Três perguntas: Lara Rossato

por Leonardo Vinhas

Lara Rossato faz “pop de raiz”. Explica-se: sua música tem aquilo que, não muito tempo atrás, chamava-se de “apelo radiofônico”, canções com aquela vocação para serem repetidas sem cansar o ouvinte – pelo contrário, tendem a viciá-lo mais e mais na audição, encantando da faxineira ao gerente da empresa. Música pop feita por quem ouviu muito o estilo, e se dedicou a aprender a fazê-lo.

Isso tem a ver com a formação dessa gaúcha de 26 anos, que cresceu em uma fazenda ouvindo as rádios passíveis de sintonia nos arredores rurais de Dom Pedrito (RS), programadas com canções regionais do seu Estado, da Argentina e do Uruguai. A chegada à cidade grande, na adolescência, ampliou a dieta musical. “Conheci o rock n’ roll e curtia bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd. Mais tarde, comecei a gostar também de música eletrônica. Acredito que de todos os gêneros que ouvi incorporei algum elemento, mas sempre optei por fazer pop, porque acho um gênero universal. Os únicos gêneros que não chegaram até mim foram MPB, bossa nova e samba. Às vezes me sinto uma estrangeira fazendo música em meu próprio país”, contou Lara ao S&Y.

“Mesa para Dois”, seu segundo álbum, lançado no fim de 2014 e disponibilizado para download gratuito em seu site oficial, resume essas influências de apelo assumidamente popular que jamais resvala no popularesco. O resultado é superior ao obtido em “Doce”, seu álbum de estreia de 2011, que se baseava numa estética pop rock simpática e sem maiores novidades. “Mesa para Dois” valoriza a amplitude de sua voz, sem deixar que isso se traduza em mera demonstração de técnica vocal, e capricha nos arranjos, que já entenderam que vigor não se mostra apenas com guitarras distorcidas.

Desta forma, há espaço para o frescor de “Depois de Todos Esses Anos”, para a animada ironia de “Tenha um Bom Dia”, para o romantismo oitentista de “Julho de 2013”. As referências são muitas, mas é inevitável lembrar-se da Shakira de “Pies Descalzos” e “Dónde Están los Ladrones?”, quando a colombiana ainda era mais preocupada com acordes e arranjos do que com rebolados e penteados. O rock pos-grunge dos anos 90 também aparece, herança dos tempos em que Lara cantava em bares com bandas cover.

Lara é uma das integrantes do projeto “Somos Todos Latinos”, que o Scream & Yell disponibilizará na segunda quinzena de março (infos aqui), e vem divulgando seu segundo disco com banda, quando possível, e também em apresentações acústicas. Está tão focada em promover “Mesa para Dois” que até retirou o antecessor “Doce” de seu perfil no Soundcloud e não o disponibiliza mais para download gratuito. “As pessoas ouviam o antigo pensando que era o novo”, justifica-se. Ouça, então, o “novo”, e o que sua autora tem a dizer.

O que chama a atenção no seu disco é a vocação para o pop radiofônico. Nota-se que sua música pretende se comunicar com muitas pessoas. Porém, a rádio e a TV no Brasil hoje têm uma dieta exclusiva de popularesco. Como esse apelo pop pode, então, chegar ao público?
Estou conquistando o meu público usando a internet e fazendo shows. É fato que é muito difícil entrar na maioria das rádios e TVs, mas mantenho uma visão positiva sobre isso, sei que isso pode mudar ou eu posso me adaptar a isso também. Além disso, existem ótimos veículos abrindo espaço para o artista independente, principalmente na internet.

O universo dos relacionamentos amorosos é o mais presente em sua música – como já se nota pelo título do álbum. Para ser universal, o pop precisa necessariamente ser romântico, ou esse é o tema sobre o qual você efetivamente prefere escrever?
Para mim, o pop tem uma linguagem simples e de fácil assimilação. O amor é um tema recorrente na maioria das músicas porque é uma experiência que todos nós, mais cedo ou mais tarde, sentimos e compartilhamos. Então, juntando o pop e o amor, você entra mais fácil na casa e no coração das pessoas. Eu gosto disso, minha relação com a música é essa, que ela de alguma forma melhore, inspire, entretenha o meu público. Esse disco foi direcionado para o pop romântico, ele fala do amor de uma forma bem madura, sem clichês, mesmo nas coisas mais simples do cotidiano, porém eu escrevo sobre temas variados, que certamente irão entrar em discos futuros.

Além da boa repercussão na mídia gaúcha, quais outros frutos que “Mesa para Dois” já lhe rendeu?
A cada dia ele me traz novas surpresas. Pessoas dos quatro cantos do Brasil dizendo que ouviram minha música. Na verdade, quando se lança um disco, nunca se sabe o que pode acontecer, e aí que está a magia! Tive vários contatos de produtores e selos de boas gravadoras, que demonstraram interesse, porém estou indo bem devagar com tudo isso, tenho meus pés fincados no chão. O que esse disco mais está me trazendo é um super desenvolvimento profissional e pessoal. Tenho completa certeza que recém eu comecei a minha plantação, e que os frutos só serão colhidos mais adiante.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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