma história dos Guardiões da Galáxia: “Guardians of the Galaxy – 100th Anniversary”, e está fazendo o número 5 da série “Guardians Team-Up”, um título recém-criado pela editora. A Casa das Idéias ainda lhe encomendou a história “Weird”, publicada na one shot (edição que não faz parte de uma série) “Avengers: No More Bullying”. Para a DC, Gustavo trabalha atualmente no personagem Bizarro, do qual não pode falar muito porque o projeto é mantido em sigilo até sua estreia (nos EUA) em junho.

Além disso, “Monstres!” é a edição europeia da Editions Paquet que leva o trabalho de Gustavo à França, Suíça e Bélgica. E a Quadrinhos na Cia. relançou dois dos livros publicados de forma independente em uma única e caprichada edição: “Có! & Birds”. Ou seja: o “melhor momento” estava apenas começando…

Dá para reclamar? Bem, do trabalho, não, mas Gustavo ainda tem muitas queixas, como naquela primeira conversa. E seria curioso se assim não fosse: trabalhar com livros (ou revistas, ou qualquer outra forma de texto) em um país onde, há pouco, mais de meio milhão de jovens mostrou ser incapaz de escrever uma redação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), não é tarefa fácil. O fato de Gustavo praticamente prescindir de palavras em seus quadrinhos não alivia: pelo contrário, há leitores que se queixam de “comprar um livro sem palavras” ou mesmo não entender a narrativa visual.

Em um papo muito mais breve dessa vez, Gustavo fala das boas novas, mas também garante um espacinho para lembrar que ainda há muito para fazer em prol da leitura (e do mercado literário e quadrinístico, claro) em terras brasileiras.

Da última vez que falamos, “Monsters” estava para ser lançado pela Dark Horse. Como foi a repercussão do livro no exterior? A parceria com a editora trará mais livros?
Para um primeiro livro está indo bem. Completou um ano agora em janeiro. Está na segunda tiragem, caminhando para a terceira. As críticas e resenhas foram bem positivas. Acho que está num caminho legal. Quanto a lançar mais coisas, da última vez que entrei em contato com a minha editora, falamos rapidamente sobre isso e ela disse que existe interesse por parte deles em um novo livro. Devemos conversar sobre ele na minha próxima ida aos Estados Unidos.

Você sempre viu com desconfiança o mercado brasileiro. O que essa experiência no mercado norte-americano te ensinou? Temos condições de ter um mercado tão competitivo e financeiramente viável?
A minha desconfiança não é com o mercado. Minha desconfiança é com o país, que há mais de 50 anos abandonou qualquer tipo de investimento em educação e cultura, e hoje colhe os frutos com uma boa parte da população cada vez mais ignorante e desinteressada. Não podemos nos comparar nem com a Argentina, quanto mais com os Estados Unidos. Temos condições de ter um bom mercado. Acredito nisso. Somos um país enorme. Mas temos que criar o costume da leitura aqui no Brasil. Tanto falando de quadrinhos quanto de literatura mesmo. E onde isso já existe – em livrarias, bibliotecas e escolas –, tirar os quadrinhos da última prateleira, da última estante, virada pra trás.

Trabalhando para Marvel e DC, você está lidando com projetos que tem décadas de cronologia, acertos e erros, além de ter que trabalhar em parceria com roteiristas e editores de um jeito que normalmente não acontece em seus outros trabalhos. O que efetivamente pode aparecer de autoral, fora o traço, no que você produzir para essas editoras?
Como você falou, é uma parceria. E em toda parceria, nós temos um pouco de cada um que produz dentro desse projeto. O traço, como você disse, e a narrativa são os pontos que enxergamos mais facilmente. Mas dependendo do roteirista e do editor, existe uma maior abertura para opiniões e sugestões. Eu até agora tive muita sorte com os roteiristas que trabalhei e estou trabalhando. Tanto o Andy Lanning, nos Guardiões, quanto o Heath Corson, agora no Bizarro, têm feito questão de conversar sobre o roteiro, pedir sugestões e até mesmo usar personagens e caminhos nas histórias que tenham a ver com o que tenho feito nas minhas outras histórias.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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